Crônica da Rússia, à beira da revolução

Descontentes com a participação do país na I Guerra Mundial, soldados desertam e aderem aos bolcheviques, num movimento que seria decisivo para a revolução de outubro

Um grande escritor e cartunista contemporâneo reconstitui os meses que antecedram a tomada do poder pelos bolcheviques. No trecho a seguir, agosto de 1917, quando a direita tentou retomar o poder e Lenin teve de fugir para a Finlândia

Por China Miéville


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AGOSTO: EXÍLIO E CONSPIRAÇÃO

Naqueles últimos dias de verão, enquanto a direita planejava uma limpeza, uma indulgência milenarista florescia. Música e dança a noite toda, vestidos e gravatas de seda tingida, moscas rondando bolos quentes, vômito e bebida entornada. Longos dias, quentes noites orgíacas. Um sibaritismo de fim de mundo. Em Kiev, disse a condessa Speránski, havia “jantares com bandas e corais ciganos, bridge e até tango, pôquer e romances”. Assim como em Kiev, também nas cidades Rússia afora, entre os ricos sonhadores.

Em 3 de agosto, o VI Congresso do Partido Operário Social-Democrata Russo – o Congresso Bolchevique – aprovou por unanimidade a resolução em favor de um novo lema. Um meio-termo entre os impacientes “leninistas”, que enxergavam a revolução entrando em uma nova fase, pós-Soviete, e os moderados, que ainda acreditavam que podiam trabalhar com os socialistas à sua direita para defender a revolução. Mesmo assim, a importância simbólica da mudança de palavras era imensa. As lições passadas deram calma, os apelos mudaram. Julho havia cumprido sua missão. Os bolcheviques não pediam mais “Todo o poder aos sovietes”. Em vez disso, eles aspiravam ao “Fim da ditadura da burguesia contrarrevolucionária”.

*

Outubro.inddO Soviete mudou de endereço, conforme solicitado. O Instituto Smolni foi construído no início dos anos 1800: um grandioso edifício neoclássico no distrito de Smolni, a leste do centro da cidade, às margens do Neva, de corredores cavernosos, assoalho branco, iluminação elétrica pálida. No térreo havia um grande refeitório entre os corredores alinhados e repletos de escritórios sempre cheios de secretários, deputados e facções dos partidos do Soviete, suas organizações militares, seus comitês e seus conclaves. Pilhas de jornais, panfletos, pôsteres cobriam as mesas. Metralhadoras se projetavam das janelas. Soldados e trabalhadores se comprimiam nas passagens, dormiam em cadeiras e bancos, faziam a segurança das reuniões, sob a vigilância de molduras douradas vazias, das quais retratos imperiais haviam sido cortados.

Até pouco antes da revolução, o instituto havia sido um estabelecimento de ensino para as filhas da nobreza. Antigo fiador do poder estatal, o Soviete foi rebaixado a grileiro de uma escola de etiqueta para moças. Quando o Soviete inteiro se reunia, o evento tinha lugar no que antes fora o salão de bailes.

No dia 3, Kornílov foi encontrar Keriénski e, mais uma vez, fez várias exigências ao homem que tecnicamente era seu chefe. Elas incluíam, num endurecimento de sua atitude anterior, uma rígida restrição aos comitês de soldados. Embora concordassem amplamente com sua essência, Keriénski, Sávinkov e Filoniénko reformulariam o documento apresentado por Kornílov a fim de encobrir seu menosprezo incendiário. A repulsa do general ao governo só aumentou quando, no momento em que se preparava para informar o gabinete sobre a situação militar, Keriénski discretamente o aconselhou a não ser muito específico – e insinuou que alguns membros do gabinete, em particular Tchernov, poderiam representar perigo.

Durante o encontro, Keriénski fez uma pergunta intrigante a Kornílov. “Suponha que eu tenha de renunciar”, ele disse, “o que acontecerá? Você ficará sem saída, as ferrovias pararão, o telégrafo deixará de funcionar.” A resposta contida de Kornílov – de que Keriénski deveria permanecer no cargo – foi menos interessante do que a própria pergunta. A intenção por trás dessa melancolia é obscura. Estaria Keriénski buscando se certificar de que Kornílov continuaria a apoiá-lo? Estaria ele, talvez, cautelosamente sondando a possibilidade de uma ditadura de Kornílov?

Há uma multidão em cada um de nós, e em Keriénski havia uma multidão maior do que a da maioria. A pergunta lamuriosa poderia expressar tanto o horror quanto a esperança na ideia de desistir, de se entregar ao intimidador comandante em chefe. Uma pulsão de morte política.

O ódio à guerra continuava crescendo. De todo o país vinham inúmeros relatos de soldados que resistiam à transferência.

