Chéri à Paris: Um reino por um dedo

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“Impressão minha ou você está chantageando uma menina de dois anos? “Não. Eu disse que seria recompensa pelo esforço dela”

Por Daniel Cariello*, em Chéri à Paris

 A Louise nunca teve chupeta. No entanto, compensou a necessidade inata de sucção chupando o polegar esquerdo. Chupando, não, castigando o pobre coitado, tamanha a fúria com a qual o sugava.
Tentamos fazê-la parar.
– Loulou, tem que parar, não é bom.
– É bom, sim, pai. Aqui, ó.
E lascava novamente o dedo na boca, como se fosse um doce.
Levamos ao dentista, que endossou nosso discurso.
– Ei, Louise, você precisa parar de chupar o dedo. Tem que cuidar dos dentinhos.
– Mas eu já cuido com a escova. Né, pai?
Eu respondia que era, mas que não era, porque para ser mesmo era preciso ser de verdade. Ela não entendeu nada. Tentei simplificar.
– Do contrário, Louise, você vai precisar usar aparelho quando for grande.
– Eu quero usar aparelho, pai.
– E você sabe o que é aparelho?
– Não.
Teve também o dia em que a levamos ao médico.
– Como vai a saúde dela?
– Tá ótima.
– Dorme e come bem?
– Até demais.
– Ainda coloca fralda?
– Só pra dormir.
– E chupeta?
– Nunca usou, mas chupa o dedo loucamente. Chegou até a fazer um calo no polegar, olha aqui.
E virou-se pra ela.
– Louise, você machucou o seu dedinho de tanto chupá-lo. Precisa parar, pra ele ficar bom.
– Mas ele já está bom. Papai e mamãe deram um beijinho e ele melhorou.
Não tinha mesmo jeito. Ou parecia não ter. Até o dia em que a mãe veio me contar a novidade.
– A Louise vai parar de chupar o dedo.
– E eu vou aprender a voar rodando os braços.
– Tô falando sério.
– Eu também. Já comecei a treinar ontem, pulando do sofá.
– Eu a convenci.
– ?
– Falei que se ela parasse a gente daria uma boneca de princesa da Branca de Neve.
– É impressão minha ou você está chantageando uma menina de dois anos?
– Não. Eu disse que seria uma recompensa pelo esforço dela.
– Ah, então está negociando com ela, realmente muito melhor.
– Vai funcionar, você vai ver.
Acontece que de maneira surpreendente a coisa começou mesmo a dar certo.
– Pai, tô parando de chupar.
– Tô vendo. Parabéns, Louise.
– Ela tá onde, minha boneca de princesa da Branca de Neve?
– Só quando você parar de verdade. E não se esqueça: é uma recompensa pelo seu esforço.
– Pai, o que é esforço?
Esses dias percebi que já fazia quase uma semana que ela não colocava o dedo na boca.
– Loulou, parabéns, você parou mesmo de chupar o dedo. Hoje vamos comprar sua boneca da Branca de Neve.
– Oba!
Passamos em uma loja, não tinha : “Na Disney do Champs-Elysées o senhor vai encontrar”. Não encontrei : “Estamos sem recebê-la há meses! Tenta em Les Halles”. Tentei e nada. “Dá uma chegadinha na rua tal, é possível que tenha”. Cheguei e não tinha. A Louise já começava a perguntar.
– Pai, cadê minha boneca de princesa da Branca de Neve?
– O moço disse que acabou.
– Vamos em outra loja?
– Já fomos em várias.
– Mas vamos em outra, vamos?
Já tem dois dias que procuro esse diacho de boneca. Tem Pocahontas, Pequena Sereia, Cinderella, Bela Adormecida e todas essas mocréias da Disney, só não tem a Branca de Neve. Comecei a pensar em desistir e dar uma desculpa qualquer, mas agora há pouco a Louise me perguntou mais uma vez pelo presente, olhando com um certo interesse para o próprio polegar. Tive a nítida impressão que ela estava avaliando se voltaria a chupá-lo ou se o abandonaria de vez, como uma recompensa pelo meu esforço em encontrar a sua princesa.


(*) Daniel Cariello é colaborador regular do Outras Palavras. Escreve a crônica semanal Chéri à Paris,

TEXTO-FIM

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Daniel Cariello

Daniel Cariello é colaborador de Outras Palavras e, antes, do Diplô Brasil, desde 2008. Já lançou dois livros de crônicas, Chéri à Paris (2013) e Cidade dos Sonhos (2015), ambos best sellers na Amazon. Foi cronista de Veja Brasília e Meia Um. Este texto faz parte de seu novo projeto, Cartas da Guanabara, com crônicas cariocas. É editor do selo literário Longe.

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