Do exercício subversivo de brincar

Documentário de Cacau Rhoden faz corajoso elogio da infância e brincadeira, esquecendo-se talvez dos processos sociais que tornam mundo menos alegre

140715-Picasso4

.

Documentário de Cacau Rhoden faz corajoso elogio da infância e brincadeira, esquecendo-se talvez de debater processos sociais que tornam mundo bem menos alegre

Por Deni Rubbo | Imagem: Pablo Picasso, Garota com bode, 1906

Ouça um bom conselho que vai de graça: hoje, amanhã, ou por esses dias, não se acanhe de selecionar uma foto que você mais gosta de quando era criança guardada na sala ou naquele armário empoeirado. Preferencialmente uma foto que vai rememorar aquela criança viva, ativa, sorridente, brincalhona, lúdica que você foi. Olhe para ela e faça as seguintes perguntas: como ela está e por onde ela está? Caso não tiver coragem, não se preocupe, a foto perguntará para você. A possibilidade de nos assustarmos é altíssima. E de repensarmos algumas coisas também.

Esse sábio conselho aparece em um dos trechos do sensível e delicado documentário Tarja Branca – A revolução que faltava, dirigido por Cacau Rhoden. Produzido pela Maria Farinha Filmes, que possui em sua bagagem documentários sobre a infância como Muito Além do Peso (2012) e Criança, a alma do negócio (2008), ambos de Estela Rennel, Tarja Branca é um incrível manifesto pelo direito de brincar da criança. Isso mesmo. Se nos documentários precedentes a criança fora relacionada especificamente aos problemas de saúde e marcas de publicidade, agora está latente a hipótese de que a brincadeira das crianças está em crise. Brincar tornou-se um ato perigoso. Esconde-esconde, pega-pega, empinar pipa, pular corda, e os versos da canção “Doze anos”, de Chico Buarque, da “Bola de meia, bola de gude”, de Milton Nascimento e de “Moleque”, de Gonzaguinha, estão tornando-se cada vez mais ausentes em nossa sociedade.

O maior recheio do filme está nas entrevistas que moldam um determinado discurso, preparam uma defesa para o tema proposto. Pessoas de profissões das mais diferentes funções, pedagogos, artistas, humoristas, psicólogos etc. misturam depoimentos pessoais com análises distintas e instigantes.

Todos parecem concordar que o brincar é a atividade raiz da infância. Trata-se de uma atividade soberba porque expressa a plenitude, a expansão, a liberdade, a unidade. É a primeira maneira de se ligação com o mundo social. Ela é, segundo um dos entrevistados, aquela água subterrânea que percorre todo o rio da vida que bebemos e de que dependemos.

A proposta também escora-se nos adultos. Deve-se – por necessidade – resgatar a criança dentro de cada adulto. Não é uma tarefa simples, como procurar numa caixa velha uma ferramenta perdida, pois, na maior parte das vezes, nem percebemos o quanto no tornamos sérios demais e ocupados demais para brincar não somente com os outros, mas com nós mesmos. Concluímos, ainda, nos anais da vã filosofia sobre “maturidade adulta”, que seriedade é sinônimo de competência e que brincadeira é sinônimo de imperfeição. A primeira é profissional e eficaz, enquanto a segunda é imprudente e desnecessária. Porém, não se trata de regressar ao estado infantil, de deixar que subam passivamente os vapores das saudades, mas de recompor o lugar e o momento dessas condutas perdidas.

Quantas vezes crianças não ouvem dos adultos que “hoje não dá, filho, estou ocupado”, “hoje não dá, filha, estou com muita pressa” ou “estou muito cansado”.

Mas não nos esqueçamos de algo fundamental: a pressa, a ocupação, o cansaço não são apenas frutos da disposição individual de cada um, mas de circunstâncias sociais e históricas precisas. Assim, em Tarja Branca, às vezes fica a sensação de que basta que cada pessoa olhe para a criança que está dentro de si e aflore espontaneamente o universo lúdico da qual estava tolhida. Afinal, trabalha-se doze, dez, oito horas por dia, porque as contas chegam, enfrenta-se diariamente trânsito crônico, além de todos os outros deveres do cotidiano. Então, nesse contexto, quais as condições da criança (re)nascer no adulto? O aborto dia a dia dessa criança não é feito pela escolha do adulto, mas por circunstâncias que ele se defronta diretamente.