Uma batalha propagandística se intensificou em torno de Kornílov, refletindo a crescente separação entre a extrema direita do país, em torno da qual gravitavam os kadets, e o reduzido poder dos socialistas moderados. No dia 4 de agosto, o Izviéstia fez alusão a planos de substituir Kornílov por Tcheremísov, um general relativamente moderado que acreditava na colaboração com os comitês de soldados. No dia 6, o Conselho da União de Tropas Cossacas reagiu, dizendo que Kornílov era “o único general que poderia restaurar o poder do Exército e tirar o país dessa situação de extrema dificuldade”. O conselho, por sua vez, deu a entender que haveria uma rebelião caso Kornílov fosse removido.

Lenin com peruca e sem o cavanhaque num passaporte falso para a fuga à Finlândia

Lenin com peruca e sem o cavanhaque num passaporte falso para a fuga à Finlândia

A União dos Cavaleiros de São Jorge deu seu apoio a Kornílov. Conservadores importantes de Moscou, sob o comando de Rodzianko, enviaram-lhe telegramas veementes, dizendo que naquele “momento ameaçador de dura provação, o pensamento da Rússia se volta para o senhor com esperança e fé”.

Kornílov exigiu de Keriénski o comando do Distrito Militar de Petrogrado. Para deleite de uma direita sequiosa de golpe, ele ordenou que o chefe do Estado-Maior, Lukómski, concentrasse as tropas nas proximidades de Petrogrado – o que permitiria que fossem rapidamente enviadas à capital.

O pano de fundo dessa manobra não era apenas a catastrófica e cada vez mais grave situação econômica e social, mas um aumento consciente e deliberado das tensões em certos setores da direita punitiva. Em um encontro de trezentos magnatas dos setores industrial e financeiro no início de agosto, o discurso inaugural foi de Pável Riabuchínski, poderoso empresário do setor têxtil. “O governo provisório possui apenas a sombra do poder”, disse. “Na verdade, um bando de charlatões políticos está no controle […]. O governo está concentrado nos tributos, impondo-os primeira e cruelmente à classe comerciante e industrial […]. Não seria melhor, em nome da salvação da pátria, nomear um guardião acima dos perdulários?”

Em seguida demonstrou um sadismo tão espantoso que atordoou a esquerda: “A mão descarnada da fome e da destituição nacional vai agarrar os amigos do povo pelo pescoço”.

Chine Miéville: escritor, cartunista e ativista político

Esses “amigos do povo” que ele sonhava ver ao alcance de esqueléticos dedos predadores eram os socialistas.

Não foi apenas pela direita, entretanto, que a pressão se acumulou. Além disso, no dia 6, em Kronstadt, 15 mil trabalhadores, soldados e marinheiros protestaram contra a prisão dos líderes bolcheviques Steklov, Kámeniev, Kollontái e outros. Em Helsingfors (Helsinque), uma assembleia de proporções semelhantes aprovou uma resolução a favor da transferência do poder aos sovietes. É claro que essa reivindicação agora era ultrapassada no que dizia respeito aos bolcheviques, mas representava uma guinada à esquerda para a maioria dos trabalhadores. Impulsionada pelos bolcheviques e pelos militantes da ala esquerda dos Socialistas Revolucionários (SRs), no dia seguinte a seção dos trabalhadores do Soviete de Petrogrado criticou a prisão dos líderes de esquerda e a volta da pena de morte militar. Eles conquistaram votos. Mencheviques e SRs começaram a reclamar de deserções à esquerda – em suas próprias seções maximalistas ou mais além.

Tais sinais de recuperação da esquerda eram inconsistentes e irregulares: em 10 de agosto, nas eleições em Odessa, por exemplo, os bolcheviques conquistaram apenas três das cem cadeiras. Mas nas eleições municipais de Lugansk, no início de agosto, os bolcheviques conquistaram 29 das 75 cadeiras. Em Reval (hoje Talin), obtiveram mais de 30% dos votos, quase o mesmo que em Tver, pouco tempo depois, e em Ivánovo-Voznessiénsk conquistaram o dobro disso. Por todo o território do Império, a tendência era nítida.

Encolhido em sua choça, em um dia de chuva forte, Lenin foi surpreendido por palavrões. Um cossaco estava se aproximando pela mata molhada.

O homem suplicou para se abrigar do aguaceiro. Lenin não tinha muita escolha exceto afastar-se e deixá-lo entrar. Enquanto estavam sentados ali, ouvindo o tamborilar dos pingos, Lenin perguntou ao visitante o que o trazia àquele lugar tão fora de mão.

Uma perseguição, o cossaco disse. Ele estava atrás de alguém chamado Lenin. Para levá-lo de volta, vivo ou morto.

E o que o condenado havia feito, perguntou Lenin com cautela.

O cossaco fez um gesto com a mão, impreciso quanto aos detalhes. O que ele sabia, enfatizou, era que o fugitivo estava “encrencado”, era perigoso e estava nas redondezas.

Quando o céu finalmente abriu, o visitante agradeceu ao seu anfitrião temporário e partiu pelo mato encharcado para continuar as buscas.

