Chéri à Paris: a festa de Louise

Não fique triste se você foi excluído: a lista é muito mais restrita que a de um casamento real no mesmo fim-de-semana

 

Por Daniel Cariello

No dia 1º de maio a Louise faz um ano. Dia desses a Charlotte e eu estávamos conversando com ela em uma língua só nossa e fechamos a relação dos convidados para a festa, que ocorrerá em Marseille. Não fique triste se você foi excluído, pois a lista é muito mais restrita do que a de um tal casamento real que ocorre no mesmo fim de semana.

TEXTO-MEIO

São eles os agraciados:

. Edouard, le canard – Edouard (na imagem, em traje de gala para a festa) é o pato de pelúcia da Louise, com o qual ela dorme abraçada todos os dias e que vai sempre à creche com ela. Por isso podemos considerá-lo como seu companheiro. Condição privilegiada, é verdade, mas que ele é obrigado a compartilhar com um rival.

. Doudou – Também de pelúcia, Doudou parece um espantalho vestido de vermelho e verde. Dorme do outro lado do berço, um pouco afastado do Edouard, que tem o triplo do seu tamanho e um bico ameaçador. Ao contrário do pato, Doudou não sai do berço nunca (talvez com medo de perder a vaga), mas já concordou em abrir uma exceção para comparecer à festança.

. Sebastião e seus companheiros azulados – No mundo maravilhoso da Louise há diversos animais azuis. O chefe da trupe é o macaco Sebastião, com seu rabo multicolorido. E ele está sempre na companhia da foca Fábia, da baleia inflável Jussara, do carneiro Jacques e do Zélefante. Este, coitado, foi fabricado em duas partes e vive perdendo a cabeça pelos cantos da casa.

. Sophie, la girafe – A girafa de borracha Sophie tem a grande qualidade de se deixar morder, pisar, entortar, esmagar, babar e esticar sem nada dizer. Até porque girafa não fala mesmo. Tão muda quanto suas milhões de irmãs espalhadas pela França, a Sophie da Louise confirmou presença balançando o pescoço depois de levar uma sacodida finalizada por uma big esborrachada contra a parede.

. A gangue dos coelhos – Da última vez que contei eram três, mas parece que dois novos já chegaram pra aumentar a turma. Tem até um azul, que recusou um convite para se juntar à trupe de Sebastião: “prefiro ficar entre os meus”, disse. Para bem receber o grupo, a aniversariante já encomendou um estoque extra de cenouras de pelúcia.

. Alfredo – Apesar da grafia brasileira, a pronúncia é afrancesada: Alfrredô. Errar no sotaque é considerado uma gafe imperdoável. Os que deslizarem estarão sujeitos à ira da aniversariante, riscando levar uma babada.

. Os irmãos úmidos – A vaca Vilma, o suíno Sílvio e o pelicano Paulo são presenças constantes no banho da Louise, que insiste em afogá-los. Longe de irritá-los, o caldo diário parece agradar os irmãos, que prometeram chegar limpos e penteados para a comemoração

E há também algumas ausências, que serão igualmente sentidas:

. Psycho Emily – A variante psicodélica da boneca Emília, com seu sorriso mezzo Mona Lisa, mezzo Janis Joplin, já disse que não irá ao convescote. Prefere ficar em Paris, esticadona no tapete, olhando para o teto, curtindo uma vibe só dela.

. Olive – O pato Olive chegou à casa depois do Edouard, por isso nos assuntos patéticos ele nunca tem a palavra final. Pra descolar um convite, Olive tentou se disfarçar de marreco, mas foi involuntariamente desmascarado pela própria Louise, que tentou comer seu chapéu marrom e branco. Quando descobriu a tentativa de farsa, Edouard decretou: “Olive não vai! Quém quém manda aqui sou eu.”

Por fim, é importante ressaltar que a Louise também autorizou a presença de alguns poucos adultos, na medida do possível e do espaço disponível, depois que todos os convidados de honra já tiverem sido instalados ao seu lado na mesa.

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Daniel Cariello

Daniel Cariello é colaborador de Outras Palavras e, antes, do Diplô Brasil, desde 2008. Já lançou dois livros de crônicas, Chéri à Paris (2013) e Cidade dos Sonhos (2015), ambos best sellers na Amazon. Foi cronista de Veja Brasília e Meia Um. Este texto faz parte de seu novo projeto, Cartas da Guanabara, com crônicas cariocas. É editor do selo literário Longe.

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