Esboços de uma democracia digital

Indignados espanhóis criam ferramentas inovadoras para ação política e convidam a imaginar Estado que seja mera estrutura para trocas autônomas

Por Bernardo Gutierrez | Tradução: Antonio Martins

Um ano depois de seu início, a Revolução Espanhola sobreviveu às vitórias do ultra-conservador Partido Popular (PP), nas eleições municipais de 22/5 e gerais de 20/11. O PP obteve sua maior vitória de todos os tempos, mas – com apenas um em cada três espanhóis votando em seu favor – dificilmente pode alegar que é “representate” da população. A baixa capacidade de mobilização dos partidos, especialmente entre eleitores jovens, contrasta com a intensa participação destes nas ruas.

Quando eclodiu o movimento 15-M, em maio de 2011, e as ruas espanholas encheram-se de indignados, quase não se notou uma inovação que acompanhou a ação: o tweetômetro Yes We Camp. O coletivo Platoniq, especializado em tecnologias para os comuns, concebeu esta ferramenta que permite ao ativismo das ruas fundir-se com o da rede. Qualquer usuário da internet podia votar nas propostas debatidas em assembleias cidadãs nas praças. Bastava twitar “sim” ou “não”, com uma hashtag correspondente ao tema em discussão.

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O tweetômetro sugere a possibilidade de duas inovações potentes para o futuro da democracia. Primeiro, a participação política pode ser facilitada pelas expressões em tempo real que constroem as mídias sociais. Segundo, o espaço público pode se converter numa versão revisada, mais participativa e aberta, da antiga polis grega. Redes de cidadãos tornam-se capazes de coordenar espaços de poder oferecidos pelas instituições deste novo P2Polis.

Este modelo original de participação coletiva fez da Espanha um dos países mais próximos da sociedade P2P. O 15-M impulsionou iniciativas como Goteo, uma espaço de quotização (crowdfunding), Nockin, um buscador de serviços, Kune, uma plataforma para facilitar a cooperação ou Nolotiro, um espaço virtual para troca de bens usados.

Além disso, a rede horizontal é um fator político poderoso. O 15-M tornou-se um lobby cidadão influente, que, além de influenciar a agenda midiática (#15M obtém frequentemente status de tópico destacado no Twitter), forçou o PP a rascunhar uma nova lei de transparência.

Mas talvez a conquista mais importante tenha sido a decentralização dos acampamentos. Toma los bairroscriou uma rede de assembleias locais tematicamente conectadas. Estas redes políticas populares, com base em espaços públicos, têm um forte poder de influência. Além disso, o 15-M está transformando a chamada inteligência coletiva em ação coletiva em tempo real.

Projetos como StopDeshaucios, criados para resistir a desocupações de famílias incapazes de pagar suas hipotecas, ou Brigadas Vecinales,iniciativas de vizinhança que protegem migrantes das ameaças da polícia, mostram que um tópico do Twitter pode desencadear ação coletiva.

O Campo de Cebada, um mercado madrilenho que fechou devido à crise e foi recuperado pelo movimento, é um dos grandes protótipos do 15-M. Um entre muitos espaços autogovernados na Espanha, ele revela uma nova forma de democracia, que se esboça quando cidadãos colaboram para encontrar soluções para problemas tangíveis. Nesta democracia em tempo real, o Estado poderia ser pouco mais de uma estrutura que assegure o compartilhamento e trocas livres entre os cidadãos.

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Bernardo Gutierrez

Bernardo Gutierrez (@bernardosampa) é jornalista, escritor e consultor digital. Pesquisa o mundo P2P e as novas realidades da cultura open source. Fundador da rede de inovação Futura Media.net.