Chéri à Paris: O pipoqueiro da fonte

(Chéri à Paris, por Daniel Cariello)

Passeando com dois amigos que, como eu, também moraram em Brasília e estavam de passagem pela cidade, acabamos parando em uma pracinha nos fundos do Memorial JK. A idéia era ver o pôr do sol, espetáculo mais deslumbrante na capital do Brasil do que em qualquer outro lugar que conheço.

Ao chegarmos lá, dupla decepção. A primeira pelo tempo, que fechou de uma hora pra outra e tapou a visão do sol. A segunda pela conservação da tal pracinha. Mesmo localizada ao lado de uma dos mais importantes pontos turísticos da cidade, estava abandonada, cheia de lixo e sem nenhuma vida. Logo ali, de onde se tem uma visão de 360º do céu, que alguém já descreveu como “o mar de Brasília”.

Com um misto de tristeza e decepção pelo estado do lugar, começamos a fazer uma lista do que, acreditávamos, poderia mudar por ali.

TEXTO-MEIO

– Esse fosso em torno da praça tá vazio. Tem que colocar água.
– E patos. Faltam patos.
– Precisa arrancar esse mato também.
– Pra mim, o que falta é um pipoqueiro. – Disse.
– Pipoqueiro? – Perguntaram os outros.
– Isso. Um pipoqueiro é a síntese de tudo isso. Para um pipoqueiro se deslocar até aqui, o lugar precisa estar bem conservado, limpo, agradável. Enfim, precisa atrair gente, principalmente crianças. Se tem criança e pipoqueiro, o ambiente é alegre e o ponto turístico é sem dúvida um sucesso. – Completei.
– O problema é que Brasília não feita para o turismo, ninguém pensa nisso por aqui.
– É verdade. – Conformamo-nos todos.

Voltamos para o carro pensando nessa história do pipoqueiro e continuamos nossa volta pela cidade onde crescemos, tão saudosos que estávamos de Brasília e principalmente uns dos outros. Ao passar pela Torre de TV, percebemos perplexos que a famosa fonte luminosa estava ligada. Nenhum de nós três havia jamais visitado a fonte, que passara anos desativada. Sem hesitar, sugerimos quase em coro.

– E se parássemos ali?

Encostamos o carro e ficamos surpresos pela segunda vez: o lugar estava lotado! Olhamos uns para os outros, comentando que ali nem parecia Brasília. Nesse instante, como se tudo fizesse parte de um grande plano para nos ensinar a olhar com outros olhos o que já conhecemos, o espetáculo começou: a fonte passou a jorrar água nas mais variadas formas, em pequenos e grossos esguichos que se entrelaçavam, em nuvens de vapor, em chafarizes menores que moldavam o líquido como se fossem chamas (não me pergunte como faziam isso). Tudo sincronizado com luzes e música, chegando ao requinte máximo de haver projeções de imagens e filmes nas cortinas formadas pelas minúsculas partículas de água.

Nosso espanto tornou-se ainda maior quando um de nós reparou em algo que os outros ainda não tinham notado.

– Vejam, o lugar está cheio de pipoqueiros. Quem quer um saquinho?

Peguei um da salgada e continuei a observar a fonte, cercado de crianças.

Daniel Cariello, editor da revista Brazuca, é colaborador regular daBiblioteca Diplô /Outras Palavras. Escreve a coluna Chéri à Paris, uma crônica semanal que vê a cidade com olhar brasileiro. Os textos publicados entre março de 2008 e março de 2009 podem ser acessados aqui.

TEXTO-FIM
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Daniel Cariello

Daniel Cariello é colaborador de Outras Palavras e, antes, do Diplô Brasil, desde 2008. Já lançou dois livros de crônicas, Chéri à Paris (2013) e Cidade dos Sonhos (2015), ambos best sellers na Amazon. Foi cronista de Veja Brasília e Meia Um. Este texto faz parte de seu novo projeto, Cartas da Guanabara, com crônicas cariocas. É editor do selo literário Longe.

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