Chéri à Paris: Macacos me mordam!

Nem a bifa em Sarkozi, nem Straus-Khan libertado. Meu “top of mind” da semana é Digit, gorila que vive com casal

Vejam vocês que essa foi uma semana agitada na França. Anteontem, foram libertados os dois jornalistas da France Télévision que pagaram uma big etapa de 18 meses de cativeiro no Afeganistão. Ontem, Sarkozy levou uma semi bifa de um cidadão mutcho putcho da vida, na saída de uma reunião. Sexta, a justiça (ha ha!) americana decidiu liberar o Dominique Strauss-Khan, sob condição que ele “se comporte como um bom menino e, por favor, pare de se meter onde não é chamado”.

Todas essas notícias são bombásticas, mas não foi nenhuma delas a que mais me chamou a atenção no período. O posto de top of mind da semana vai para a seguinte manchete: “Digit, uma gorila que vive com um casal”. Não, o senhor e a senhora não estão ficando malucos. É exatamente isso: dois franceses decidiram adotar um macaco. Peraí, que eu explico melhor.

Pierre e Elianne Thivillon são administradores de um zoológico na cidade de Saint-Martin-La-Plaine. Acontece que eles já não são mais jovens e por uma dessas razões da vida acabaram não tendo filhos. E aí, um belo dia desses, sem nada melhor pra fazer, decidiram levar o símio para casa. Pronto, simples assim.

Engana-se, porém, quem ache que Digit abandonou o trabalho. Não! Ela continua passando os dias no zoológico, entretendo os visitantes e fazendo as macaquices que esperam dela. E só à noite é que ruma para o novo lar doce lar, pra assistir a uma televisãozinha, bater um rango, dar um relax, que ninguém é de ferro. Mais tarde, quando chega a leseira, vai para os braços de Morfeu. Na cama do casal que a adotou, claro.

TEXTO-MEIO

Essa história é tão surreal que a tomada dessa decisão só pode ter sido no mesmo tom:

– Benhê.
– Hã…
– Ô, benhê.
– Diga, mozinho.
– Tava aqui, conversando com os meus botões.
– Fala.
– Tive uma idéia, mas não sei se você vai achar boa.
– Pode falar, mozinho.
– Sabiuquié?
– Sei não.
– Fiquei pensando, já que a gente não tem filhos…
– Já sei, você está a fim de fazer uma grande viagem.
– Né isso não.
– Quer mais um cachorrinho?
– Quero não.
– E o que é, então?
– É que… Tava pensando em trazer a Digit pra morar com a gente.
– Aquele macaco?
– Fala assim não, ela pode ficar chateada. Digit é um gorila, e gorila também é gente.
– Peraí, Elianne. Você está querendo me dizer que quer trazer pra casa um macaco…
– É gorila!
– Que seja. Um gorila, que passa o dia inteiro no zoológico, macaqueando pra lá e pra cá, se esfregando em outros símios, comendo aquele lixo que os turistas jogam pra ele, um animal com tanta força que é capaz de esmagar nossas cabeças com apenas uma mão, que vai acabar fazendo caguito no meio da nossa sala e sujar tudo por aqui, sem contar que se um dia ela pira pode destruir a casa inteira em menos de um minuto. É esse bicho que você quer trazer pra morar com a gente?
– É.
– Bon, d’accord. Agora eu digo uma coisa: o controle remoto da TV continua comigo, e isso não se discute.


Daniel Cariello, editor da revista Brazuca, é colaborador regular daBiblioteca Diplô/Outras Palavras. Escreve a coluna Chéri à Paris, uma crônica semanal que vê a cidade com olhar brasileiro. Os textos publicados entre março de 2008 e março de 2009 podem ser acessados aqui.

TEXTO-FIM

Sobre o mesmo tema:

The following two tabs change content below.

Daniel Cariello

Daniel Cariello é colaborador de Outras Palavras e, antes, do Diplô Brasil, desde 2008. Já lançou dois livros de crônicas, Chéri à Paris (2013) e Cidade dos Sonhos (2015), ambos best sellers na Amazon. Foi cronista de Veja Brasília e Meia Um. Este texto faz parte de seu novo projeto, Cartas da Guanabara, com crônicas cariocas. É editor do selo literário Longe.

Latest posts by Daniel Cariello (see all)

Tags: ,