Energia e geopolítica: a batalha pela Ásia Central

Interessados em controlar uma região estratégica do planeta, EUA são confrontados por Rússia e China — que têm trunfos poderosíssimos

Por M K Bhadrakúmar, Asia Times Online | Tradução Coletivo Vila Vudu

Há profunda diferença de opinião entre Ésquilo, dramaturgo grego, e Percy Bysshe Shelley, poeta britânico e romântico, sobre as circunstâncias da libertação de Prometeu: para o grego, teria havido reconciliação com Júpiter; para o romântico, Prometeu rebelou-se. Por reconciliação com Júpiter ou por rebelião, nos dois casos está escrito que Prometeu “não foi derrotado”.

As circunstâncias exatas do fim do jogo no Iraque e no Afeganistão jamais serão perfeitamente esclarecidas e serão objeto de controvérsias eternas, mas ninguém duvida de que os EUA – que, como Prometeu estavam acorrentados a uma montanha na qual sofriam o terrível suplício diário de ter o fígado mastigado pela águia de Júpiter – estão sendo devolvidos à vida normal.

No caso de Prometeu, foi Hércules quem apareceu para desatá-lo da montanha. E Prometeu, aliviado por ver-se afinal devolvido à liberdade “tanto tempo desejada/E sempre adiada”, promete à amada e às ninfas que todos “sentaremos e falaremos do tempo e de mudanças/Enquanto o mundo sobe e desce como as marés/E nós, sempre, inalterados”[1].

Os EUA também aí estão, reemergindo, “inalterados”. O que se vê hoje é, de fato, um frenesi, como se quisessem recuperar o tempo perdido: intervenção militar “unilateral” na Líbia; fogo de um esquadrão de F-16 na Polônia; estabelecimento de bases militares na Romênia; ressuscitação dos planos da era George W Bush para instalação de um sistema de defesa de mísseis dos EUA na Europa Central; ressurreição da entente cordiale entre “os novos europeus”; ameaça de “intervenção humanitária” na Síria; reativação da conversa sobre ação militar contra o Irã; atividade na direção de presença militar de longo prazo no Iraque e no Afeganistão; ativação da expansão da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) na direção da Ásia Central; violação da soberania e integridade territorial do Paquistão; ameaça de “mudança de regime” forçada no Sri Lanka; e, no fim de semana passado, anúncio do deslocamento de navios leves de combate em Cingapura.

TEXTO-MEIO

Tudo isso aconteceu num período de cem dias. Era quase inevitável que o grande jogo do Mar Cáspio fosse também ressuscitado. Depois de inexplicável hibernação desde o final do governo Bush no início de 2009, Richard Morningstar – emissário especial dos EUA para assuntos de energia na Eurásia – está de volta à arena.

Se o que Richard Morningstar disse ao Comitê de Relações Estrangeiras da Câmara de Deputados dos EUA semana passada tiver de ser resumido numa única mensagem, será a seguinte: o núcleo duro da estratégia dos norte-americana, no que tenha a ver com energia na Eurásia, permanecerá “inalterado”. O que significa, literalmente, desafiar a capacidade potencial da Rússia para usar suas vastas reservas como exportador de energia, e impedir que esse país reapareça no cenário mundial como grande potência.

Volta à superfície a retórica da Guerra Fria

A agenda geopolítica da estratégia dos EUA para a energia da Eurásia foi explicitada nua e cruamente como é característico nas audiências no Congresso dos EUA, como observou, imediatamente, Ariel Cohen, conhecido especialista em assuntos russos.

Pode-se argumentar que nada há de surpreendentemente novo na tese de Cohen sobre a “agenda expansionista” dos russos manifesta em suas políticas de energia, mas mesmo assim é útil relembrá-la, porque ali está o pano de fundo do que Morningstar disse ao Congresso. Na audiência, Morningstar estava limitado pelas normas da prática diplomática e não pôde fazer qualquer crítica direta à Rússia – com quem o governo de Barack Obama atualmente se dedica a um “reinício”. Sob essa limitação, o que Morningstar disse foi que:

– O Kremlin vê a energia como ferramenta para perseguir uma política exterior assertiva.

– O nível de dependência da Europa em relação à Rússia, no campo da energia, é inaceitavelmente alto.

– A Rússia tem tentado excluir os EUA dos mercados de energia da Ásia Central e do Cáspio.

– A Rússia usa a energia para “reengajar” a Índia, o Sudeste da Ásia, o Oriente Médio, a África e a América Latina.

– A Rússia força países vizinhos a dirigir suas exportações de energia, via seu sistema de oleodutos e gasodutos.

