Chéri à Paris: Tem carta pra você

(Chéri à Paris, por Daniel Cariello)

Eu sou um bom cidadão. Do tipo que paga impostos em dia, cede o lugar pra velhinhas no metrô, ajuda amigos a fazer mudança e de vez em quando até come brócolis, esse legume compreensivelmente discriminado.

Mas tem uma pequena transgressão da qual não abro mão: eu adoro redistribuir os folhetos de publicidade que chegam à minha caixa de correio. Coloco tudo nas dos vizinhos. Chega quase a ser uma obsessão, pois espero ansiosamente pela passagem do carteiro e dos panfleteiros profissionais para ver as novidades que eles me trazem. Não há um só dia em que eu não receba menus dos restaurantes das redondezas, catálogos de lojas de roupas ou cupons de descontos variados.

Longe de ser uma atividade aleatória, a redistribuição dessas publicidades é quase uma arte. E para bem desenvolver o metier, é preciso se preparar. É fundamental conhecer os vizinhos pelos sobrenomes, pois é assim que as caixas de correio são identificadas na França. Também é importante saber um pouco sobre os gostos deles, coisa simples de resolver em conversas amenas de elevador, do tipo “- Hoje está frio, né? – É, bem frio, e a senhora gosta de sushi?”. E por último, é necessário decidir qual a estratégia de distribuição.

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A minha preferida é a que chamo de spam-fleto, uma técnica que exige paciência e consiste em juntar durante uma ou duas semanas todos os papéis indesejados que recebo. Depois, pego o bolo e deposito de uma só vez na caixa da vítima escolhida. O tralalau de folhetos cai fazendo um barulho seco e sensacional. Com a prática, descobri que papéis mais baratos fazem um esporro maior. Já os envernizados deslizam mais facilmente, o que facilita a inclusão (termo politicamente correto para atochamento) de mais material. A escolha depende do efeito que se quer causar.

Gosto também do procedimento PPF, que pode tanto significar “passando a publicidade pra frente” quanto “passando o problema pra frente”. Tenho tendência a preferir a segunda opção de nome. O grande segredo do PPF é saber do que o vizinho não gosta e bombardeá-lo exatamente com isso. Se o habitante do 3º é vegetariano, então todos os panfletos de açougue vão pra ele. Se a moradora do 5º não suporta cachorros, será ela que receberá os anúncios de pet shop. E assim por diante.

Atualmente, venho me dedicando a desenvolver um novo método, o Panique dans la boîte aux lettres!. A idéia é juntar dezenas de panfletos iguais e depositar um na caixa de correio escolhida toda vez que passar na frente dela, não importa a hora, na razão mínima de 3 por dia. Ainda não consegui realizá-lo, mas já imagino que a combinação de Panique dans la boîte aux lettres! com PPF pode dar bons resultados.

Dia desses, no elevador, cruzei com um casal que mora no 2º andar. Eles reclamavam que há alguns meses vêm recebendo muito mais folders, folhetos, catálogos, cupons e santinhos do que o normal. Assim que desceram, anotei no meu caderninho: “Os Dupont não gostam de receber publicidade. Fazer algo a respeito”.

Daniel Cariello, editor da revista Brazuca, é colaborador regular daBiblioteca Diplô /Outras Palavras. Escreve a coluna Chéri à Paris, uma crônica semanal que vê a cidade com olhar brasileiro. Os textos publicados entre março de 2008 e março de 2009 podem ser acessados aqui.

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Daniel Cariello

Daniel Cariello é colaborador de Outras Palavras e, antes, do Diplô Brasil, desde 2008. Já lançou dois livros de crônicas, Chéri à Paris (2013) e Cidade dos Sonhos (2015), ambos best sellers na Amazon. Foi cronista de Veja Brasília e Meia Um. Este texto faz parte de seu novo projeto, Cartas da Guanabara, com crônicas cariocas. É editor do selo literário Longe.

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