Chéri à Paris: A história de Mamicô

Por Daniel Cariello, de Chéri à Paris

A Mamicô é uma contraparente do tio de um primo de 15º grau. E tão fraca quanto nossos laços familiais é a sua memória. Porém, se suas lembranças já falham, o bom humor e a vontade de conversar parecem não terem sofrido a corrosão causada pelo tempo.

Na última semana, fomos visitá-la na sua enorme casa na Normandia. Com seu eterno sorriso, ela contava diariamente um pouco dos seus quase 90 anos de história. Ou de estória.

1º dia

“Sabe, o Bernard comprou essa casa há muitos anos, antes mesmo do nosso casamento. Era um antigo monastério. Os monges que habitavam aqui oravam, meditavam e nas horas vagas produziam um excelente vinho. Depois que chegamos, começamos a fazer grandes festas, que duravam três, quatro dias, toda a cidade era convidada. Você pode contar, são exatamente 16 quartos, dá pra receber muita gente. Nós adorávamos passear pelo bosque. No verão, colhíamos cerejas, amoras e framboesas frescas e ele sempre aparecia com uma rosa para mim. No inverno, dávamos uma voltinha rápida, só para pegar um pouco de ar, pois o frio é rude. Às vezes passávamos na única discoteca da região e dançávamos até o dia clarear. O Bernard já se foi, que Deus o tenha, mas a casa continua aberta a todos os nossos netos e bisnetos, como ele sempre quis. Você, com esse seu sotaque, deve ser o filho da Brigitte, né? Sim, sim, agora estou lembrando. Qual é mesmo o seu nome?”

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2º dia

“O Bernard comprou essa casa há muitos anos, parece que de um monge, que precisava de dinheiro para a bebida. Lembro que fazíamos festas memoráveis e depois íamos todos orar e meditar no bosque. Nosso casamento foi aqui. Convidamos toda a cidade, mas ninguém conhecia o endereço e ainda por cima era inverno, então só vieram nossos netos e bisnetos. Mesmo assim foi uma lindeza só. O Bernard colheu rosas e encheu de pétalas todos os 25 quartos. Você estava, né? Você e aquela sua namorada, a Brigitte, que usava um lindo vestido cor de cereja, perfeito para o calor que fazia no dia. Eu a adoro, a Brigitte. Não sei se te falei e talvez você nem acredite, mas essa casa já foi uma discoteca.”

3º dia

“Quando o Bernard chegou aqui, tudo isso era um enorme bosque, cheio de monges pendurados nas árvores. Ele tentou montar uma discoteca, mas as pessoas bebiam demais. Então ele colocou nossos netos e bisnetos para produzirem vinho para toda a cidade. Eu me lembro de uma manhã de inverno, quando você chegou com a sua filha Brigitte. Ela tinha uma rosa no cabelo e comia framboesas como uma louca. Instalamos vocês na suíte número 33. Lembro claramente, porque 33 é a idade de Cristo. No dia seguinte o Bernard meditou e me pediu em casamento.”

4º dia

“Bernard, isso é hora de chegar? Aposto que estava bebendo vinho com a Brigitte naquela discoteca, enquanto eu fico aqui, meditando. Não gosto dessa moça, ela é muito assanhada. Agora raspa essa barba e vamos. Os monges estão esperando. Estamos atrasados para o nosso casamento no bosque. Pega um casaco, hoje tá fazendo frio.”

Daniel Cariello, editor da revista Brazuca, é colaborador regular daBiblioteca Diplô/Outras Palavras. Escreve a coluna Chéri à Paris, uma crônica semanal que vê a cidade com olhar brasileiro. Os textos publicados entre março de 2008 e março de 2009 podem ser acessados aqui.

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Daniel Cariello

Daniel Cariello é colaborador de Outras Palavras e, antes, do Diplô Brasil, desde 2008. Já lançou dois livros de crônicas, Chéri à Paris (2013) e Cidade dos Sonhos (2015), ambos best sellers na Amazon. Foi cronista de Veja Brasília e Meia Um. Este texto faz parte de seu novo projeto, Cartas da Guanabara, com crônicas cariocas. É editor do selo literário Longe.

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