– A ausência do império da lei impede empresas ocidentais entrarem no setor russo de energia.

– A Rússia continua não interessada em desenvolver laços de energia com os EUA.

Cohen facilmente inferiu daí a geopolítica. Primeiro, prevê-se que a demanda de energia na Europa crescerá ainda mais e pode levar a Europa a depender ainda mais da Rússia, o que tem sérias implicações nos laços entre Moscou e a Europa.

Tudo isso significa que os EUA prevêem que Moscou explorará os laços sempre crescentes no campo energético para estabilizar suas relações com os países da Europa Ocidental, e que isso pode debilitar o espírito do euro-atlanticismo e enfraquecer progressivamente a liderança dos EUA no mundo trans-Atlântico.

Segundo, a Alemanha tomou a decisão estratégica de abandonar a energia nuclear e de, em vez disso, aumentar as importações de energia russa. Do ponto de vista dos EUA, o crescimento de laços entre russos e alemães não tem grande ressonância histórica para a segurança da Europa, mas pode, isso sim, vir a enfraquecer a unidade europeia e os próprios substratos da OTAN – que os EUA comandam como seu principal instrumento para implantar suas estratégias globais.

Terceiro, a Rússia aspira a ser promovida, do papel de exportador de energia para a Europa, para o papel de participante no sistema continental de distribuição de energia e, também, de participante do sistema de varejo. Pode acontecer de a Europa vir a enfrentar “escolhas difíceis entre o custo e a estabilidade de seu fornecimento de energia, de um lado, e, de outro, o alinhamento com os EUA nas questões chaves”.

Cohen antecipa que “à medida que subam os preços do petróleo, deve-se esperar que reapareça a arrogância dos russos”. O que seria essa “arrogância dos russos”? Em termos geopolíticos, significa uma Rússia mais assertiva no plano político global. Cohen também mais de uma vez mencionou a Índia, como fonte potencial de preocupação para os EUA.

Círculos de giz no sul da Ásia

Na essência, é o mesmo que dizer que países como a Índia – onde os EUA esperam conseguir entrincheirar-se como parceiros estratégicos – podem vir a escolher ser autônomos ou “não alinhados”, caso a Rússia consiga desenvolver laços energéticos mais fortes com eles. No caso da Índia, em particular, as implicações têm alcance ainda maior, porque a estratégia dos EUA para o Pacífico Asiático e a política de “conter” a China ficarão muito debilitadas, se Nova Délhi não se alinhar.

Interessante observar que Cohen traz para esse contexto também a Síria. Para ele, a Rússia estaria “procurando reconstituir um equilíbrio de poder de séculos passados no Oriente Médio”, e a Síria – como a Índia no Pacífico Asiático – é pivô nesse processo; este seria o motivo pelo qual Moscou está reconstruindo bases navais em Tártus e Lataquia e “instalando lá armamento moderno”, como também faz o mesmo na Índia.

Quarto, a Rússia está estimulando a Organização de Cooperação de Xangai (ing. SCO) como “área reservada”, para manter os EUA excluídos, sobretudo do arranjo do clube “energético”. A SCO reúne China, Cazaquistão, Quirguistão, Rússia, Tadjiquistão e Uzbequistão.

Os EUA estão à beira de um ataque de nervos, ante os preparativos para que a SCO admita Índia e Paquistão como membros plenos e o Afeganistão como observador. Até aqui, os EUA têm-se valido das restrições que Rússia e China têm manifestado contra o ingresso do Paquistão e da Índia, respectivamente; mas notícias de que Moscou e Pequim estariam mudando de posição fizeram disparar todos os alarmes em Washington.

Moscou está flanqueando a posição dos EUA e trabalha rapidamente para construir laços com o Paquistão, vetor crucialmente importante para acelerar os relacionamentos na cooperação no campo da energia. Moscou já começou a discutir com o Paquistão alguns pontos importantes de sua participação no projeto do oleoduto TAPI (Turcomenistão-Afeganistão-Paquistão-Índia[2]).

Os países estão restaurando laços aéreos; já houve dois encontros de cúpula no prazo de um ano; e começam a coordenar afinadamente as duas abordagens para a estabilização do Afeganistão (que é decisiva para a ativação do oleoduto TAPI). Não por acaso, o representante especial da Rússia no Afeganistão Zamir Kábulov (a mão que faz o jogo do Krêmlin no Afeganistão) visitou Islamabad semana passada, para discussões e consultas “em profundidade”.

