Chéri à Paris: Alencar Sete Cordas

Homenagem a um violonista intuitivo e genial, que acompanhou grandes músicos brasileiros do século 20 e desenvolvia método harmônico desconcertante

Por Daniel Cariello, de Chéri à Paris

Ontem recebi duas tristes notícias, duas pessoas que se foram. Uma, o pai de uma amada amiga, que sucumbiu a um câncer que já o atormentava há algum tempo. A outra, um dos mais geniais músicos que já conheci, Alencar Sete Cordas.

Professor de violão do meu pai, do meu irmão (de quem também foi parceiro) e meu (apenas por duas aulas, uma das quais conto aqui embaixo), o mestre Alencar tocou com gênios como Raphael Rabello, Nelson Cavaquinho e Cartola, e tinha um conhecimento musical de tamanho comparável apenas ao da sua simpatia.

Como homenagem à sua arte e ao seu inesquecível sete cordas, republico essa semana no Chéri à Paris um texto que escrevi para o site Overmundo, há 6 anos.




Eu não sou chorão. Sou músico! 

“Meu pai sempre fala que a vida da gente é como couro de cobra. Muda o tempo todo”, diz o cearense José de Alencar Soares, ao explicar a sua trajetória, revelando uma sabedoria passada entre gerações em sua terra natal, Abílio Martins, no município de Ipu, Ceará.

TEXTO-MEIO

José de Alencar Soares é mais conhecido como Alencar Sete Cordas, um apelido que mistura seu nome de batismo e o instrumento que escolheu para tocar, o violão de sete cordas. E a sabedoria prática, como no caso da cobra, foi o que o levou à música, já que no sertão não havia métodos e professores.

Ainda criança começou a se interessar pela música. “Eu escutava Nelson Gonçalves e conseguia perceber perfeitamente o violão. Entendia a complexidade daquilo e ficava tentando reproduzir”. E em 1967, aos 16 anos, foi tocar guitarra em uma banda de baile, Os Cometas. No repertório, MPB, serestas, bossa-nova, músicas estrangeiras e, claro, muita Jovem Guarda. Estranho para quem veio se destacar no choro?

“Eu não sou chorão. Sou músico”, esclarece. “Adoro Jovem Guarda. Ainda sei tocar tudo daquela época. Esses dias estava reescutando os discos de Roberto Carlos e percebi mais uma vez a riqueza harmônica daquelas músicas”, revela.

A música tornou-se um trabalho, mas o pai de Alencar não enxergava ali um bom futuro para o filho. E, em 1971, mandou-o embora de casa. Podia escolher: São Paulo, Rio ou Brasília. Veio parar na capital, ao contrário de um conterrâneo famoso, que foi para a Cidade Maravilhosa.

“Naquela época, as pessoas saíam de Ipu para trabalhar em outras cidades. Hoje em dia, saem para serem bandidos. O Bem-Te-Vi (ex-chefe do tráfico na Rocinha, morto por policiais) era de lá.” Bizarro.

Seus primeiros anos em Brasília não foram muito produtivos musicalmente. Dedicou-se mais ao trabalho de funcionário público. E só arranhava o violão eventualmente, quando conseguia um emprestado. Tanto que sua volta definitiva ao instrumento só ocorreu em 1977, quando acompanhou um amigo em uma roda de samba feita por funcionários do Senado. Nada mais normal, caso ela não estivesse acontecendo durante o horário de expediente.

Esse amigo era Veloso, bandolinista que tocou com uma lenda do instrumento, Jacob do Bandolim. E a partir dessa e de outras rodas formou-se o embrião do Clube do Choro, fundado poucos meses depois na casa da flautista Odete Ernest Dias.

Desde então não parou mais. Já reconhecido como grande instrumentista, acompanhou nomes como Sílvio Caldas, Moreira da Silva, Paulo Vanzolini, Nelson Cavaquinho, Turíbio Santos e Cartola, de quem tem boas recordações. “Uma vez, depois de um show, ficamos bebendo até as 4 da manhã. Os músicos na cerveja e o Cartola no Conhaque Presidente, que ele adorava.”

Foi só depois que começou os estudos formais de música. “Tudo o que eu tocava era de ouvido e de intuição. Não sabia nada de teoria. Para mim, uma semicolcheia era um espermatozóide”.

E parece que ele aprendeu bem. Tão bem que virou professor. E há anos aperfeiçoa seus estudos e métodos de harmonias, já conhecidos e utilizados em outras cidades, como Rio e São Paulo.

Chegou até a dar umas dicas para Raphael Rabello. Perguntei se ele tinha sido professor do grande violonista. “Nunca. Ele só teve dois professores. Eu troquei umas informações com ele. Mas nós éramos grandes amigos”.

Os olhos de Alencar brilham ao falar sobre os métodos harmônicos que vem desenvolvendo. Parece entrar em um mundo próprio, uma espécie de Matrix musical. Esquece que está no meio de uma entrevista e passa uns 30 minutos explicando as possíveis modulações de cada tom. Fico olhando para o aluno dele, que está ao meu lado e gentilmente cedeu sua aula para que continuássemos o papo. E, como se fôssemos puxados para o universo alencariano, tudo aquilo que ele falava também passou a ser muito claro para nós dois.

Além desses estudos, nos últimos anos Alencar retomou suas atividades no renascido Clube do Choro, agora sob o comando de Reco do Bandolim. E chegou a fundar a Escola de Choro Raphael Rabello. Mas agora anda meio afastado de lá. “Por quê?”, pergunto. Ele me olha sorrindo e responde: “Porque a vida da gente é como couro de cobra. Vive mudando”.

Daniel Cariello, editor da revista Brazuca, é colaborador regular daBiblioteca Diplô/Outras Palavras. Escreve a coluna Chéri à Paris, uma crônica semanal que vê a cidade com olhar brasileiro. Os textos publicados entre março de 2008 e março de 2009 podem ser acessados aqui.

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Daniel Cariello

Daniel Cariello é colaborador de Outras Palavras e, antes, do Diplô Brasil, desde 2008. Já lançou dois livros de crônicas, Chéri à Paris (2013) e Cidade dos Sonhos (2015), ambos best sellers na Amazon. Foi cronista de Veja Brasília e Meia Um. Este texto faz parte de seu novo projeto, Cartas da Guanabara, com crônicas cariocas. É editor do selo literário Longe.

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