Depois desse incidente alarmante, Lenin e o Comitê Central, com o qual ele continuava a se comunicar em segredo, concordaram que ele deveria se mudar para a Finlândia.

Em 8 de agosto, Zinóviev e Lenin abandonaram a choça acompanhados por  Emeliánov, Aleksandr Chótman – um “velho bolchevique” finlandês – e Éino Riákha, um ativista vistoso, de bigode extravagante. Os homens atravessaram o pântano às margens do lago até uma estação local, numa longa, árdua e úmida caminhada, cheia de retornos errados e má vontade, até saírem finalmente, se arrastando, em frente à ferrovia de Dibuny. Mas os problemas não haviam acabado: ali, na plataforma, um cadete do Exército, desconfiado, provocou Emeliánov e o prendeu. Mas Shotman, Riákha, Zinóviev e Lenin pegaram rapidamente um trem com destino a Udelnaya, nos arredores de Petrogrado.

Dali, Zinóviev seguiu para a capital. A jornada de Lenin ainda não havia acabado.

No dia seguinte, o trem 293 para a Finlândia chegou à Estação de Udelnaya. O condutor era Guro Jalava, ferroviário, conspirador e marxista engajado.

“Parei na beira da plataforma”, ele se lembrou depois, “quando um homem saiu do meio das árvores a passadas largas, subiu na plataforma e entrou na locomotiva. Era Lenin, claro, embora eu mal o tivesse reconhecido. Ele acabou sendo meu foguista.”

A fotografia no passaporte falso com que Lenin – “Konstantin Petróvitch Ivánov” – viajou tornou-se famosa. Com um quepe pousado no alto de uma peruca encaracolada e os cantos da boca, pouco familiar no rosto sem barba, ironicamente repuxados para cima, seus olhos profundos e pequenos são tudo que se pode reconhecer.

Lenin arregaçou as mangas. E pôs mãos à obra com tanto entusiasmo que o trem lançou nuvens de fumaça generosas. O condutor se lembrava que Lenin usou a pá com gosto, alimentando a locomotiva, fazendo com que andasse rápido, levando-o para longe por trilhos e dormentes.

Quando finalmente desembarcou, o foguista Lenin ainda tinha uma tortuosa jornada clandestina à sua frente. Foi apenas às onze horas da noite do dia 10 de agosto que ele chegou ao apartamento pequeno e simples da Praça Hakaniemi, no norte de Helsingfors (Helsinque). Ali era a residência dos Rovio. Como a sua esposa estava fora, visitando a família, Kustaa Rovio, militante social-democrata, havia concordado em abrigar o marxista russo.

A carreira de Rovio, um homem grande e imponente, havia dado uma guinada improvável e extraordinária. Socialista de longa data, ele também era, agora, chefe de polícia de Helsingfors. Como exatamente ele conseguiu conciliar esse papel com a militância revolucionária é algo incerto. Sobre o hóspede que, poucos anos antes, havia defendido manter reservas de “bombas, pedras etc. ou armas químicas” para jogar contra seus colegas, o chefe de polícia Rovio disse: “Nunca conheci um camarada tão amistoso e encantador”.

A única exigência de Lenin – e nisso ele era inflexível – era que Rovio devia conseguir jornais russos todos os dias e dar um jeito de entregar secretamente as cartas que ele trocava com seus camaradas do partido. Isso o anfitrião fez até mesmo quando sua esposa retornou e Lenin teve de se mudar para o apartamento de um casal socialista, os Blomqvists, próximo a Telekatu.

Percorrendo rotas arriscadas, subindo a pé pela floresta até a fronteira, Krúpskaya visitou o marido mais de uma vez. O próprio Lenin passeava por Helsingfors com uma liberdade fora do comum. “Para me pegar”, disse com prazer, na mesa da cozinha dos Blomqvists, enquanto lia sobre a caçada do governo, “é preciso ser rápido, Keriénski.”

Acima de tudo, ao longo de agosto, assim como havia feito em julho e faria em setembro, Lenin escrevia. Mensagens, cartas e instruções aos camaradas, e outra longa obra. Já no primeiro dia em que o hospedou, Rovio encontrou Lenin adormecido na escrivaninha, com a cabeça sobre os braços e um caderno cuidadosamente escrito diante de si. “Tomado pela curiosidade”, relatou Rovio, “comecei a virar as páginas. Era o manuscrito de O Estado e a revolução.”

O livro é uma extraordinária e vigorosa negociação entre o antiestatismo implacável e a necessidade temporária do “Estado burguês sem a burguesia”, sob o domínio do proletariado. O texto histórico, descrito por Lucio Colletti como “a maior contribuição de Lenin à teoria política”, foi escrito em cima de um tronco às margens de um lago infestado de mosquitos e, depois, na mesa de um policial. E não estaria concluído quando as circunstâncias mudaram e Lenin pôde retornar à Rússia. O texto termina com um famoso resumo: “É mais prazeroso e útil passar pela experiência da revolução do que escrever sobre ela”.

TEXTO-FIM

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