O fundamento da abordagem russa é aumentar a autonomia estratégica do Paquistão, de modo a que o país consiga sobreviver ao assédio-bullying de Washington. E Moscou estima que o Paquistão responderá positivamente. Como escreveu semana passada em Moscou Andrey Volodin, “a visita de [Presidente do Paquistão] Ássife Zardári à Rússia mostra que o Paquistão está ativamente diversificando seus laços econômicos externos e sua política exterior. É atitude que entusiasma o principal aliado, aliado de todas as horas, do Paquistão, a China, que trabalha para conseguir a reversão soft da política de contenção pelos EUA na Ásia, inclusive no Paquistão”.

O sonho turcomano vai ganhando vida

Assim sendo, a iniciativa sino-russa para pôr Paquistão e Índia como membros plenos da SCO pode vir a ser golpe devastador contra a estratégia dos EUA de conseguir “implantar-se” na Ásia. A existência de uma rede regional de energia que mobilize as reservas de energia do Turcomenistão dá caráter profundo à matriz.

O fato é que os EUA sempre elogiam o TAPI, mas a única coisa que realmente lhes interessa é o chamado “Corredor Sul”, para transportar a energia turcomana para a Europa Ocidental, de modo a enfraquecer a poder russo sobre o mercado europeu.

A Rússia está matando dois coelhos com uma só cajadada. Ao desviar o gás turcomano para os vastos devoradores de energia do Sul da Ásia – a Índia será, potencialmente, um dos dois ou três maiores consumidores de energia nas próximas décadas –, Moscou, por um lado, impede os efeitos da estratégia dos EUA para a energia na Eurásia, de evacuar o gás para a Europa; e, ao mesmo tempo, impede que seu controle sobre o mercado de energia europeu venha a ser ameaçado pelo gás turcomano.

Mas um grande ponto de interrogação pairava sobre o TAPI: havia dúvidas sobre a quantidade de reservas energéticas do Turcomenistão. Semana passada, contudo, os auditores britânicos Gaffney, Cline & Associates confirmaram que o Turcomenistão repousa sobre o segundo maior campo de gás natural do mundo – Yolatan Sul –, o que mudou dramaticamente o cenário (o presidente Hamid Karzai do Afeganistão voou imediatamente até Achegábate, ao ouvir as notícias). O vasto campo Yolatan Sul cobre cerca de 3.500 quilômetros quadrados – área maior que o Luxemburgo – e, nas palavras de um auditor britânico, “O campo Yolatan Sul é tão grande, que pode sustentar vários projetos paralelos”.

Em resumo, o Turcomenistão tem capacidade comprovada para atender às exigências de energia da China, Índia e Paquistão por várias décadas, e ainda lhe sobrará energia para exportar para a Rússia. Essa perspectiva é assustadora para a estratégia dos EUA, se o chamado “Clube SCO de energia” (ideia que o então presidente Putin já ventilara em 2005, um pouco antes da hora), tornar-se agora perfeitamente viável.

Daí a robusta diplomacia de chineses e russos para o Paquistão, de estimular uma mudança de paradigma em sua política afegã; a crescente impaciência dos EUA quanto ao Paquistão “recalcitrante”; o empenho do Conselho de Cooperação de Xangai para envolver-se na estabilização do Afeganistão; a insistência dos EUA em negociar diretamente com os Talibã, sem a mediação de algum processo de paz conduzido pelo Afeganistão; o empenho de Washington para estabelecer presença militar de longo prazo no Afeganistão; a pressa de Rússia e China para incluir Índia e Paquistão como membros da Organização de Cooperação de Xangai; as aberturas dos EUA para a Índia, numa parceria que o secretário de Defesa dos EUA Robert Gates descreveu, semana passada, num discurso em Cingapura em reunião dos ministros de Defesa da Região (inclusive da Rússia, da China e da Índia), como “pilar indispensável da estabilidade no Sul da Ásia e para além”; e a afirmação, de Gates, do compromisso dos EUA com uma “robusta” e “ampliada” presença militar dos EUA na Ásia, sobretudo no Estreito de Malacca – que tem também imensa “dimensão energética”.

Mornigstar é especialista em Rússia, mas falou mais de uma vez sobre a Ásia Central na audiência no Congresso e fez claramente questão de levar ao conhecimento dos senadores e deputados dos EUA que a Rússia estaria tentando “empurrar os EUA para fora da Ásia Central e conseguindo, com sucesso, limitar a participação dos EUA em novos projetos de energia no Cáspio, excluindo os EUA do Clube de Energia da Organização de Cooperação de Xangai (SCO)”.

