Dois filmes e um obscuro outono europeu

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Tanto Ninfomaníca, apenas aparentemente erótico, quanto La Grande Bellezza, cínico e exagerado, sugerem: há imenso cansaço no berço do Ocidente

Por Ricardo Cavalcanti-Schiel


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O trágico e lúdico Ninfomaníaca
Herdeiro de Dreyer e Bergman, porém mais cético e cínico, von Trier não filma sexo, mas sua hipótese sobre ser humano. Por José Geraldo Couto

 

O último 25 de dezembro foi o dia da estréia mundial do polemicamente aguardado filme do diretor dinamarquês Lars von Trier, Ninfomaníaca. A polêmica é, senão puro marketing, em larga medida gratuita e moralista. Cenas de sexo explícito rompendo as fronteiras industrialmente demarcadas por Hollywood – entre atores de imagem pudica (o que fez Nicole Kidman fugir do elenco) e o gueto do “entretenimento adulto” – já não é mais nenhuma ousadia autoral pecaminosa, a não ser para aquelas mesmas classificações industriais. Erótico? O sexo em Ninfomaníaca, desde sua primeira cena, é duro, ritualístico e mecânico, esterilizado por números, transformado em quantificação formalista, em metáfora zoológica. Erótico talvez para rapazotes de quinze anos (que evidentemente não poderão entrar no cinema), para quem, graças aos irremediáveis transbordamentos hormonais, a mera carnalidade avulsa já basta como descoberta erótica. Ninfomaníaca é, desde a sua primeira cena, sombrio. E é disso que se trata.

TEXTO-MEIO

Provavelmente não combine bem com o verão brasileiro em que será lançado (e à sua maneira digerido). Aqui na Europa faz tanto frio lá fora (do cinema) quanto na rua onde mora o cripto-analista vivido pelo personagem Seligman, o (ironicamente) “homem feliz” que abriga a mulher dura e machucada que vai lhe contar a história de sua vida. A ambientação histórico-biográfica dessa primeira parte de Ninfomaníaca é a Grã-Bretanha dos anos 60 e 70, mas o tempo presente da narradora Joe é o de um inverno onde se vê, pela janela da austera e encardida habitação de Seligman, a neve caindo lá fora.

Talvez a primeira reação de um cinéfilo para digerir Ninfomaníaca seja a de esquematizá-lo como uma espécie de cruzamento bastardo entre “Drowning by Numbers” (de Peter Greenway) e o último Kubrick (“Eyes Wide Shut” – “De olhos bem fechados”). Mas não tem nem a leveza surrealista dos voos de Greenway nem a afetação escapista do filme de Kubrick. Para além das primeiras aparências temáticas, o que é posto ao rés do chão é a impossibilidade de sentir. Na sua versão compulsiva e sufocante, à la Trier.

Mas não estamos no campo da psicopatia, porque a impossibilidade afetiva, no caso “em tela”, é exatamente o que sustenta e justifica um outro sentimento, elevado à condição de critério axiológico transcendente, e que, nessa condição, move a narrativa de Joe dentro da narrativa de Trier: a culpa. Sim, muito cristão isso! ou para ser mais preciso, muito protestante. E o diretor? toma partido? Seu personagem dialógico, o “homem feliz” é o retrato da racionalidade tolerante e compreensiva; nem tanto uma racionalidade feita empatia (a racionalidade etnográfica com que os antropólogos nos entretemos), mas sim ao revés: a empatia racionalizada (a medida da “felicidade” dinamarquesa). Seligman é quase como uma espécie de arauto sóbrio da semiótica na sua versão morfodinâmica (e matemática): a forma emerge da substância – diante da sua interlocutora, que é pura substância. Até onde foi esta primeira parte de Ninfomaníaca recém lançado, não dá pra saber conclusivamente que partido toma o diretor. Mas a última fala do (meio) filme parece lapidar, senão oracular, e é até aí onde podemos por enquanto ir, como também perguntar-nos: não seria o “homem feliz” feliz apenas por que também não “sente”?

