Egito: contradições da multidão em movimento

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A Praça Tahrir, no Cairo, celebra a deposição, pelo exército, do presidente Morsi

Revolução está viva; exige direitos e liberdade. Mas, após protestos, volta ao poder um exército repressor e servil a Washington…

Por Alain Gresh, no Le Monde Diplomatique | Tradução: Antonio Martins

Em 1º de julho, após manifestações gigantescas nas ruas egípcias, o exército publicou comunicado afirmando “seu apoio às demandas do povo” e dando “a todo mundo” 48 horas de prazo, como “última chance [para] assumir sua responsabilidades neste momento histórico”. Se as reivindicações não fossem satisfeitas, prosseguia o comunicado, caberia “às forças armadas anunciar o caminho para uma saída, e medidas supervisionadas por elas, em cooperação com todas as forças patrióticas e sinceras […] sem excluir nenhum partido”.

Ainda que esta última parte da frase – “sem excluir nenhum partido” – procure oferecer garantias à Fraternidade Muçulmana, que teme o retorno à velha ordem e a prisão, a direção do grupo rejeitou o ultimato e o presidente Mohamed Morsi afirmou que permaneceria em seu posto. Parece pouco provável que sobreviva a este desafio [este texto foi escrito horas após sua queda]. Até mesmo o porta-voz do partido salafista [que representa o ultra-fundamentalismo islâmico, e obteve 25% de votos nas eleições], Nader Bakkar, explicou a seu meio milhão de seguidores no Twitter que o califa Othman, terceiro sucessor do Profeta, preferiu renunciar à vida a deixar correr o sangue dos fiéis.

Com o retorno provável do exército ao centro da cena política, está em xeque a principal conquista do presidente Morsi durante seu curto reinado. Foi ele que, em agosto de 2012, cortou os poderes do Conselho Superior das Forças Armadas (CSFA), que governou o país por um ano e meio, de forma catastrófica (ler “Egypte, une nouvelle étape?”).

Não é inútil lembrar que:

  • o CSFA foi o principal responsável pela transição caótica que seguiu-se à queda de Hosni Moubarak;

  • durante a revolução e o período em que exerceu o poder, o exército reprimiu, fez desaparecer ou torturou centenas de pessoas, conforme confirmou relatório publicado pelo diário britânico The Guardian;

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  • o exército atirou em manifestantes que protestavam contra os ataques sectários contra religiosos coptas. Este massacre ocorreu durante o cerco à rede de TV Maspero, em outubro de 2011.

É preocupante que, nestas condições o movimento Tamarod tenha proclamado, no início da campanha de assinaturas pela demissão de Morsi, que “o exército está postado atrás do povo”. Ou que a oposição tenha adotado a mesma ideia. Sugere que têm memória curta.

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General Abdul el-Sisi anuncia, na TV, que governo foi deposto e Constituição suspensa

Mas se o exército pode reivindicar sua volta ao poder, é porque Morsi fracassou. Sua derrota explode em todos os terrenos, seja a edificação de um Estado de direito ou o desenvolvimento econômico e social.

É importante compreender as razões desta fracasso. Morsi não foi capaz de dar garantias a um país dividido, nem aos que se inquietavam com a existência de um partido disciplinado, muitas vezes sectário e de tendências hegemônicas. Morsi foi o presidente da Fraternidade Muçulmana, não dos egípicos. Além disso, sua incompetência surpreendeu muitos obsrvadores, para os quais a Fraterninda possuía quadros para gerir o aparelho de Estado. Não se pode, é verdade, falar de islamização do Egito – como constata Issndr El Amrani (no texto Morsi’s Year, de 27/6), em seu excelente site The Arabist. Foi exatamente por isso que o presidente sofreu a oposição dos salafistas.