‘Conter’ a superpotência energética

O Embaixador Morningstar manteve na audiência no Congresso o decoro diplomático e evitou questões geopolíticas, dedicado a fazer detalhada exposição da estratégia energética dos EUA para a Eurásia – para ele, um misto de continuidade da era George W Bush e incorporação de novas realidades. Os principais vetores da estratégia dos EUA podem-se resumir nos seguintes itens:

– Não há qualquer dúvida sobre a intenção dos EUA de envolver-se profundamente na segurança energética da Europa (“A Europa é nossa parceira em todas as questões globais, do Afeganistão à Líbia e Oriente Médio, de direitos humanos ao livre-comércio”).

– Os EUA trabalharão a favor de “um mix energético variado” para a Europa, seja em termos de fontes de suprimento e vias de transporte, seja em termos do tipo de energia (“Diversificação de fornecedores, diversificação de vias de transporte e diversificação de consumidores, além de um foco em tecnologias alternativas, para energias renováveis e limpas em geral, e maior eficiência energética”). A propósito, os EUA estão entrando na Europa como grande exportador de gás de xisto, que compete com o gás natural russo.

– O objetivo dos EUA é estimular a Europa a desenvolver “uma estratégia equilibrada e diversificada de energia, com várias fontes de energia com várias vias até o mercado” (o que significa: estimular a Europa a reduzir sua dependência em relação a Rússia, que hoje supre 1/3 das necessidades de energia da Europa).

– Os EUA estimularão e ajudarão países da Ásia Central e do Cáspio “a encontrar novas vias até os mercados” (o que significa: a buscar vias que não passem por território russo nem pelos gasodutos e oleodutos russos).

– Os EUA trabalharão a favor da privatização do setor de energia; para isso “criarão a rede política” no espaço pós-soviético, pela qual “possam prosperar projetos comerciais e negócios”.

– O compromisso do governo Obama com o chamado “Corredor Sul” – para trazer gás natural à Europa via-Turquia desde o Cáspio e “potencialmente de outras fontes além das fronteiras no sudeste da Europa” – não é menor que os compromissos assumidos nos governos de Bill Clinton e Bush. Os EUA promoverão ativamente os três consórcios que trabalham na construção de oleodutos – os grupos Nabucco, ITGI e TPA – e “creem que será construído um Corredor Sul comercialmente viável. As decisões de investimento que possibilitarão o projeto serão tomadas à altura do final do corrente ano”.

– Washington dedica especial atenção ao projeto de promover o Turcomenistão como grande fornecedor de gás para a Europa através do Corredor Sul.

– Os EUA trabalharão para a integração dos estados do Báltico no mercado europeu de energia, de modo que não continuem vulneráveis às ofertas russas e/ou às pressões políticas dos russos.

– Os EUA trabalharão para neutralizar os esforços russos para monopolizar o setor energético na Ucrânia.

– A Europa deve desenvolver mercado único de energia, para que o tipo de relações bilaterais que estão sendo construídas entre Alemanha e Rússia, ou Itália e Rússia, ou França e Rússia não prosperem.

– A Europa deve concentrar-se mais no desenvolvimento do gás de xisto, que pode substituir o gás russo.

– A Europa teve tomar iniciativas para “separar as funções de distribuição e varejo das empresas de energia” (para que a empresa-Leviatã russa Gazprom não tenha acesso àquele nível de atividades).

É o coração da Eurásia, estúpido!

Praticamente toda a estratégia dos EUA para a Eurásia visa “conter” a Rússia e impedir que chegue ao papel de importante fornecedor de energia à Europa, assim como a impedir que a Rússia se fixe como força de grande influência nos países produtores de energia da Ásia Central e do Cáspio.

Cohen referiu-se a um futuro papel da OTAN, como “provedora de segurança” para os oleodutos e gasodutos não-russos. Muito surpreendentemente porém, Morningstar não falou nem foi perguntado sobre essa ideia muito controvertida, que surgiu no governo Bush. Ainda mais interessante, Morningstar não disse palavra sobre a viabilidade do projeto de o Turcomenistão ou a região da Ásia Central fornecerem energia ao sul da Ásia – embora todos os diplomatas dos EUA que visitam Délhi manifestem, infalivelmente, muito interesse pelo TAPI (oleoduto/gasoduto Turcomenistão-Afeganistão-Paquistão-Índia). O que se pode concluir disso é que os EUA estão 100% focados na segurança energética da Europa – como se podem criar vias de suprimento que, partindo de regiões do Cáspio, da Ásia Central e do Oriente Médio, cheguem à Europa – e que falam sobre o TAPI, mas sem lhe dar qualquer importância real.

