Chéri à Paris: Noventa e um

Por Daniel Cariello*, em Chéri à Paris

Na minha série de filosofia barata que é um barato, já defendi a tese de que o gesto definidor do francês é, pra mim, o assoar de nariz. Indo um pouco além – ou um bocado aquém, dependendo do ponto de vista –, ontem, enquanto lepidamente pedalava uma Vélib, tive a visão de que a palavra que resumiria os patrícios de Victor Hugo seria quatre-vingt-onze. Noventa e um.

Os mais apressados descordariam: “por que não croissant?”, “fromage, pra mim é fromage!” ou “protesto, o que define o francês não seria uma palavra, mas a expressão ‘uh la la’”.

Eu diria que todos eles têm um pouco de razão, afinal croissant, fromage e uh la la são termos mais utilizados por aqui do que outros, tais quais douche e sourire. Porém, no afã impaciente de encontrarem a perfeita síntese gaulesa, os incautos passariam ao largo de uma característica marcante da cultura local: a tendência a filosofar e a poetizar, mesmo onde não cabe.

Isso pode ser facilmente demonstrado fazendo uma comparação simples com a língua portuguesa. Vamos tomar como exemplo a expressão “fala, mulek doido!”. Um equivalente francês seria traduzido para algo como: “Diga aí, meu companheiro por quem tenho muito apreço, que me faz pensar sobre o real sentido da palavra amizade e me traz lágrimas aos olhos quando estou às margens do Sena em uma tarde de outono, tomando uma taça de um bom Bourgogne enquanto ajeito a minha echarpe, e de repente penso em você e na fugacidade do tempo, no fato de que um dia todos retornaremos inexoravelmente ao pó, como já o fizeram Flaubert, Roberpierre e o casal Curie. Como está a sua existência na jornada de hoje?”.

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Podemos notar no modelo linguístico exaustivo proposto que esse idioma, por mais belo que seja, não é chegado a caminhos curtos. E mais do que uma característica da língua, essa é uma marca do povo francês.

O pobre noventa e um seria o resumo perfeito disso. É uma palavra, mas também uma conta matemática, pois quatre-vingt-onze significa literalmente quatro vezes vinte mais onze. E é um número, mas também uma visão de mundo. Afinal, os franceses, vá saber porquê, inventaram lá atrás de contar de vinte em vinte, e não de dez em dez (mesmo se atualmente apenas o oitenta e o noventa – quatre-vingt e quatre-vingt-dix – persistam). Percebam que ainda nem falei do setenta, que virou soixante-dix, sessenta mais dez. Mas vamos deixá-lo para lá por enquanto.

Se você, como eu, se embaralha sempre que precisa falar quatre-vingt-onze, uma sugestão: tente dizer cent moins neuf, cem menos nove. Não é mais fácil, mas os franceses vão adorar.

(*) Daniel Cariello, editor da revista Brazuca, é colaborador regular do Outras Palavras. Escreve a coluna Chéri à Paris, uma crônica semanal que vê a cidade com olhar brasileiro. Os textos publicados entre março de 2008 e março de 2009 podem ser acessados aqui

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Daniel Cariello

Daniel Cariello é colaborador de Outras Palavras e, antes, do Diplô Brasil, desde 2008. Já lançou dois livros de crônicas, Chéri à Paris (2013) e Cidade dos Sonhos (2015), ambos best sellers na Amazon. Foi cronista de Veja Brasília e Meia Um. Este texto faz parte de seu novo projeto, Cartas da Guanabara, com crônicas cariocas. É editor do selo literário Longe.

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