Chéri à Paris: Louise, crítica musical

“Pintinho Amarelinho” é preferida das preferidas. Mas na parte do “tem muito medo do gavião”, ela sempre esconde o rosto

Por Daniel Cariello, em Chéri à Paris

Talvez ainda seja um pouquinho precipitado pra dizer que ela vai seguir a carreira de crítica, mas a Louise, do alto dos seus 18 meses, já deixa claras suas preferências, tanto em músicas que coloco pra tocar quanto em vídeos que assistimos no YouTube. Tem canções que ela adora. Já outras…

. Pintinho Amarelinho – É o hit do momento. A preferida das preferidas, que ela pede em média 43 vezes por dia, fazendo o gesto de bater o indicador de uma mão na palma da outra, em referência ao “pintinho amarelinho” que “cabe aqui na minha mão”. Na parte do “mas tem muito medo do gavião”, ela esconde o rosto. Sucesso absoluto na Radio Louise.

. Les crocodilles – Conta as aventuras de um crocodilo que foi para a guerra às margens do Nilo e, encontrando o elefante inimigo, deu no pira. Quando quer ver essa, ela começa a falar “cro cro cro cro” sem parar. Das duas uma: ou passamos o vídeo, ou colocamos tampões nos nossos ouvidos. Geralmente a Louise vence.

. Marcha soldado – Outra que ela adora. Já aprendeu a bater continência e também aprendeu que isso só deve ser feito de brincadeirinha, afinal ela é de uma família de esquerda. Uma famosa versão na internet troca o trecho “a polícia deu sinal” por “São Francisco deu o sinal”. Nessa hora ela faz careta, pois, assim como o pai, não entendeu e não gostou da profanação da versão original, oras.

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. Sereia – Não curtiu. E eu entendo o porquê. Medo da Fafá de Belém na concha

. La famille tortue – A letra, em francês, fala que “nunca se viu nem nunca se verá a família tartaruga correr atrás dos ratos. O papai, a mamãe e as crianças tartaruga só vão na maciota”.  Bem condizente com o papai real. La famille tortue já ocupou o posto de número 1, mas agora anda meio esquecida.

. Atirei o pau no gato – Sucesso garantido, em todas as suas variações (apesar de eu não curtir o final moralista e politicamente correto de algumas). Mas, bom, a crítica é ela, que faz questão de dizer o “miau” do final.

. A canoa virou – Polêmica. Ela adora a primeira versão que descobrimos na internet. Ao tentar mostrar uma outra, fui recebido com a mais longa sequência de “non non non non non non” da história.

. Kashmir – Bem, essa ainda não é sua preferida. Pra dizer a verdade, ela nem conhece. Mas meu objetivo é fazê-la chegar ao Led Zeppelin antes do seu segundo aniversário. Afinal, se a Louise quiser seguir a carreira de crítica, é bom passar logo pras coisas sérias. Papel de pai é orientar.

Daniel Cariello, editor da revista Brazuca, é colaborador regular daBiblioteca Diplô/Outras Palavras. Escreve a coluna Chéri à Paris, uma crônica semanal que vê a cidade com olhar brasileiro. Os textos publicados entre março de 2008 e março de 2009 podem ser acessados aqui.

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Daniel Cariello

Daniel Cariello é colaborador de Outras Palavras e, antes, do Diplô Brasil, desde 2008. Já lançou dois livros de crônicas, Chéri à Paris (2013) e Cidade dos Sonhos (2015), ambos best sellers na Amazon. Foi cronista de Veja Brasília e Meia Um. Este texto faz parte de seu novo projeto, Cartas da Guanabara, com crônicas cariocas. É editor do selo literário Longe.

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