Corpos em Multidão: resposta a mercado e poder globais

150510_photo-original

Cooperação e afeto são propriedades fundamentais do vivo”, diz Regina Favre sobre tema do curso-oficina que coordena em “Outras Palavras” no próximo dia 23

Por Inês Castilho | Imagem: Emily Grenader

Nossos corpos vivem suas vidas, hoje, em ambientes cotidianamente opressivos e hostis. Impossível sentir-se bem na própria pele em serviços precários, penduradas no metrô, em ruas suspeitas de assalto – ou estupro. No intuito de resistir, suportar ou negar o que é excessivo para aquele corpo, a tendência é endurecer ou desmanchar: travar a garganta, reduzir a amplitude da respiração, silenciar a voz ou desmanchar-se, infantilizar-se , ausentar-se, abandonar as carnes. Uma enxurrada de apelos midiáticos com receituários de consumo de credos, comidas, ginásticas, sexualidades dificultam ainda mais a escuta do próprio ser.

TEXTO-MEIO

Vale, pois, ouvir o que tem a dizer a terapeuta Regina Favre sobre o processo formativo dos corpos. “Ter um corpo solto, mudar o corpo, sentir-se melhor ou pior dentro dele não é o que deve nos preocupar. O que interessa é aprender a se identificar com o corpo enquanto um processo vivo no mundo”.

Formada em Filosofia pela PUC-SP em 1965, educadora e pesquisadora, Regina integra a primeira geração da terapia política do corpo no Brasil, dos anos 1970, quando iniciou-se como terapeuta reichiana em Londres. Identificada com a contracultura e o alternativo, com passagem pela bioenergética e a biodinâmica, o chamado campo neo-reichiano, foi “participante ativa e sobrevivente da mutação social ocorrida na vida ‘dessas pessoas na sala de jantar’” – como gosta de dizer.

Ela conta que foi uma afirmação do autor de Anatomia Emocional, o biólogo-terapeuta Stanley Keleman, que descobriu em 1986, que lhe abriu o caminho: “O corpo é um processo em construção contínua”. Desde então, o que cultiva em seu Laboratório do Processo Formativo é uma educação prática e conceitual de que somos uma rede de corpos na multidão, multidões pelas cidades e campos do planeta. Sua visão nos distancia da percepção de um corpo que é meu, separado dos outros corpos no ambiente. Nessa formulação, a autoria se dissolve no coletivo.

“Mais do que nunca somos multidão. Essa é uma noção que pertence ao contemporâneo, a partir da evidência de que a vida acontece em rede. Viver em si mesmo a realidade da produção do corpo nos coloca em fluxos menos separados, e permite que a gente amadureça para comportamentos guiados pelo sentimento de ser parte” – ensina.

Surge assim um outro conceito de sanidade e maturidade: a co-operação. Diz Regina: “Os corpos que não amadurecem dependem, exploram, podem ser passivos ou dominadores – mas não vivem, em si mesmos, a necessidade do cooperar. Cooperar não é uma virtude, mas uma propriedade fundamental do vivo. A cooperação é possível à medida em que um corpo contém, com suas membranas, seus processos internos, e se conecta funcionalmente com os ambientes através da expressão da sua forma.”

“Corpos são bombas pulsáteis”, continua ela. “São parte dos ambientes e se produzem a partir da genética e de elementos ambientais. Isso é verdade para nosso corpo e para o do ser unicelular mais primitivo. Vivemos imersos nos ambientes, em contínua mutação: o que você vai ser daqui a meia hora ainda não está dado. Somos eventos dentro de eventos maiores.”

O que Regina oferece, com seu trabalho sobre o processo formativo dos corpos, é um modo de nos colocar e viver os processos – uma certa regulação de si nos ambientes que nos cabem viver. “Ambientes são mares físicos e também, e sempre, mares de comportamento, mares de poder, mares de imagens, linguagens. Respirar, por exemplo… Nada mais físico e, ao mesmo tempo, mais relacional e coletivo. Como viver nos ambientes sem sufocar o outro? Sem se sufocar diante do outro?” – pergunta.

A partir disso, ela apresenta ferramentas conceituais e metodológicas com as quais podemos nos colocar conscientemente como parte dos ambientes – absorvendo o ambiente, devolvendo para o ambiente. “Formar a si no ambiente significa aprender a nadar na excitação. Pode parecer pouco, mas é a realidade se formando – o devir, o vir-a-ser – que pode ser experimentado e aprofundado.”

Daí as expressões “corpar” (tomar corpo) e “co-corpar” (tomar corpo num ambiente de corpos), usadas por ela. “Os corpos se afetam entre si e respondem com excitação. Quanto mais recursos e amadurecimento formativo para absorver o ambiente, mais geramos diferenciação. Esse é um modelo autoral, de uma personalidade somática que se torna artífice da própria singularidade. Quanto mais aprendemos a navegar, tanto em turbulências com em águas boas, mais potência formamos.”

A consciência de que somos corpos na multidão é fonte de poder – sustenta Regina. O mercado global é a realidade dentro da qual somos produzidos – e a realidade que, queiramos ou não, ajudamos a produzir. E o mercado é regido e explorado por uma pequena rede de poder também global, o 1%. “Nós, os 99%, somos a multidão. Nossa força está justamente em não ser especial, diferentemente do que tenta, e na maioria das vezes consegue, nos convencer o mercado, com seu constante canto de sereia. Nossa força está em conseguir reconhecer a evidência de que a vida se dá em rede e que é possível amadurecer para ser parte, funcionando articuladamente.”

TEXTO-FIM
The following two tabs change content below.

Inês Castilho

Jornalista, cineasta e pesquisadora, integra o corpo editorial de Outras Palavras, foi editora do jornal Mulherio, realizadora dos filmes de curta-metragem "Mulheres da Boca" e "Histerias" e cofundadora do Nós Mulheres, primeiro jornal feminista de São Paulo.