Curumim: vida louca, morte besta

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Após glamourizar “Estamira”, Marcos Prado conta, com informação e realismo, história de Marco Archer — o garoto de Ipanema que voou pelo mundo até encontrar a morte diante de um pelotão de fuzilamento na Indonésia

Por José Geraldo Couto, no blog do IMS

Três documentários brasileiros estão entrando em cartaz: Cinema novo, de Eryk Rocha, Cícero Dias, o compadre de Picasso, de Vladimir Carvalho, e Curumim, de Marcos Prado. Por motivos diversos, todos merecem – e devem – ser vistos. Sobre Cinema novo, o melhor dos três, já escrevi quando foi exibido no festival de Brasília. De Cícero Dias basta dizer que retrata a vida e a obra do grande pintor modernista pernambucano com a tarimba e a vitalidade do veterano Vladimir Carvalho. Falemos então de Curumim.

O filme de Marcos Prado é um registro impressionante da autodestruição de um homem, Marco Archer Cardoso Moreira, vulgo Curumim, fuzilado em 2015 por tráfico de drogas na Indonésia depois de onze anos no “corredor da morte”. Em 2012, quando ainda fazia seus últimos apelos na esperança de anular ou comutar sua sentença, Curumim resolveu documentar seu cotidiano numa prisão de segurança máxima indonésia em que dividia a cela com terroristas da Al Qaeda e outros traficantes. Mandava os vídeos pela internet ao diretor Marcos Prado, que teve também acesso a um vasto material de arquivo da família e de amigos do personagem.

A esse acervo rico e heterogêneo o cineasta acrescentou depoimentos de uma porção de gente, incluindo a mãe de Curumim, o padre católico que o visitava na prisão, amigos de juventude, companheiros de cela etc.

Trajetória vertiginosa

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Costuma-se dizer que, na hora morte, “a vida toda passa diante dos nossos olhos”. Com sua construção arguta, descontínua, o filme é mais ou menos isso: uma vida que se desenrola vertiginosamente diante dos olhos do espectador, identificado por um par de horas com o desditado Curumim.

Que vida é essa? A “vida louca” de um garoto da juventude dourada de Ipanema dos anos 1970 e 1980, feita de surfe, drogas e rock’n roll. No caso específico de Marco Archer, mais asa-delta do que propriamente surfe. Chegou a ser um astro da modalidade, recordista brasileiro de permanência do ar. Entre outras coisas, vemos uma reportagem televisiva sobre o acidente que o fez ficar pendurado durante horas na pedra da Gávea.

Curumim literalmente voou pelo planeta. Nos Estados Unidos, ligou-se a traficantes colombianos e passou a comercializar cocaína mundo afora. Sua vida foi um carrossel contínuo de praias paradisíacas, festas, mulheres, drogas, saltos de asa-delta e parapente. Num desses saltos arrebentou-se todo num país da Ásia, ficou entre a vida e a morte e contraiu uma dívida de US$ 350 mil. Para saldá-la, escolheu o caminho mais curto – e perigoso. Foi ao Peru, comprou cocaína e tentou entrar na Indonésia com quinze quilos da droga nos canos de sua asa-delta. Detido no aeroporto de Jacarta, empreendeu uma fuga espetacular, escapou para uma ilha, virou manchete de jornais e tema de telenoticiários, mas acabou preso dezessete dias depois e condenado à morte.

Se não tivesse virado notícia, talvez escapasse. Outro brasileiro, também ex-preso na Indonésia, diz a certa altura que é possível corromper qualquer um no país, do policial que faz a detenção ao juiz que decide a sentença, mas para Marco Archer isso se tornou impossível dada a publicidade do caso.

Sem juízo

Se no centro do destino de Curumim está a ideia de juízo – criminal, mas também moral, filosófico, religioso –, o grande mérito do filme é justamente o de despir-se de todo julgamento, de toda sentença, dando espaço para que o próprio personagem se construa – e se destrua – na tela. Um mérito secundário é destacar a dimensão humana, e portanto contraditória, de outras figuras, em especial do italiano Juri Angioni, ex-companheiro de cela de Marco Archer, também condenado por tráfico de drogas, mas libertado depois de dez anos.

Vejo que falei mais do “conteúdo” do filme do que de sua construção, mas talvez isso seja fruto de sua própria consistência, de sua robustez informativa, de sua opção pela transparência e pela clareza. O contrário, por exemplo, do documentário mais conhecido do diretor, o aclamado Estamira (2004), que com sua estetização da miséria dava ares de profeta a uma catadora de lixo com evidentes transtornos mentais. Aqui, Marcos Prado parece falar de um tema que lhe é mais próximo, em termos de geração, cultura e grupo social, e talvez isso lhe tenha imposto uma sobriedade de estilo maior. Seu tema é “a vida apenas, sem mistificação”.

 

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José Geraldo Couto

*José Gerado Couto é crítico de cinema e tradutor. Publica suas criticas no blog do IMS. Para ler as edições anteriores da coluna, clique aqui.