Ela: o mal-estar do simulacro

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Ao abordar amor entre homem e sistema operacional, Spyke Jonze evita o ridículo com delicadeza e debate questões centrais do imaginário de nossa época

Por José Geraldo Couto, no blog do IMS

A esta altura quase todo mundo já sabe que Ela mostra o relacionamento amoroso entre um homem solitário (Joaquin Phoenix) e um supersistema operacional de computador, chamado Samantha e dotado com a voz sensual de Scarlett Johansson.

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Pois bem. Sempre fiquei com um pé atrás em relação aos filmes de Spike Jonze (Quero ser John MalkovichAdaptação), que em geral me pareceram engenhosos e vazios em sua construção artificiosamente labiríntica.

Mas desta vez, a meu ver, o diretor encontrou um encaixe feliz entre seu assunto – o mundo das relações virtuais – e a maneira de plasmá-lo em cinema. Vou tentar explicar aos poucos.

A problemática interação afetiva entre humanos e seres dotados de inteligência artificial foi abordada das mais diferentes maneiras no cinema, de Blade Runner a, justamente, Inteligência artificial, mas aqui há um passo adiante no caminho da estranheza e da complicação. Se, nos exemplos anteriores, tratava-se de autômatos ou replicantes que dispunham de um corpo físico, em Ela a criatura por quem Theodore (Phoenix) se apaixona é pura virtualidade, só existe no espaço cibernético.

Essa circunstância, que faz o protagonista trafegar na corda bamba entre a sanidade e a bizarrice, também parece deixar o filme sempre no limiar do ridículo. Mas há uma delicadeza de toque que impede esse dupla queda (do personagem e do filme). Como isso se dá?

Mundo asséptico

A primeira boa sacada de Spike Jonze (que também escreveu o roteiro) foi a de situar sua narrativa numa metrópole (Los Angeles) num tempo pouco adiante do nosso, de tal maneira que tudo nos parece familiar, só que com uma tecnologia um pouquinho mais avançada. Assim, antes que tenhamos tempo de considerar esdrúxulo o envolvimento de Theodore com sua etérea Samantha, percebemos que esse tipo de relacionamento já é considerado normal e quase corriqueiro num mundo em que as pessoas passam a maior parte do tempo interagindo com máquinas, seja no trabalho ou no lazer.

O modo como esse futuro próximo se apresenta no filme remete ao mundo asséptico dos games do tipo The Sims: espaços ordenados, retilíneos, com design moderno, decoração clean e iluminação suave. Os edifícios parecem maquetes, os espaços são amplos e limpos, os personagens se movem de modo claro e previsível, como figuras de um grande jogo virtual. Até a praia é um ambiente organizado, quase geométrico.

Corpo e espírito

Esse contexto não só torna verossímil, ou quase, o romance impossível entre Theodore e Samantha, como também evidencia seus limites. Melhor dizendo: mostra que a impossibilidade desse amor é apenas a face mais evidente de um desconforto maior neste mundo de simulacros em que vivemos, que é o descompasso entre corpo e espírito (entendendo-se espírito em sentido amplo, que engloba a inteligência, a sensibilidade e a imaginação). Não por acaso, a certa altura do filme recicla-se (literalmente) o pensador libertário Alan Watts (1915-73), que divulgou no Ocidente filosofias orientais como modo de combater o desequilíbrio corpo/mente/espírito da nossa sociedade.

Antes mesmo da entrada em cena de Samantha, temos um belo exemplo desse descompasso. No metrô, de volta para casa, Theodore vê, na tela de seu super smartphone, fotos de uma celebridade grávida nua. Já em casa, também pelo telefone/computador, acessa um serviço de conversas eróticas e, para se excitar sexualmente, tenta associar a lembrança das imagens da celebridade nua com a voz da mulher com quem está conversando. Alguém da escola de Frankfurt disse que a indústria cultural promete a cópula e entrega a masturbação. No mundo informatizado, isso é mais verdadeiro do que nunca.

A cena mais crucial – e cruciante – do filme talvez seja aquela em que os amantes virtuais recorrem a uma terceira pessoa, que serviria como uma espécie de encarnação temporária de Samantha, numa tentativa desesperada de superar o divórcio entre matéria e desejo.

Com momentos em que parece patinar nos clichês de filmes românticos e outros em que enfatiza demais suas ideias (exemplos: a amiga/vizinha precisava ser programadora de games? Na escada do metrô, todos tinham que conversar com seus respectivos sistemas operacionais?), Ela está longe de ser uma obra-prima. Mas de uma coisa ninguém poderá acusá-lo: de estar alheio a questões centrais do cotidiano e do imaginário de nossa época.

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José Geraldo Couto

*José Gerado Couto é crítico de cinema e tradutor. Publica suas criticas no blog do IMS. Para ler as edições anteriores da coluna, clique aqui.