Diálogo com os que temem as contradições

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Na política, como na arte, o impulso da vida é, sempre, o imperfeito. PT, MST e MPL têm, de distintas maneiras, algo a ver com isso

Por Alexandre Pilati, na coluna Horizonte Cerrado | Imagem: M.C. Escher, Relatividade


“Horizonte cerrado” é o nome que Alexandre Pilati empresta à coluna que inaugura em “Outras Palavras”. Nela discute literatura, arte, política e pensamento hoje – “para expor a situação atual de um mundo cujas perspectivas nos aparecem sempre encobertas por nuvens ideológicas cada vez mais intrincadas.” A expressão é do livro
Poesias (1948) do poeta carioca Dante Milano.

A certa altura do século XX, Drummond dizia sobre o exercício da profissão de escritor: “Doce é projetar, rude é cumprir”. Nada mais verdadeiro para um ofício que, se nasce do sonho, não existe por causa dele. A cotidiana entrega à tarefa do trabalho realizador é o que faz o poema e não a pura inspiração delirante, que, embora opere importante papel no processo, tem uma consistência etérea que se deve superar para realizar. Assim, a rudeza de “cumprir” está intimamente ligada ao atrito do sonho com a realidade, uma vez que, em tal processo, é claro, o projeto se tornará outra coisa, num movimento de nervo dialético essencial.

Desse modo também se faz a política, como elemento organizador da vida na polis. Se não é possível deixar de lado os sonhos, é preciso também apostar na criação de condições para que eles possam se cumprir, sem alimentar ilusões de que, na prática, eles serão tudo aquilo mesmo que foi sonhado. O tão mal compreendido pensador italiano Niccolò Maquiavel foi um dos que primeiro sistematizaram certa forma moderna de conceber a ação política considerando as “coisas como realmente são” e não apenas “como deveriam ser”. Na dialética sonhar/cumprir da política o “ser” e o “dever ser” precisam se equilibrar e se provocar, para que haja verdadeira transformação progressista.

Em ano de eleição, será fundamental que saibamos avaliar essa dialética, tendo em vista que a mídia já ocupou o espaço discursivo da disputa com o campo semântico da “mudança”. Reconhecer o agenciamento ideológico dessa palavra, no contexto do Brasil atual, e reagir a ele são os desafios mais imediatos de quem está comprometido com a permanente e profunda transformação das estruturas arcaicas da comédia política nacional. Não podemos correr o risco de cair na esparrela de mudar para continuar como sempre fomos.

No oco da tal “mudança”, está o espectro das cômodas “causas perdidas”, aquelas que não se constroem como sonho, mas como ilusão política infantil ou como manifestação de rancor de classe. Normalmente tais causas perdidas organizam-se em torno de substantivos abstratos ou de ampla conotação, dentro dos quais atores e causas reais se diluem num vazio agradável aos ouvidos, mas sem eficácia transformadora. São as marchas “pela paz”, “contra a corrupção”, “pela saúde”, “pela educação”. É claro que ninguém será contra tais causas e nossa tarefa, portanto, é sentir o peso ideológico desses motes no contexto específico do processo social brasileiro.

TEXTO-MEIO

Bem alojada no leito das “causas perdidas” está a nossa elite rancorosa e patrimonialista, que cresceu (sem se tornar adulta) alimentada pelo capitalismo brasileiro viciado em dinheiro público. Uma elite sempre apressada em espezinhar moralmente os de baixo e os que os representam. Ao lado dessa protodiretia malandra, agita-se nas “causas perdidas” um tipo de esquerda que (de modo não menos infantil) tomou gosto pelo oportunismo político de tipo pós-moderno, que é mais espetáculo do que ação. Atenta à última moda vinda de fora, essa esquerda é perita em enunciar um discurso vistoso, alimentado com ideias que estão fora do lugar e cuja forma é tantas vezes agressiva ou violenta. Os jornais estão cheios de exemplos que comprovam o que digo, e o pseudo-movimento “#nãovaitercopa” é uma das mais recentes e brilhantes epifanias das “causas perdidas” como modo político para acomodar-se, a fim de gozar o “doce projetar” num espaço razoavelmente livre de contradições e a bem do “quanto pior, melhor”.

Quem cede a tão tentadores motes se esquece de que não apenas a política, mas também a própria vida evolui não a despeito das contradições e sim através delas. Há movimentos sociais organizados e partidos políticos que jamais se esqueceram disso. Historicamente essas forças coletivas tiveram de lidar rudemente com a rudeza do real, para que alguns dos seus sonhos se tornassem ocupação permanente do espaço político no Brasil. Alguns exemplos dessas forças são o Partido dos Trabalhadores, que talvez tenha de repensar a sua ação política em relação à hegemonia que conquistou; o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, que talvez tenha que se reativar como ponta-de-lança nacional na crítica do capitalismo periférico; e, por fim, mais recentemente, o Movimento Passe Livre, que talvez tenha de saber amadurecer ampliando sua atuação de ocupação pública do espaço urbano construindo-se de fato como alternativa representativa do sofrimento dos oprimidos pela cidade do capital. Todos, como se vê, têm pautas reais de mudança à sua disposição. Nos últimos anos, com eles e com seu realismo político humanista nós todos aprendemos muito. E quem sabe, antes de “mudar”, ainda tenhamos muito a aprender.

Alexandre Pilati é professor de literatura brasileira da Universidade de Brasília. É autor de A nação drummondiana (7Letras, 2009) e organizador do volume de ensaios O Brasil ainda se pensa50 anos de Formação da Literatura Brasileira (Horizonte, 2012). www.alexandrepilati.com

TEXTO-FIM
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Alexandre Pilati é professor de literatura brasileira da Universidade de Brasília. É autor de A nação drummondiana (7Letras, 2009) e organizador do volume de ensaios O Brasil ainda se pensa – 50 anos de Formação da Literatura Brasileira (Horizonte, 2012). Acaba de lançar o livro de poemas e outros nem tanto assim (7letras, 2015).