De desencantos, esquerda e ateísmo

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“O certo é que era católico. Evoluí até o agnosticismo e estacionei, pra desgosto de Darwin e da família. Teria ficado agnosticando graciosamente até o raiar da noite, não fosse o desaponto com a Sinistra”

Por Airton Paschoa, em Citações, oubra no prelo  | Imagem: Jean Auguste Ingres, Júpiter e Tetis (1811)


Citações é o título do próximo livro de Aírton Paschoa, a ser lançado ainda em 2016. O autor, que já publicou Contos Tortos, Dárlin, Ver Navios, Banho-Maria e Poemitos oferece antecipadamente, em Outras Palavras, trechos da obra. Citações virão em quatro remessas. Leia também a primeira, a segunda e a quarta partes. Esta é a terceira.

Faço saber, a quem interessar possa, que no fim da picada tropiquei numa desaparição. Nem sei se a desaparição desgarrada foi só minha ou se andou desassossegando mais gente por aí porque não converso com ninguém. Falar o quê? com quem? pra quê? Já basta o que alterco com meus fantasmas, vou ter ainda que estercar com os alheios… De retro, satanões!

Mas a encruzilhada foi a seguinte: foi só me desencantar de política que, ato contínuo, contíguo ou conjunto, sabe deus — desapareceu, sim, Ele, de súbito, virei ateu. Não que algum dia tenha me aparecido em carne e osso ou penas, cruz credo! mas meus fantasmas também não aparecem, e menos ainda desaparecem, os miseráveis. Ateu, creiam-me, ateu de tudo, ateu de pai e mãe! de pai e mãe cristãos, perdão. Como explicar o milagre, fica pra pára-psicologia. O certo é que era católico ou culturalmente católico como quase tolo brasileiro, quero dizer, todo brasileiro da minha degeneração. Evoluí até o agnosticismo e estacionei, pra desgosto de Darwin e da família, e teria ficado agnosticando graciosamente até o raiar da noite, não fosse o desaponto com a Sinistra.

Faço saber (leia acima, cidadão) que ateu, sem dúvida, convicto, mas não militante. Militar pra mim é substantivo, não verbo. E substantivo primitivo, que não admite derivada nem limite.

TEXTO-MEIO

* * *

Faço saber, a quem possa interessar, que passei a crer na metempsicose em vida. Não, não, não é mente em psicose, incréu. Há pessoas que expiram e continuam a respirar, mas algumas renascem ou reencarnam no próprio corpo morto-vivo. A experiência esotérica, cumulando-as de pontifícia católica e apostólica sapiência, entusiasma as eleitas a pregar a boa nova. Se no deserto, depende de cada camelo. Vamos à miragem.

Uma grande amiga gaúcha, velha militante política desde os tempos de grêmio e internacional, veio ficando desencantada com a idade. Até aí nada de sobrenatural, quem não ficaria, vivendo no Brasil? Se alma pura e imaculada, então… Natural. Dentro do próprio Partido a que tanto amava, a quantas lutas intestinas, sem torcer muito o nariz, não terá sido obrigada a assistir a nobre alma! Há algum tempo, porém, pareceu recobrar ânimo e vinha visivelmente encantada com a divulgação no País das recentes descobertas pré-históricas da psicologia evolutiva, evolucionista, evolucionária e etctantices afãs. Em síntese precária, que a palafita teórica sobe a alturas cipoais, o homem é um animal cujo comportamento, em sua luta feroz pela sobrevivência, obedece a razões geneticamente determinadas há — sabe Darwin! milhões, milhares, muares de anos. Moral da pré-história: que utopia humana poderia resistir a tal natureza animal? Ou versa-vice: com tal natureza humana, que utopia estúpida…

Confesso que, calando embora, urrava em masmorra meu marxismo vulgar. Quantas vezes não ficamos pasmo ao ouvi-la trocando naturalmente a luta de classes pela luta de genes! Que a direita ulula com tanta ciência, é óbvio. Que isso espumasse contudo da boca de uma ativista autêntica (em que pese a extinção), causava espécie. Da última vez que nos vimos, fraudadas minhas esperanças no governo Lula & Cardume, tive todavia que dar a pata à palmatória:

— Cê tem razão, Davina. O homem é mesmo um animal!

* * *

Faço saber, a quem interessar bossa, que a alma brasileira é avessa a vale de lágrimas, aqui reina o chorinho. O negócio é levar na flauta. Pensa, que que compensa? O machete racha e o violão escora. Tudo é de palha e pára em pé. O que pega fogo é o choro, mas a flauta sopra. Quem lá quer saber da ventania — cortante que nem guilhotina! da legião de arcos. Quem lá quer saber de trompas. Chorões, aquela, “Conciliando totoso”, nossa alma, nossa palma, por favor.

* * *

Faço saber, a quem interessar Bandeira, que defendo intransigente a bandeira do poeta. Oxalá Deus conservasse sempre provinciano este nosso Brasilzão! Quem não quer rede que não cai e só balança? Fundir pra que o coco com tanto desenvolvimentismo oco? Refresquemos com a água, doce, que hidrata e deixa delirar não. A gente vai chegar mas lá é nunca! Que estréis é esse, companheirada? Quedemos com nossos menestréis! A gente fazia amor e samba até mais tarde e mais tarde a gente não levantava. Sentindo frio em noss’alma, a gente enredava mais a gosto, pra lá e pra cá. Que nem o mar, sem sair do lugar. O Brasil, imagine, desenvolvia outra história… Isso sim é que era desenvolvimentismo gostoso! Quem não botasse fé no causo, botasse os pés no chão e — escafedesse bem longe daqui! Porque nós, ô nóis! a gente desatava, a gente deleitava, a gente delisiava, a gente venturava de papo pro ar.

* * *

Faço saber, a quantos possa interessar dos companheiros e das companheiras, que a questão do FMI, do nosso Fórum Municipal Íntimo, é a seguinte: precisamos caminhar pela cidade. Pra tanto, convém dar um mínimo de coerência a nossos movimentos. Não é mais possível os braços quererem tudo abraçar e as pernas correrem de tudo! Já pensaram em como fica a cabeça? São torcicolos e mais torcicolos na tentativa de evitar o destroncamento público. Isto pra não falar do tronco, coitado, que, sem escolha, amarrado aos membros dissidentes, ameaça, em legítima defesa, aumentar a divisão interna com balões de gases venenosos. Há quanto estamos reunidos? há mais de meio século, e que fizemos? Que figura ridícula! O reto de ponta-cabeça! A ponta do nariz debaixo do chafariz! O decúbito dorsal de frente! O dito cúbito abdominal de costas! A cara de pau a pique! O pau — presume-se. Não vivêssemos tempos (pra sorte nossa) de absoluta modernidade, teríamos de explicar a cada transeunte a cada passo como logramos dá-lo… Mas os anos passam, as capacidades estremecem, as juntas endurecem, e impõe-se a decisão: ou chegamos a um acordo, em definitivo, pra sem medo descer (feliz, não digo, mas pelo menos normalmente, como todo mundo) e passear com o Pet, ou então, como outro corpo não é possível, — é o fim do FMI!

TEXTO-FIM
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Airton Paschoa

"Airton Paschoa publicou "Contos tortos" (1999), "Dárlin" (2003), "Ver navios" (2007), "Banho-maria" (2009), "A vida do pinguins" (2014), "Sonetos em prosa & Poemicos" (2015), todos pela Nankin, e "Poemitos (juvenília)", em 2013, pela Dobra."