Escada enrolante

 

Voltei a Brasília preparado para usar carro, não ver gente nas ruas, usar camiseta. Só não previa as escadas rolantes

Por Daniel Cariello*, em Chéri à Paris

Quando decidi voltar pra Brasília, vim preparado pra ter uma vida completamente diferente da que levava em Paris. Pra precisar de carro, pra não ver gente nas ruas, pra voltar a usar camiseta como vestimenta do dia a dia, pra encarar com indiferença as tempestades tropicais que na França seriam tomadas como a chegada do apocalipse. Só não me preparei para as escadas rolantes.

TEXTO-MEIO

– Dá uma licencinha?
– Hã?
– Chegadinha pro lado, pra eu passar.
– Passar como?
– Passar passando, ué.
– Você não tá vendo que estou aqui parado?
– Tô. E é por isso mesmo que eu quero passar.
– Estamos em uma escada rolante.
– Exatamente! É uma escada rolante, não uma fila rolante. As pessoas andam nas escadas.
– Mas como essa aqui rola, a gente pode ficar parado, só curtindo a paisagem.
– Que paisagem? Isso é um shopping center, só tem vitrine.
– Rapaz, de que mundo você veio? Olha ali embaixo.
– O quiosque de algodão doce? O que tem?
– Ao lado.
– A livraria?
– Entre os dois.
– Não tô vendo nada.
– ABRE O OLHO, DIABO! Não tá vendo aquela gostosa de shortinho?
– Ah. É mesmo!
– E ali à esquerda. Saca aquele cara de terno verde. Ele tá sempre por aqui, cada dia com uma roupa mais estranha do que a outra. Um personagem.
– Que figura!
– Olha, vou te contar uma coisa: a escada rolante é a nova pracinha. Daqui a gente vê a vida passar, as pessoas desfilarem, o mundo acontecer. Ao menos esse pequeno mundo que é o shopping center.
– Ah é? Então me diz quem é aquela ali, no andar de cima.
– É a moça que trabalha na farmácia. Primeira a chegar e última a sair. Trabalha até nos fins de semana. Explorada pelo patrão, coitada.
– Qual o nome?
– Não tenho ideia. Mas daquele ali eu sei. É o José, funcionário da lotérica. Ele se vangloria de já ter registrado uma aposta que deu a quina. Pouca gente sabe, mas no fundo ele torce contra os apostadores.
– Que estranho.
– É a vida, ela é estranha. E a gente enxerga isso melhor parado na escada rolante, subindo e descendo em ciclos.
– Engraçado como nunca reparei nisso.
– É porque você está sempre apressado, sobe atropelando todo mundo.
– Como você sabe que eu…
– E depois corre para aquela agência do 2º andar.
– Mas quem te disse que…
– Aliás, dessa vez é melhor você correr mesmo, senão vai chegar atrasado para a reunião com o cliente, que acabou de passar por aqui.
– Ok, ok. Bom, de qualquer forma, muito prazer. Meu nome é…
– Daniel. Eu sei.
– Nossa, incrível! E o seu?
– O meu? Ora, você nem me conhece. Era só o que faltava, a gente quer ser simpático e o outro já vem cheio de intimidades. Daqui a pouco quer saber da minha vida, meu trabalho, meus horários…


(*) Daniel Cariello é colaborador regular do Outras Palavras. Escreve a crônica semanal Chéri à Paris,

TEXTO-FIM
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Daniel Cariello

Daniel Cariello é colaborador de Outras Palavras e, antes, do Diplô Brasil, desde 2008. Já lançou dois livros de crônicas, Chéri à Paris (2013) e Cidade dos Sonhos (2015), ambos best sellers na Amazon. Foi cronista de Veja Brasília e Meia Um. Este texto faz parte de seu novo projeto, Cartas da Guanabara, com crônicas cariocas. É editor do selo literário Longe.

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