Chéri à Paris: Creche em greve

“Quer ver o que estou escrevendo? Ainda não tem uma linha terminada. E se você ficar apertando as teclas, aí é que não sai nada, mesmo”

(Chéri à Paris, por Daniel Cariello)

– Louise, hoje você vai passar o dia inteiro comigo, a creche tá de greve. Já planejei tudo: depois do café, a gente brinca um pouquinho e você tira seu cochilo da manhã, enquanto eu tomo banho e escrevo a crônica do dia. Aí você acorda, come, a gente brinca e você engata mais uma soneca. Nesse tempo eu termino o que tenho que fazer e então a gente vai passear. Tá bom assim?
– Papa.
– Ótimo. Estamos combinados.

– Chegou a hora de ir pra cama.
– Unhéééé!
– Só um pouquinho, preciso trabalhar.
– Unhéééé!
– Bom, vou te deixar no seu cantinho enquanto eu escrevo a crônica de hoje.
– Unhéééé!
– Tá legal, tá legal. Vamos brincar, daqui a pouco eu acabo esse texto.

– Louise, a gente brincou à beça, agora você me deixa fazer meu trabalho, é importante.
– Pi pi.
– Você quer ir à varanda ver os piu pius?
– Pi pi.
– Ok, a gente vai dar bom dia pros passarinhos. “Oi, piu piu, a Loulou veio ver você. Vem cá, piu piu”.
– Cá, pi pi.

– Finalmente, acho que agora consigo começar a escrever.
– Unhééé!
– Mas o que foi, Louise?
– Unhééé!
– Quer brincar com seus cubos?
– Unhééé!
– Quer que eu leia um livro pra você?
– Unhééé!
– Quer que te pegue no colo?
– Unhééé!
– Ah, é mesmo, tá na hora de comer. Segura as pontas aí que vou preparar seu almoço.
– Papa!

TEXTO-MEIO

– Senta ali um pouquinho pra fazer a digestão enquanto eu cuido das minhas tarefas.
– …
– Mas o que você está fazendo, Louise, tentando me escalar?
– …
– Quer ver o que estou escrevendo? Mas ainda não tem uma linha finalizada. E se você ficar apertando as teclas ao mesmo tempo que eu aí é que não vai ter nada mesmo.
– …
– Tá batendo palminha… Aposto que quer ver um vídeo. Atirei o pau no gato?
– Papa!
– Vamos cantar juntos: aaaaatirei o pau no ga-to-to…

– Legal, agora, berço. Isso, fecha os olhos… Peraí, que cheiro é esse? Vixe, tem que trocar sua fralda. Depois você volta a dormir, tá? Pronto, limpeza feita! E agora de volta pros braços de Morfeu.
– Unhéééé!
– Diacho.

– Loulou, vamos combinar uma coisa? Você fica sozinha um pouco e eu prometo que tento fazer minha crônica o mais rápido possível. Depois a gente sai pra passear.
– Papa!
– Muito bem, filhinha. Você é compreensiva.

Plaft!

– Unhéééééééééééééééééééé.
– Ai, meu Deus, caiu. Calma, Loulou, não é nada, foi só um susto. Nem machucou.
– Unhééé!
– Vem cá, vou te fazer um carinho. Depois eu volto pro meu texto.

– Papa!
– Louise, assim eu não vou conseguir nunca mais trabalhar.
– Papa!
– Eu sei que você quer brincar, mas nesse momento eu não posso.
– Papa! Papa! Papa!
– Ah, você não quer o papai, você quer papar. Mas já tá na hora do lanche?
– Papa?

– Agora você descansa um pouquinho, Loulou, porque senão essa crônica não sai.
– Pé!
– O que tem seu pé?
– Pé!
– Por que você tá tentando colocar o sapato? Quer ir passear?
– Pé!
– É mesmo, hoje a gente não colocou o nariz fora de casa. Vamos lá.

– Quer saber, tá impossível escrever qualquer coisa, a solução vai ser fazer hora extra de madrugada. Vou aproveitar para brincar com a minha filha. Louise! Louise, vem cá!
– …
– Ah, dormiu.


Daniel Cariello, editor da revista Brazuca, é colaborador regular daBiblioteca Diplô/Outras Palavras. Escreve a coluna Chéri à Paris, uma crônica semanal que vê a cidade com olhar brasileiro. Os textos publicados entre março de 2008 e março de 2009 podem ser acessados aqui.

TEXTO-FIM
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Daniel Cariello

Daniel Cariello é colaborador de Outras Palavras e, antes, do Diplô Brasil, desde 2008. Já lançou dois livros de crônicas, Chéri à Paris (2013) e Cidade dos Sonhos (2015), ambos best sellers na Amazon. Foi cronista de Veja Brasília e Meia Um. Este texto faz parte de seu novo projeto, Cartas da Guanabara, com crônicas cariocas. É editor do selo literário Longe.

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