Como nascem os monstros

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No surpreendente “O lobo atrás da porta”, Fernando Coimbra explora tensões entre realidade e ficção, em meio a leitura provocadora do Brasil contemporâneo

Por José Geraldo Couto, no blog do IMS

Na avalanche de títulos que estão entrando em cartaz neste último fim de semana antes da Copa, merecem destaque dois excelentes filmes brasileiros: Riocorrente, de Paulo Sacramento, e O lobo atrás da porta, de Fernando Coimbra. Sobre o primeiro, escrevi aqui por ocasião de sua exibição no Festival de Brasília. Vamos então ao segundo.

Ambientado nos dias de hoje no subúrbio do Rio de Janeiro, O lobo pode ser enquadrado, grosso modo, no gênero policial. Há um crime (o sequestro de uma criança), há suspeitos, há uma investigação para descobrir o que aconteceu. Sem perder o fio da tensão e do suspense, o filme transcende os limites e convenções do gênero por vários lados.

O tempo presente da narrativa é o do inquérito policial: um delegado (Juliano Cazarré) interroga parentes da vítima, suspeitos, testemunhas. Reconstituem-se então os acontecimentos em sucessivos flashbacks, a partir dos diversos depoimentos. Só que, embora encenadas sempre com a mesma densidade realista, nem todas as versões são “verdadeiras” (se é que alguma é). Resulta daí que temos flashbacks falsos, à maneira do que acontecia no clássico Testemunha de acusação, de Billy Wilder.

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A ficção de cada um

Esse, a meu ver, é um dos pontos de maior interesse do filme. É significativo que seu título aluda a uma fábula (aliás, a duas: Chapeuzinho vermelho e Os três porquinhos), pois é de fabulação que se trata aqui. Todos os personagens, em alguma medida, inventam, fantasiam, fabulam. É como se não existisse uma realidade última, mas apenas versões dela. A própria memória, como sabemos, encerra em si um bocado de ficção.

Mas que não se pense, com base no que foi dito, que se trata de um exercício de estilo, de uma especulação abstrata sobre a “construção cinematográfica da mentira” ou coisa que o valha. Pelo contrário. O Brasil de hoje, ou uma leitura bastante pertinente do Brasil de hoje, transpira no filme por todos os poros, isto é, por todas as imagens e falas, ainda que de modo oblíquo e sutil, amalgamado à eletrizante trama central de sequestro, adultério, aborto, falsa identidade e crime passional.

Chama a atenção a segurança – surpreendente para um estreante em longa-metragem – com que Fernando Coimbra mantém vivo o suspense sem lançar mão dos recursos e muletas mais vulgares do gênero (a montagem sôfrega, a música enfática, o sangue, os sustos). Em vez de manipular o olhar e a emoção do espectador com esse tipo de truque, ele aposta na sua participação ativa. Em vez de apostar nos cortes e no pingue-pongue rotineiro do campo/contracampo, constrói elaborados planos-sequências que abarcam a cena em toda a sua riqueza, graças a uma utilização admirável da profundidade de campo.

Integridade da ação

Um exemplo notável é o plano de três minutos em que uma personagem (tenho que ser vago para não entregar a história) entra em casa à noite e caminha até a cozinha, passando pelos pais que estão na sala. Um espelho na parede divide o quadro em duas partes. Na parte da direita vemos a tal personagem encher um copo d’água e sentar-se diante dele à mesa, pensativa. Na metade da esquerda, pelo espelho, vemos seus pais na sala. Alguém toca a campainha, a mãe abre a porta, aparecem no fundo do quadro as luzes giratórias de um carro de polícia. Num filme convencional, essa cena seria retalhada numa dúzia de planos. Em O lobo ela é mantida em sua perturbadora integridade. A câmera se move muito pouco, e com sutileza. O efeito é poderoso.

Entre parênteses: pelo modo como articula o gênero policial com um estudo de personagens e de emoções, pela construção retrospectiva e lacunar da narrativa, pela inteligência da mise-en-scène, O lobo se aproxima, de certa forma, do também carioca No meu lugar, de Eduardo Valente. Fecha parêntese.

Cabe uma última palavra sobre a qualidade do elenco, em que a atuação terra a terra da ótima Fabiula Nascimento alimenta de certo modo a densidade trágica de Leandra Leal. Entre as duas, Milhem Cortaz, despido dos excessos histriônicos de outros trabalhos, oscila convincentemente entre a fragilidade e a energia bruta.

Não há vilões nem heróis em O lobo atrás da porta. O que ele nos mostra de mais terrível é que não é preciso ser um monstro para cometer monstruosidades.

Assista ao trailer:

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José Geraldo Couto

*José Gerado Couto é crítico de cinema e tradutor. Publica suas criticas no blog do IMS. Para ler as edições anteriores da coluna, clique aqui.