Chéri à Paris: Como sobreviver em uma estação de esqui

(Chéri à Paris, por Daniel Cariello)

Férias em uma estação de esqui é exatamente como em uma estação balneária: cidade lotada, engarrafamentos por todos os lados, filas quilométricas no supermercado, restaurantes entupidos. As pequenas diferenças são quase imperceptíveis, como a necessidade de usar meias ou os 40 graus que separam os dois ambientes. Em um lugar desses, um francês se sente completamente à vontade. Mas e um brasileiro?

Pensando nos tupiniquins que pretendem se aventurar no mundo da neve e não têm a menor idéia de como agir, preparei esse pequeno guia com algumas dicas.

Deixe a sunga no Brasil
Ela não será muito útil. Exceção feita aos strippers que vão participar do concurso Garçons à poil dans la neige. Nesse caso, é bom também trazer uma echarpe, que pode ter usos variados, dependendo de onde é maior o frio.

Não saia de casa calçando os esquis
A não ser que você queira sair por aí andando como o Pato Donald, o que pode ser bem incômodo na fila do pão.

Na verdade, não calce esquis nunca
Você sabe esquiar? Sabe? Duvido. Sabe nada. Confessa. Vai usar esqui pra quê, então? É calçar e cair, ficar de pé e cair, levantar de novo e cair de novo. Aconteceu comigo. Melhor ficar no bar da estação tomando vin chaud, um quentão metido a besta que a gente bebe fazendo biquinho.

TEXTO-MEIO

Se não tem jeito, dê nova utilidade para seus esquis
Tá bom, você já alugou todo o material pra esquiar. Na empolgação, pagou adiantado uma semana e agora não sabe o que fazer com ele. Vai aqui uma sugestão. Enfie a ponta de um esqui na neve, o suficiente para que não caia. Conte sete passos e enfie o outro. Agora você tem dois esquis paralelos, separados de cerca de três metros. Faça um boneco de neve e o vista com a sua roupa de esquiador, sem esquecer das luvas. Coloque-o entre os dois esquis. Pronto, você tem uma trave e um goleiro. Agora chame seu amigo brasileiro e faça uma disputa de pênaltis com bolas de neve.

Não circule com a capota do carro abaixada
É um barato passear na praia com aquele conversível último modelo, de capota abaixada, com o braço pra fora da janela e escutando música no volume máximo, né?, todo mundo olha pra você. Agora experimenta fazer o mesmo em uma estação de esqui, no maior frio. Todo mundo vai te olhar também, mas pra tentar entender como conseguiram enfiar uma cabeça de boneco de neve em um corpo humano.

Não dê cambalhota em uma pista de neve
Ao menos que a sua intenção seja inventar a avalanche pessoal.

Aprenda algumas frases importantes
Porque a gente nunca sabe quando vai precisar ir além do “bonjour” e do “merci”.

. Excusez-moi de vous déranger monsieur, mais j’ai l’impression que votre bâton est rentré dans mon œil gauche (Desculpe incomodar, senhor, mas tenho a impressão de que o seu bastão de esqui entrou no meu olho esquerdo)

. Et si on profitait de toute cette glace pour faire une p’tite caîpi? (Com todo esse gelo, e se a gente mandasse ver uma caipirinha?)

. Docteur, combien d’os peut-on se casser en une seule chute? Aïe… (Doutor, quantos ossos a gente pode quebrar em uma só queda? Ai…)

. Montez le chauffage, putain, montez-le! (Aumentem o aquecimento, porra, aumentem!)

Daniel Cariello, editor da revista Brazuca, é colaborador regular daBiblioteca Diplô /Outras Palavras. Escreve a coluna Chéri à Paris, uma crônica semanal que vê a cidade com olhar brasileiro. Os textos publicados entre março de 2008 e março de 2009 podem ser acessados aqui.

TEXTO-FIM
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Daniel Cariello

Daniel Cariello é colaborador de Outras Palavras e, antes, do Diplô Brasil, desde 2008. Já lançou dois livros de crônicas, Chéri à Paris (2013) e Cidade dos Sonhos (2015), ambos best sellers na Amazon. Foi cronista de Veja Brasília e Meia Um. Este texto faz parte de seu novo projeto, Cartas da Guanabara, com crônicas cariocas. É editor do selo literário Longe.

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