Chéri à Paris: O Charles garante

A Federação Francesa de Tênis anunciou solenemente, este ano, que acabaria com os cambistas, em Roland Garros. Pergunta se funcionou…

Por Daniel Cariello

Senhoras e senhores, esse ano a Federação Francesa de Tênis fez o maior auê para dizer que finalmente iria acabar com os cambistas de Roland Garros, a partir da adoção de uma medida simples: ingressos nominais e apresentação do documento na porta. O cidadão só entraria se a graça impressa no bilhete coincidisse com a gravada na identidade.

O anúncio oficial dessa maravilhosa novidade foi em uma festa cheia de bacanas engravatados. “Liquidamos com os parasitas”, afirmaram, num discurso capaz de emocionar até atendente de telemarketing.

Agora, vai, pergunta se funcionou, pergunta.

É claro que não, né?

TEXTO-MEIO

Logo no primeiro dia do torneio, o caminho entre a saída do metrô e a entrada do complexo já estava tomado de cambistas segurando seus cartazes faits maison, onde se lia cherche place. “Procuro ingresso”, em português. Acontece que, pela lei, é ilegal fazer dinheiro revendendo, então eles anunciam que estão comprando. “Estamos prestando um serviço. Somos postos avançados da bilheteria”, me disse um deles. Serviço, eu não sei. Avançado, certamente, pois eles avançam sem dó no bolso dos incautos.

Dia desses fui verificar o funcionamento do esquema.

– Pra Suzanne Lenglen, cento e vinte dinheiros.
– Cento e vinte? E pra central?
– Quatrocentos.

Caraca, maluco. Quatrocentos mangotes pra ver o Federer despachar mais um pra casa! Se bobear, é mais caro do que a passagem de volta do sujeito.

– Mas e essa história de ingresso nominal?
– Tu rigoles ou quoi? Você acha mesmo que eles conferem?
– E não conferem?
– O Charles garante que não.
– E se der problema?
– Não vai dar problema, o Charles garante.
– Sei, sei. E aposto que o Charles é você, certo?
– Pas du tout. O Charles é um cara acima de qualquer suspeita.

Disse isso e me apontou o Charles, que estava ao seu lado, braços cruzados. Um tipo tão grande que era compreensível que seu nome fosse no plural.

– Você não garante, Charles?, perguntou o vendedor.
– Garanto!, grunhiu o Charles.

Olhei e agradeci, garantindo que não tinha interesse na proposta.

Daniel Cariello, editor da revista Brazuca, é colaborador regular daBiblioteca Diplô/Outras Palavras. Escreve a coluna Chéri à Paris, uma crônica semanal que vê a cidade com olhar brasileiro. Os textos publicados entre março de 2008 e março de 2009 podem ser acessados aqui.

TEXTO-FIM

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Daniel Cariello

Daniel Cariello é colaborador de Outras Palavras e, antes, do Diplô Brasil, desde 2008. Já lançou dois livros de crônicas, Chéri à Paris (2013) e Cidade dos Sonhos (2015), ambos best sellers na Amazon. Foi cronista de Veja Brasília e Meia Um. Este texto faz parte de seu novo projeto, Cartas da Guanabara, com crônicas cariocas. É editor do selo literário Longe.

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