Chéri à Paris: Hoje vi Gérard Depardieu

Por Daniel Cariello, em Chéri à Paris

Hoje eu vi o Gérard Depardieu na rua. Ele tava fazendo um filme, que é o que se espera do Gérard Depardieu. Ninguém imagina encontrar o Gérard Depardieu na fila do pão, passeando com o cachorro ou andando de bicicleta. Se isso ocorresse, a gente logo pensaria: “Caramba, aquele sujeito é a cara do Gérard Depardieu”. Mas como ele estava posicionado exatamente em frente a uma câmera, eu não tive dúvidas de quem se tratava.

Quando eu passei pela rua onde cruzei o Gérard Depardieu, muita gente havia parado para vê-lo, algo absolutamente compreensível, pois fiz o mesmo. Do lado dele havia um carinha de barba que eu conhecia de algum lugar mas agora sou incapaz de dizer de onde. De qualquer maneira, ele vai ficar pra sempre na minha memória como “o carinha de barba que estava ao lado do Gérard Depardieu na rue d’Aligre”, mesmo que um dia ele raspe a barba.

Depois dessa vicissitude de encontrar o Gérard Depardieu e ele não ter nem olhado pra mim, fiquei pensando que deveria escrever uma crônica a respeito. Afinal, não é sempre que a gente esbarra com o Gérard Depardieu, mesmo morando em Paris. Eu já vi por aqui a Laetitia Casta andando ao lado de dois carinhas, o Romain Duris descendo da motocicleta e o sujeito que faz a série sensação Bref atravessando a rua no sinal. Já vi até o Paul McCartney e o Roger Waters, mas pra isso tive que comprar ingresso, então não vale.

TEXTO-MEIO

Gastei bons minutos imaginando que diabos eu poderia dizer nessa crônica, além do fato óbvio de ter estado no mesmo espaço-tempo que o Gérard Depardieu. Não cheguei a nenhuma conclusão e comentei o fato inesperado com uma amiga. Ela disse que um dia ele já fora bonito e hoje era muito feio, com o que prontamente concordei. E ainda acrescentou que se ele continuasse engordando desse jeito muito em breve nem para o papel de Obelix serviria mais.

Logo depois fui à feira comprar legumes e comentei com o vendedor que havia visto o Gérard Depardieu fazendo um filme. Ele me perguntou quem era esse sujeito. Aí eu me dei conta de que não havia importância nenhuma o fato de eu ter encontrado com o Gérard Depardieu, estivesse ele em frente a uma câmera ou não. Encerrei o papo, peguei duas abobrinhas e fui pra casa cozinhá-las.

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Daniel Cariello, editor da revista Brazuca, é colaborador regular do Outras Palavras. Escreve a coluna Chéri à Paris, uma crônica semanal que vê a cidade com olhar brasileiro. Os textos publicados entre março de 2008 e março de 2009 podem ser acessados aqui

TEXTO-FIM
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Daniel Cariello

Daniel Cariello é colaborador de Outras Palavras e, antes, do Diplô Brasil, desde 2008. Já lançou dois livros de crônicas, Chéri à Paris (2013) e Cidade dos Sonhos (2015), ambos best sellers na Amazon. Foi cronista de Veja Brasília e Meia Um. Este texto faz parte de seu novo projeto, Cartas da Guanabara, com crônicas cariocas. É editor do selo literário Longe.

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