A culpa protestante de Joe é a culpa ontológica do indivíduo, esse super-herói romântico, vaidoso e onanista. A culpa é o limite do hedonismo; é a sua consciência obscura. E consumir compulsivamente homens pode ser como consumir compulsivamente qualquer outra coisa. O fundo da desmedida hedonista é um poço. Os primeiros minutos de Ninfomaníaca são apenas a escuridão da tela com algum ruído de fundo. Estamos quase que no extremo oposto do emblemático plano fixo de três minutos sobre a cara do Che morto na Bolívia, na última cena do antológico (mesmo que panfletário) “La hora de los hornos” (1968), de Pino Solanas e Octavio Getino. Não se trata mais de deixar o tempo fílmico em suspenso, para uma possível consciência meta-textual do mundo atinar que se deve olhar ao redor. Aqui se trata de olhar apenas para dentro. E só o que se vê é o poço.

Algumas semanas antes de Ninfomaníaca entrou em cartaz (na Europa e EUA) um filme que, em lugar de uma estratégia de marketing polêmico, preferiu o caminho convencional de um largo percurso por festivais europeus (e foi considerado por alguns o grande injustiçado em Cannes), La grande bellezza, de Paolo Sorrentino. Em lugar do inverno nórdico, Roma em pleno verão. Em lugar da culpa, o cinismo corrosivo de um bon-vivant que faz do personagem de Marcello Mastroianni em La dolce vita um pobre e não mais que nostálgico naïf. Se Joe, de Ninfomaníaca, tenta se aferrar a uma narrativa causal sobre a própria vida, como se isso fosse tudo o que lhe restasse, o personagem de Sorrentino, o playboy sexagenário Jep Gambardella, escritor de um livro só e jornalista de costumes, contenta-se em flanar, para um dia, quem sabe, casualmente, talvez por puro milagre, topar-se com algo que lhe restitua um sentido de obra. Só que isso, no fundo, ele desdenha, em nome de um realismo vulgar, ou antes, de uma vulgaridade “realista”, acomodada e luxuosa, hipócrita e cafona. O que filia Sorrentino à tradição lírica do cinema italiano é conferir a esse desdém uma nota de melancolia adocicada, como se nos convidasse, malgré tout, a tomar um bellini no fim da tarde à beira do Mediterrâneo, pois se a grande beleza não parece mais encontrável, isso pode ser tudo o que restou dela.

Apesar de todas as diferenças, a mensagem íntima que parece ficar desses dois filmes europeus emblemáticos de 2013 é que de alguma forma chegou-se a um ponto de exaustão. A velha Europa está mais do que cansada. Consumir o mundo para lhe alimentar um ego narcísico parece ter chegado ao paroxismo; o paroxismo de exaurir-se. O que sugere a continuação dessa história (porque ter chegado até aqui é prova de que a história não acabou, como queria Fukuyama), ninguém sabe. Mas provavelmente, o melhor cenário em que cabe não é nem o inverno ao qual Trier se antecipa nem o verão ao qual Sorrentino se agarra, mas um outono desluzido do qual não se sabe se virá chuva ou se virá neve.

Por casualidade, é também um contraponto de imagem etária que marca as personagens principais de ambos os filmes (ao menos no caso dessa primeira parte de Ninfomaníaca). Em um caso, o velhote feioso, elegante e sedutor vivido por Toni Servillo. Em outro, a bela, magricela e distante Stacy Martin, uma espécie de antípoda à exuberância de uma Scarlett Johansson em “Match point” por exemplo, mas que é provável que, exatamente por anacronismo, acabe se tornando o símbolo sexual de um talvez longo e incerto outono. Foi-se há muito a primavera em que Jean Seberg passeava gritando pela Champs-Élysées: “– New York Herald Tribune!”.

TEXTO-FIM
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Ricardo Cavalcanti-Schiel

Antropólogo (mestre e doutor nessa área), pesquisador, viajante, cinéfilo, melômano.