Se Morsi tem responsabilidades sobre seu próprio fracasso, não se pode esquecer alguns dados:

  • O essencial do aparelho de Estado não está sob controle da presidência. Isso não inclui apenas o exército mas também a polícia, que não pôde – ou não quis – proteger as sedes da Fraternidade Muçulmana atacadas durante os últimos meses. Já o ministério do Interior publicou, em 30 de junho, um comunicado exagerando [falava em 17 milhões…] o número de participantes nas manifestações…

  • Sinceros ou não, Morsi tentou dirigir à oposição gestos de abertura – que foram sistematicamente rejeitados. Como notou Esam El-Amin em 26/6, no Counterpunch:

 “Morsi convidou todos os líderes da oposição, em particular os da Frente de Salvação Nacional (FSN), que reúne a maior parte dos grupos laicos, a participar de diferentes reuniões, com pouco sucesso. No que diz respeito às nomeações, o conselheiro político de Morsi, Bakinan El-Sharqawi, declarou recentemente que, todas as vezes que o presidente pediu aos grupos laicos candidatos aos postos mais altos do governo – inclusive ministros e governadores –, foi repelido.

 O presidente foi, ao mesmo tempo, vítima de um cenário midiático profundamente transtormado, depois da revolução. Num outro texto, de 30 de junho, intitulado “A deslegitimação de Mohamed Morsi”, The Arabist destacoutambém as tentativas de destruir a imagem do presidente – associadas, deve-se frisar, a uma campanha anti-palestina – que chegou a acusar o Hamas de fornecer estilingues à Fraternidade, em janeiro de 2011…

 “Mesmo levando em conta seus resultados medíocres, uma das características da vida política do ano passado é ter sido uma máquina implcável de demonização midiática e deslegitimação do governo Morsi – muito além dos erros pelos quais ele é responsável. Quem quer que assista à CBC, ONTV, al-Qahira, wal-Nas e outras estações satélites, ou leia jornais histéricos como al-Destou, al-Watan ou al-Tharir (e, cada vez mais, al-Masri al-Youn) é atingido por uma permanente propaganda anti-Morsi. Alguns dos ataques foram merecidos mas, mesmo de parte de um jornalista respeitado, como Ibrahim Eissa (um dos principais adversários do presidente Hosni Moubarak), o discurso contra Morsi era descontrolado.”

 O Egito nunca se aproximou da imagem projetada pelos Repórteres sem Fronteiras, que pintaram a Fraternidade como predadora da liberdade de imprensa. Ainda que alguns jornalistas possam ter sido perseguidos, nunca a liberdade de expressão foi tão ampla no pais.

 O que inquieta, nota Esam El-Amin, é que a oposição, ofuscada por sua própria hostilidade diante da Fraternidade, tenha restaurado a legitimidade dos membros do antigo regime presentes no aparelho de Estado, na polícia, nas instâncias judiciárias, em todos os níveis:

 “Em meio à batalha ideológica entre antigos parceiros revolucionários, os foulou [partidários do antigo regime] foram capazes de se reinventar e de tornar-se atores destacados, ao lado dos grupos laicos, contra a Fraternidade e os islamitas. Recentemente, El Baradei, Nobel da Paz, declarou-se pronto a acolher, em seu partido, todos os elementos do Partido Nacional Democrático de Moubarak. Seu aliado Sabbahi afirmava que a batalha contra os foulou tornara-se agora secundária, e o conflito principal era contra a Fraternidade e seus aliados islâmicos”.

 O fato de milhões de pessoas terem saído à rua nos últimos dias é a prova de que o povo do Egito não está disposto a voltar para casa, enquanto suas reivindicações de justiça social e liberdade não forem satisfeitas. As manifestações afirmam que a revolução não terminou. É uma realidade que os governantes de amanhã, sejam quem foram, terão de levar em conta.

TEXTO-FIM
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Alain Gresh

Alain Gresh é jornalista egípcio, sub editor do jornal francês Le Monde Diplomatique e especialista em assuntos de Magreb e do Oriente Médio. É membro do coselho administrativo do Instituto do Mundo Árabe (IMA, em francês) e presidente da Associação Francesa de Jornalistas.

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