Da internet às ruas e às contas bancárias

Manuel Castells analisa: a imoralidade dos executivos e do mundo financeiro parece haver encontrado opositores inesperados: seus próprios clientes

Por Manuel Castells | Tradução: Daniela Frabasile

O capital financeiro e seus altos executivos enfrentam um sério problema: as pessoas não gostam deles. Mais que isso, são odiados por muita gente. E a raiva atinge também os políticos, que são vistos como marionetes dos bancos e que não duvidam em protegê-los com o dinheiro dos contribuintes, sem que as instituições financeiras retribuam o favor quando vão bem e o país vai mal. Afinal, argumentam, o dinheiro pertence aos acionistas.

Ninguém acredita nisso, porque nos conselhos de acionistas está tudo bem amarrado. Com uma minoritária participação de controle, alguns poucos acionistas mandam e desmandam. Some-se a isso os investimentos cruzados entre bancos e o sistema se fecha em si mesmo, com escassa utilidade social e máxima captação de fundos em benefício dos banqueiros, com ganhos exorbitantes para eles mesmos, ainda que quebrem suas entidades. E nada de pagar mais impostos. Para isso servem nos paraísos fiscais.

Daí o movimento Occupy Wall Street, iniciado no coração do capitalismo financeiro, ter conseguido tanto apoio popular nos Estados Unidos e no mundo. A ideia foi lançada na internet em julho de 2011 pela revista Adbuster, uma publicação de crítica à publicidade, editada em Vancouver. A proposta de ocupar Wall Street em 17 de setembro, dia da Constituição, para protestar contra o controle da política pelo dinheiro, foi incorporada por diversos grupos em todo o país, mais ou menos organizada na rede e finalmente levada a cabo por cerca de mil manifestantes que acabaram acampando no Zuccotti Park, nas imediações do distrito financeiro novayorquino.

O silêncio da mídia e a ausência de apoio organizado pareceu confinar o movimento ao ostracismo. Suas demandas eram variadas, mas coincidiam na crítica a um sistema financeiro que provocou a crise e que continua exercendo poder de vida e morte sobre a economia e a política. Mas, onde não chegam os meios de comunicação tradicionais, chega a internet, e a iniciativa ganhou apoio dos cidadãos cansados de tudo — mas especialmente dos bancos. E quando a polícia intensificou a repressão, os sindicatos estadunidenses, que estão sofrendo uma campanha de extermínio por parte dos governadores republicanos e das grandes empresas, decidiram se unir ao movimento e ajudar as manifestações. Os hackers também entraram em ação. Anonymous publicou os nomes e senhas pessoais dos policiais responsáveis por ferir os manifestantes.

O prefeito de Nova York, Michael Bloomberg ordenou que os manifestantes desmontassem o acampamento por “razões de higiene” (soa familiar?), mas volto atrás após a massiva mobilização para impedir a desocupação. Em 1º de outubro, os manifestantes marcharam até a ponte do Brooklyn, e a polícia os deixou passar. Era uma armadilha: finalmente, tinham pretexto legal para deter centenas de manifestantes. Mas a brutalidade da polícia oferece aos meios de comunicação uma oportunidade espetacular para filmar tudo — e, pela pela primeira vez, a imprensa, mesmo criticando, cobre amplamente o movimento.

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Rompe-se a barreira do silêncio. O movimentos, então, estendeu-se por todo o país. Centenas de cidades, e numerosos bairros e ruas, têm sua própria ocupação, tanto no espaço urbano quanto numa rede que relata a ação cotidiana e se conecta com outras redes que vão tecendo uma geografia virtual e espacial da mudança de mentalidade num país capitalista por excelência: 82% das pessoas no Estado de Nova York e 46% em todo o país apoiam as críticas do movimento Wall Street, frente a 34% que se opõe. O movimento se autoproclama representante de 99% dos cidadãos, em oposição a 1% que detém 20% da riqueza. E começa a ter impacto na opinião política: enquanto 68% da população pede que os ricos paguem mais impostos, 69% pensa que os republicanos favorecem os ricos.

Como o presidente dos EUA, Barack Obama, também aparece como prisioneiro de Wall Street, o efeito eleitoral direto é incerto, a menos que Obama faça uma mudança em relação a isso. Conforme o movimento aumenta em popularidade e em número de ocupações, acentua-se a repressão policial, centenas de pessoas são detidas em todo o país, as acusações policiais endurecem.

Acontecem feitos inéditos: em 22 de outubro, devido a uma ação policial em Nova York, um robusto sargento dos marines, ex-combatente no Afeganistão, repreendeu os policiais e os acusou de desonrar os ideais estadunidenses ao atacar os cidadãos. A polícia não se atreve com ele. O vídeo do incidente foi visto por três milhões de pessoas. Então surge um movimento, Ocupar os Marines, feito pelos próprios fuzileiros navais, que se dispõe a dar apoio tático e liderança aos manifestantes. Em 25 de outubro, a polícia de Oakland, na Califórnia, ataca durante a noite o acampamento em frente à Prefeitura. Uma granada de gás lacrimogêneo fratura o crânio do marine Scott Olsen, participante da ocupação. A prefeita pede desculpas.

Os protestos intensificam-se em todos os EUA. Em Nova York, uma tempestade de neve cobre a região. Alguns dias antes, o prefeito havia cortado toda a calefação em Zuccotti Park por “razões de segurança”. Os acampados aguentam o frio intenso com o apoio dos vizinhos do bairro e de redes de solidariedade.

Após sete semanas, as ocupações se proliferam e se reforçam. Os bancos seguem na mira dos manifestantes. Uma jovem de 22 anos em Washington, Molly Katchpole, reage contra a imposição do Bank of America de cobrar 5 dólares de seus clientes por cada utilização do cartão de débito — medida que os outros bancos iriam imitar. Molly publicou seu protesto na internet e em algumas horas 300 mil pessoas se juntam ao protesto. Os bancos cancelaram a medida, com ampla repercussão da mídia.

Move.Org, com 5 milhões de afiliados, lança uma campanha para que as pessoas retirem seu dinheiro dos grandes bancos e o depositem em cooperativas de crédito e bancos comunitários. Da internet à rua e da rua à conta bancária. Os executivos, que há algumas semanas brindavam com champanha, provocando os manifestantes que passavam em frente às suas janelas em Wall Street, começam a esconder sua identidade em público.

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Manuel Castells

Manuel Castells é professor de comunicação, titular da cadeira Wallis Annenberg de comunicação, tecnologia e sociedade da Annenberg School for Communication, da Universidade de Southern California, em Los Angeles, Estados Unidos. Diretor do Projeto Internet Catalunya, da Universidade Oberta da Catalunha, Barcelona, Espanha. Autor, entre outros, de A Era da Informação e A Galáxia da Internet.