Chéri à Paris Passage des Panoramas

(Chéri à Paris, por Daniel Cariello)
Esse texto faz parte da série “Autour de Paris”, de crônicas dedicadas a cada um dos bairros da cidade. Para ler os outros, clique aqui

O bom de estar em Paris é que Paris não se cansa de me surpreender. Moro aqui há três anos e meio e toda vez que vejo monumentos como a torre Eiffel e a Notre Dame, que já vi milhões de vezes, me dou conta disso e penso “caramba, estou em Paris!”.

Esse tipo de sensação acontece o tempo todo, quando descubro um jardim escondido, uma rua charmosa ou um restaurante imperdível. E hoje aconteceu de novo.

Peguei uma vélib e saí em direção à Bourse, a bolsa de valores, localizada no 2ème e escolhida para essa segunda crônica sobre os bairros da cidade. Porém, com meu aguçado senso de não-direção, acabei parando longe de onde havia planejado. Tant mieux, pois no caminho topei com a Passage des Panoramas, a mais antiga passagem coberta de Paris.

A Passage des Panoramas foi criada em 1799, para que os parisienses pudessem fazer compras abrigados da chuva e da sujeira da cidade, que não tinha esgoto na época. Hoje serve como uma espécie de galeria, cheia de restaurantes, algumas lojas de filatelia e com um climão que me lembra a Galeria Menescal do Rio de Janeiro, onde se encontra a segunda melhor esfirra da história das esfirras. A melhor está não muito longe dali, na Galeria Condor, no Largo do Machado.

Cheguei perto da hora do almoço, e o cheiro de comida vem de todos os lados. Do restaurante italiano, onde estou e bebo apenas um café, sobe um aroma de manjericão fresco. Do indiano da frente, de curry. Do francês logo ao lado não vem cheiro nenhum, mas o cardápio do dia sugere um carré de cochon rôti de Paul Legros, um pedaço de porco grelhado de Paul Legros, Paul o gordo, em português. A dúvida que me bate é se o porco é do Paul, é preparado pelo Paul ou é o próprio Paul. A não conferir.

TEXTO-MEIO

Ao meu lado, uma senhora fala do marché d’Aligre para o italiano dono do restaurante, e conta a ele maravilhas dos legumes bio que se encontram por lá. Bio – biô, pra eles – é a nova moda francesa. Todos os bo-bos, os bourgeois-bohème, comem biô e se acham super naturebas, enquanto acendem mais um cigarro.

Pouco depois surge um sujeito mais velho, de muletas, e senta-se mais perto do balcão. O italiano faz jus à fama do seu povo e dirige-se a ele num quase grito.

– Ei, pra você nós estamos fechados.
– Eu não quero nada dessa birosca não, só sentar nessa cadeira podre aqui.

Eles sorriem, se abraçam e o dono vai buscar um café para quem parece ser um amigo de longa data, que o bebe com gosto e agradece.

O italiano, feliz da vida, volta pro seu balcão cantando.

– Amore, amore, amore!!!

Paris não se cansa de me surpreender. A poesia está em cada uma de suas esquinas.

Daniel Cariello, editor da revista Brazuca, é colaborador regular daBiblioteca Diplô /Outras Palavras. Escreve a coluna Chéri à Paris, uma crônica semanal que vê a cidade com olhar brasileiro. Os textos publicados entre março de 2008 e março de 2009 podem ser acessados aqui.

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Daniel Cariello

Daniel Cariello é colaborador de Outras Palavras e, antes, do Diplô Brasil, desde 2008. Já lançou dois livros de crônicas, Chéri à Paris (2013) e Cidade dos Sonhos (2015), ambos best sellers na Amazon. Foi cronista de Veja Brasília e Meia Um. Este texto faz parte de seu novo projeto, Cartas da Guanabara, com crônicas cariocas. É editor do selo literário Longe.

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