Chéri à Paris: Brasiliá à Paris

(Chéri à Paris, por Daniel Cariello)

Projetada por Oscar Niemeyer, a sede do Partido Comunista Francês é um pedaço de Brasília no meio de Paris. No dia em que inventarem o teletransporte, o viajante que porventura desembarcar ali vai olhar muito desconfiado em volta e pedir reembolso do bilhete, alegando que chegou ao país errado.

– Ué, desci em Brasiliá?
– Non, monsieur, Paris.
– Tá tirando onda comigo, rapaz?

Embora já tivesse passado diversas vezes em frente à incrível construção modernista, ontem finalmente tive a chance de conhecê-lo por dentro, aproveitando que por ali havia um vernissage de uma exposição de quadros justamente sobre a capital brasileira. Assim matei a curiosidade e a fome de uma vez só. E pude apreciar o belo projeto niemeyriano bicando salgadinhos frios e refrigerantes quentes financiados pela bolsa artista dos camaradas franceses, que estão precisando liberar uma nova verba para um microondas e um frigobar. De preferência made in China.

Em frente à recepção havia um sujeito descabelado e com cara de artista incompreendido. Cheguei pra falar com ele e me identificar como provavelmente o único brasiliense presente.

– É você o pintor?
– Pas du tout. Ele está ali. – E me mostrou um engomadinho com cara de recepcionista.

TEXTO-MEIO

Deixei o engomadinho no seu canto e engatei um papo com o descabelado, que me contou ser o responsável pelas visitas guiadas no prédio e me perguntou se eu era mesmo de Brasília.

– Sou sim.
– Nascido lá?
– Oui.
– Nascido e criado?
– E batizado também.
– Batizado? Valha-me São Marx.

Curioso de ver um specimen exoticus, o cidadão me cobria de perguntas.

– Como é Brasília?
– Parece com isso aqui.
– E as pessoas?
– Parecem com as que estão aqui também, duas pernas, dois braços e uma só cabeça.
– E o Lúcio Costa?
– Esse também tem duas pernas, dois braços e uma só cabeça.
– É verdade que ele é meio francês?
– É, nasceu em Toulon, sul da França.
– Por quê?
– Talvez porque seus pais estivessem por lá na época. Ou ao menos a sua mãe.
– Isso faz um certo sentido.

Com a conversa engatada, o simpático descabelado me levou para conhecer uma sala de reuniões, na qual figurava uma enorme planta de Niemeyer, e ainda liberou o acesso à famosa cúpula, tão bonita quanto a do Congresso Nacional brasileiro. Logo me interpelou novamente.

– E o Niemeyer, você conhece?
– Conheci criança, meu pai trabalhou com ele.
– Seu pai trabalhou com o maior arquiteto do mundo?
– Ele não é tão grande assim, metro e sessenta, no máximo.
– Hã?
– Nada, eu falei isso quando era criança. Na época causou mais impacto.

E fui embora dali consciente da sorte de ser de Brasília, uma obra de arte a céu aberto. A cidade mais dessemelhante que conheço. Lugar amado por uns e odiado por outros, mas ao qual ninguém fica indiferente.


Daniel Cariello, editor da revista Brazuca, é colaborador regular daBiblioteca Diplô/Outras Palavras. Escreve a coluna Chéri à Paris, uma crônica semanal que vê a cidade com olhar brasileiro. Os textos publicados entre março de 2008 e março de 2009 podem ser acessados aqui.

TEXTO-FIM
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Daniel Cariello

Daniel Cariello é colaborador de Outras Palavras e, antes, do Diplô Brasil, desde 2008. Já lançou dois livros de crônicas, Chéri à Paris (2013) e Cidade dos Sonhos (2015), ambos best sellers na Amazon. Foi cronista de Veja Brasília e Meia Um. Este texto faz parte de seu novo projeto, Cartas da Guanabara, com crônicas cariocas. É editor do selo literário Longe.

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