Claramente, a reunião da SCO, marcada para a próxima semana no Cazaquistão, converter-se-á em ocasião histórica na geopolítica da energia. A sabatina no Congresso dos EUA, semana passada, foi agendada com precisão cronométrica. Os EUA percebem que há mudança de paradigma na dinâmica do poder na Ásia. Todas as probabilidades são desfavoráveis aos EUA, na medida em que Rússia e China estão reformatando suas políticas para o Sul da Ásia com vistas a harmonizarem-se com Paquistão e Índia respectivamente, com a Organização de Cooperação de Xangai como guarda-chuva.

Importante especialista chinês, Yan Xuetong, diretor do Instituto de Estudos Internacionais na Universidade de Tsinghua, disse recentemente, em seminário no Instituto de Estudos do Pacífico Asiático (um dos braços da Academia de Ciências Sociais da China): “Se conseguirmos estabelecer relações com países vizinhos, como estamos fazendo com os países membros da Organização de Cooperação de Xangai, também conseguiremos nos movimentar rapidamente. A criação da SCO, nos anos-90, foi amplamente reconhecida como um dos movimentos mais bem sucedidos da diplomacia chinesa. Criamos a SCO com o objetivo de resistir à intenção estratégica dos EUA de estender seu controle militar até a Ásia Central. A intenção dos EUA de por a Ásia Central sob sua esfera de influência militar foi abortada. Com a SCO, as relações entre China e países da região melhoraram muito. Para estabelecer com os países à sua volta relações ao estilo das relações que há na Organização de Cooperação de Xangai, a China deve (…) criar parcerias estratégicas muito firmes com aqueles países. Sem isso, a China não conseguirá construir relações internacionais mais amigáveis que as que os EUA constroem”.

Fato é que o fim do jogo afegão está fazendo surgir várias novas trilhas na geopolítica da Eurásia, da Ásia Central e do Sul da Ásia – umas são trilhas para fundistas, outras para velocistas, umas ainda não testadas, umas visíveis, outras não tão visíveis. Mas todas convergem para um mesmo ponto focal: a Eurásia.

O grande geógrafo e diplomata inglês Sir Halford John Mackinder (1861-1947), considerado um dos pais dos estudos esotéricos conhecidos como geopolítica e geoestratégia, baseou sua famosa Heartland Theory [Teoria do Coração da Terra”[3]] na ideia de que a Eurásia seria o “coração” da política internacional. E Prometeu – certamente por acaso – foi acorrentado a uma montanha daquela região, no Cáucaso, onde a águia de Júpiter o visitava diariamente para mastigar-lhe o fígado.

[1] Orig. “will sit and talk of time and change/As the world ebbs and flows, ourselves unchanged”. SHELLEY, Percy Bysshe. Prometheus Unbound: A Lyrical Drama In Four Acts, ato 3, cena 3.3, em http://www.readbookonline.net/read/14325/34573/ [NTs].

[2] Ver também Pepe Escobar, 17/11/2010, “A geopolítica dos oleodutos e gasodutos”, em http://muitopelocontrario.wordpress.com/2010/11/17/pepe-escobar-a-geopolitica-dos-oleodutos-e-gasodutos/ e Pepe Escobar, 29/5/2011, “A hora e a vez do oleoduto China-Paquistão”, em http://redecastorphoto.blogspot.com/2011/05/pepe-escobar-hora-e-vez-do-oleoduto.html [NTs].

[3] “Para Mackinder, a superfície terrestre pode ser dividida em:

– uma Ilha-mundo, compreendendo os continentes interligados de Europa, Ásia e África – região maior, mais populosa e mais rica que quaisquer outras combinações de territórios;

– as ilhas ‘ao largo’ [orig. Offshore islands]: as Ilhas Britânicas e o Japão; e

– as ilhas externas [orig. Outlying islands]: América do Norte, América do Sul e Austrália.

A Heartland fica no centro da Ilha-mundo – do rio Volga ao rio Yangtze, e dos Hilamaias ao Ártico” (mais, em http://en.wikipedia.org/wiki/The_Geographical_Pivot_of_History) [NTs].

TEXTO-FIM
The following two tabs change content below.

M K Bhadrakumar

M. K. Bhadrakumar é ex-embaixador indiano no Paquistão, Irã, Turquia, Rússia, entre outros. Especialista em assuntos do Afeganistão e do Irã, escreve sobre energia e segurança para publicações como The Hindu e Asia Times Online.