Em Saint Laurent, Bonello subverte a biografia

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Sem buscar “fidelidade” ao estilista, filme tenta captar relações de sua obra e personalidade com política, cultura e comportamento de duas décadas marcantes 

Por José Geraldo Couto, no Blog do IMS

A expressão biopic (ou sua versão em português, cinebiografia) deve ser deixada de lado diante de um filme como o extraordinário Saint Laurent, de Bertrand Bonello.

O estilista francês Yves Saint Laurent (Gaspard Ulliel) aparece ali, antes de tudo, como catalisador de uma série de ideias que interessam ao cineasta: as relações entre arte e comércio, entre impulso erótico e trabalho criativo, entre a tradição cultural europeia e a energia pop, entre esplendor e decadência. Do mesmo modo, o meio de expressão de Saint Laurent, a moda, é visto em suas múltiplas interfaces: com a pintura, a música, a literatura, o comportamento, a política, as finanças.

Assim sendo, a biografia de Saint Laurent é um substrato misturado a inúmeros outros elementos, e modulado por eles. A Bonello interessa menos a verdade factual do que o sentido geral que ele encontra (e nos dá a ver) no signo Saint Laurent e em sua inserção no mundo contemporâneo.

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Gaspard Ulliel em cena do filme

Para se ter uma ideia, enquanto as cinebiografias vulgares buscam fazer com que seus atores mimetizem os biografados, tornando-os “iguaizinhos” ao original, Bonello considerou quase um problema o fato de Gaspard Ulliel ser fisicamente muito parecido com Yves Saint Laurent. Mas acabou desencanando.

Fulgor e precisão

A primeira imagem – a fachada de um hotel de luxo, sob iluminação fortemente dourada – é pura radiância. Poucos planos depois, funcionárias do ateliê de Saint Laurent tiram meticulosamente as medidas de uma modelo. Essas duas ideias contrapostas – o fulgor e a precisão – estão no cerne da leitura que Bonello faz de seu personagem e também no modo de construção de seu próprio filme.

Ao concentrar-se no período mais fértil e efervescente da vida de Saint Laurent, entre 1967 e 1977, com rápidas reminiscências de infância e um salto para a velhice do estilista, o filme oscila controladamente entre o frenesi (a criatividade febril, as drogas, o sexo promíscuo) e a melancolia, que acaba por impregnar o conjunto.

Nessa década crucial dá-se a expansão planetária da marca YSL, por meio da ação empresarial de Pierre Bergé (Jérémie Renier), companheiro de Saint Laurent por muitos anos. Ocorrem também no período a crise do casal, o uso descontrolado de drogas pesadas e o envolvimento sexual do protagonista com o dândi Jacques de Bascher (Louis Garrel), que abre novas portas de experimentação e perversão sexual.

Ecos de Visconti

Há elegância, discrição e um certo distanciamento no modo como Bonello filma esse turbilhão de acontecimentos. A encenação é sempre criativa, aproveitando cada elemento dos cenários e ambientes para criar camadas suplementares de leitura e deixar o olhar (e a audição) do espectador viajar à vontade. Em especial os espelhos, onipresentes nos ateliês e moradias do estilista, são utilizados para desdobrar o quadro e os pontos de vista.

O senso “viscontiano” de passagem inexorável do tempo, de declínio ou autodestruição da força vital (seja ela de um homem ou de toda uma cultura), de ocaso de uma noção sublime de beleza e elegância, tudo isso conflui para uma cena admirável, aquela em que o Saint Laurent velho, representado por Helmut Berger, contempla na TV uma cena de Os deuses malditos, de Visconti, protagonizada pelo mesmo Berger no auge da beleza e da juventude.

O filme é pontuado por esses jogos de referências, potencializados pela montagem e pela trilha sonora. Assim como a criatividade de Saint Laurent se alimentava da literatura de Proust, do canto lírico de Maria Callas e da pintura de Matisse, a arte de Bonello é igualmente onívora e generosa. Assim, uma carta de Andy Warhol a Saint Laurent é lida em off sobre imagens de novas criações do estilista e sob o som de “Venus in furs”, a canção do Velvet Underground, banda parceira de Warhol.

Tela dividida

A divisão da tela em vários quadros é usada de maneira engenhosa para fins diversos. Numa determinada sequência, reparte-se o quadro em dois: de um lado, imagens documentais do que ocorria no mundo (manifestações de maio de 68, guerra do Vietnã, movimento pelas liberdades civis nos EUA etc.); na outra metade, flashes de desfiles das coleções Saint Laurent nas temporadas correspondentes.

Um cineasta mais convencional ou menos desenvolto introduziria a história contemporânea na diegese, por meio de noticiários de televisão ou diálogos explicativos (do tipo: “Você viu ontem as manifestações no Quartier Latin?”).

Mais adiante, ao mostrar um desfile crucial para o estilista, a tela se divide em quadrados e retângulos à maneira de um quadro de Mondrian, principal inspiração para aquela fase de Saint Laurent. Em cada um dos quadriláteros, um aspecto da imensa engrenagem do desfile, captando a tensão do momento e ao mesmo tempo os inúmeros talentos conjugados para a construção do espetáculo: arquitetura, iluminação, coreografia, música.

É possível sentir ali o quanto Bonello se identifica com Saint Laurent. Ambos lidam com meios de expressão atravessados por todas as artes e disciplinas; ambos travam “o incansável combate em defesa da beleza e da elegância”, como diz o protagonista a certa altura, justificando sua vida – e, de quebra, o próprio filme.

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José Geraldo Couto

*José Gerado Couto é crítico de cinema e tradutor. Publica suas criticas no blog do IMS. Para ler as edições anteriores da coluna, clique aqui.