Para recuperar o lúdico na vida cotidiana é preciso lutar contra um processo histórico específico que trocou a brincadeira artesanal, autêntica, pelos shoppings centers e consumos de eletrônicos. É preciso também de ideias, critérios e perguntas radicalmente diferentes do que os slogans da sociedade moderna invoca o tempo todo. A começar, por exemplo, pela redução drástica do tempo de trabalho obrigatório e a mudança da própria noção de trabalho. Trocando em miúdos, não poderá haver completo desenvolvimento individual do “tempo livre” enquanto o trabalhador permanecer alienado e mutilado no trabalho. Sair em defesa da “tarja branca”, portanto, é também atacar de frente os imperativos da “tarja preta”. E o documentário apenas flerta com esse exercício. No entanto, é indiscutível sua resistência, em muitas falas e imagens, na ligação com a cultura popular, até porque as tônicas dos discursos no filme não são homogêneas.

Brigar politicamente para brincar socialmente. Sem isso ficamos um pouco ingênuos; e com isso ficamos com uma esperança crítica, que sempre renasce à luz das provas históricas. Assim, o peão, a bola de meia, a rua, a dança na chuva, estão do lado da trincheira da transformação social. Daí, o direito de brincar das crianças (e das crianças nos adultos) figura como naqueles versos de Carlos Drummond de Andrade: “vence o tédio, ilumina o dia e instaura em nossa natureza a imperecível alegria”. Ah, leitor, por favor, não se esqueça: da gaveta, do álbum, da foto e das perguntas.

Leia Também:

3 comentários para "Do exercício subversivo de brincar"

  1. Marcio Ramos disse:

    … legal…
    … brincar e legal, legal mesmo… brincarde tudo ate de ganhar dim dim…

  2. A crítica da suposta ingenuidade do filme em tratar o brincar sem uma dimensão do “socialmente” é leviana: até porque não existe brincadeira sem uma INTER-AÇÃO, ou seja, sem a ação entre pares, mesmo quando se brinca só. Quanto a questão do “… ingênuos… trincheira da transformação social”, também é descabida, haja vista que a dimensão lúdica do corpo-sujeito-brincante é demarcada pela resistência, por uma luta cotidiana e constante da criança/adulto pela sua própria sobrevivência, ontológicamente falando. Ou seja, é por imanência uma dimensão de ação, de diálogo, de dúvida, de oposição ao que está estabelecido (através da fantasia, por exemplo), de subversão e inversão do real, enfim, lugar dos possíveis e impossíveis, do sonho, da magia e da imaginação critativa – nada é mais humanizador que o brincar e, isso por si só, é profundamente transformador. Ademais, o filme é um excelente promotor do debate sobre a forma mais intima do ser humano tornar o mundo e a vida humana mais alegre.

  3. Parabéns pelo texto e concordo com ele. De toda forma, compreendi o filme como uma forte crítica a sociedade em que vivemos, voltada a técnica e ao trabalho árduo. Realmente o filme não propõe ideias para a mudança política, mas sim uma tomada de consciência individual. Todos deveriam se perguntar onde está o lúdico? onde ele foi parar? por que tanta seriedade? Ao mesmo tempo a sociedade nos cobra de ser cada vez mais produtivos, inclusive as crianças. Acho que a crítica feita pelo filme já é um começo, mas claro, para conquistar a “revolução”, o sistema precisa ser modificado. Mas quem tem a resposta para isso? Difícil, até por que o capital não vai reduzir as horas de trabalho, a não ser que as pessoas deixem de se submeter a ele. Talvez a luta comece a partir da tomada de consciência e a ação de cada indivíduo.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *