Cenas de uma Londres conflagrada

Dois brasileiros narram semana em que cidade foi tomada primeiro pela revolta das gangs pobres; depois, pelo conservadorismo dos amedrontados

Por Fabiane Borges e Hilan Bensusan, do blog Esquizotrans

Paulo Wayne nos mandou umas perguntas  sobre os riots aqui em Londres. Respondemos relatando o que temos visto e ouvido, sem pretensão de um tratado. Aqui vai:

Quem são esses caras? Estrangeiros? Qual a reação das pessoas a este movimento? Por que colocam fogo em algumas residências? Que tipo de residências são? Reivindicam alguma coisa? Quem os organiza e articula? São bairros operários? Que desconforto cria isso tudo na terra da rainha?

Quem são esses caras? Estrangeiros?

TEXTO-MEIO

São na maioria adolescentes, filhos de imigrantes, negros, africanos e alguns brancos. São tidos como gangs, mas isso é uma forma de incriminá-los. Colocaram fogo em muitos carros e arrombaram lojas, pegaram televisões, e equipamentos eletrônicos. Eles dizem: nós não temos dinheiro. A polícia já prendeu mais de 1000. O jornal anuncia vários tipos curiosos que foram incriminados (filha de milionário, crianças de 12 anos, professores secundários, etc).

São sublevados. Em estado de fúria contra os esquemas de empobrecimento e humilhação: uma crise econômica que deixa todo mundo desempregado, um governo que quer acabar com todos os mecanismos de bem estar social, em meio à celebração da homogeneidade dos valores de classe média: sucesso profissional, dinheiro e comodidade para uma família funcional (ainda que com espaço para formações familiares menos típicas). A reação da imprensa tem sido  demonizar as pessoas que não tem aspiração – a palavra-chave: aspiração — a se tornarem vencedores. A imagem que o governo parece impor é a de que os pobres merecem ser pobres porque são criminosos mesmo – e os mecanismo de bem-estar social estão apenas alimentando os delinquentes.Ou seja, são indignados contra tudo isso, não do tipo que acampa na praça, mas do tipo que faz a ação direta.

Qual a reação das pessoas a este movimento?

A crítica mais radical a eles, por parte dos ativistas, é que usam violência para adquirir coisas. Outros dizem que não são contra o consumismo e são devotos do capitalismo. Essa crítica é uma bobagem. Eles dizem: fazemos isso porque não temos dinheiro. E as pessoas criticam isso por não ser razão suficiente para saque. Mas isso é a melhor razão possível: para eles, não tem dinheiro!

Os saqueadores insuflados foram os únicos que enfrentaram com violência o controle excessivo da polícia britânica. As pessoas morrem de medo, têm insônia, pensam que as gangs de negros vão destruir suas casas e suas vidas. Olham a BBC e tremem no escuro. Não saem as ruas pela noite, e ficam vidradas na TV e na net. Têm medo que os negros tomem o poder, pensam que são todos mulçulmanos, terroristas, confundem fatos historicos, revolucoes geopoliticas. Há um medo geral de que os imigrantes se revoltem – isso é parte do imaginário branco. Há uma ressonância de Breivic (o norueguês que saiu matando jovens em um acampamento no mês passado) e as instituições de proteção à cultura e aos hábitos ingleses (como a EDL, English Defense League), instituições que crescem.

Por que colocam fogo em algumas residências? Que tipo de residências são?

São residências de desconhecidos. Que não são seus protegidos. São prédios, lugares possíveis, que têm alguma entrada. Estão mais preocupados em criar um estado de resisistência, com fogo, do que procurar o lugar simbólico por excelência. Fazem o que podem. “Nós queremos mostrar aos ricos que nos fazemos o que queremos” – diz uma riot girrrrrrl;

Reivindicam alguma coisa? Quem os organiza e articula? São bairros operários?

São bairros operários e de imigrantes. A coisa mais controversa é que acabam assaltando ou quebrando lojas de outros imigrantes, negros contra turcos, por exemplo, e os turcos se organizam para defender suas lojas (como aconteceu em Dalston, aqui no Hackney). De fato não conseguem em geral quebrar lojas de grande porte, ja que a seguranca é muito maior, assim como a vigilância e todo aparato financeiro. Sua performance é feita com o que é possível, e o possível, muitas vezes, são as lojas de outros imigrantes que moram na vizinhança. Em alguns casos, entretanto, houve ataque a lojas grandes, em Birmingham e Croydon, por exemplo. Estas lojas arderam. Eles fazem o que podem, em Londres houve saques em Oxford Circus e em Notting Hill – lugares elegantes, assim como a filiais do Tesco,  uma cadeia de supermercados.

A reivindicacao é o “estado revolucionário”, a crítica aos cortes que sofreram na saúde e na educação,  o entusiasmo com outras lutas políticas do mundo, como na Tunísia, na Grécia, no Egito etc. Nervo solto, não têm a paciência dos ativistas profissionais, e não querem fazer reuniões incessantes, nem para acampamento em praças – muito frio este verão, é preciso fogo para aquecer.

Mas estão sendo pegos como ratos. E como bodes expiatórios. Basta ter sido capturado pelas câmeras de vigilância, ou serem vistos observando as ações,  que já são incriminados, uma forma de manter as pessoas em casa, medo de serem acusados e condenados culpados.

A articulação é espontânea, não existe projeto (aparentemente), nem líder politico, são  gangs revoltadas. Elas se organizam em regime de rede por meio de celular e bluetooth. A liderança é difusa – há uma presença importante de meninas.

Que desconforto cria isso tudo na terra da rainha?

O governo fica muito temeroso de eclodir uma revolta violenta em grande escala. Tentam criar um consenso pela lei e pela ordem – um consenso à direita. A repressão está sendo e vai ser violenta. A polícia está se militarizando – com permissão a usar balas de plástico e canhões de água, armas nunca usadas na Grã-Bretanha antes (só na Irlanda do Norte). O governo utiliza-se das manifestações para endurecer e – assustadoramente – pode estar ganhando popularidade com isso.

Mas o espírito issurreto, que não aceita conversa mole, ficou patente no país todo. A revolta disparou rapidamente. Entre a lei e a ordem tão cultuadas pelo governo, e a tomada das ruas e dos poderes há pouco mais que um triz. As massas: se houvesse três vezes mais pessoas na rua, seria impossível apresentar tudo como “nada mais do que uma onda de crimes em proporções gigantescas”.

Os novos passos agora, que estão em todos jornais são trancar chamadas de celular em locais de enfrentamento, não permitir a passagem de informação pelo twitter e facebook, que conforme relato oficial da polícia e do governo, são onde os rioters se organizam.

Sobre a manifestações de solidariedade:

Estivemos ontem em uma marcha de Hackney a Tottenham, bairro de muitos negros onde começaram os distúrbios no inicio de agosto, após a polícia ter matado um motorista de taxi. O tom da marcha era de descriminalizar e politizar os saques. Um dos slogans: culpem os Tories (o partido conservador no poder) e não os nossos filhos. A ideia era culpar o governo, os cortes, o cinturão de proteção aos banqueiros, o racismo da polícia. A marcha não causa transtorno, a policia a acompanhou de perto, passo a passo. A eficácia como protesto de uma marcha assim é limitada, já que ela não ataca a estrutura de tomada de decisões e é facilmente apropriada pelo bipartidarismo compulsório no pais.

Temos a impressão, dado o triunfo do governo nesses dias que se seguem aos distúrbios e a decepção de muitas ativistas, de que o governo e a ordem terminaram fazendo ponto. O governo conseguiu reunir apoio para suas medidas de segurança e ordem e de estender este apoio aos cortes nos benefícios – ja que o pobrerio é todo delinquente mesmo… Mas as consequências das suas politicas ainda serão sentidas em muitas partes do pais e mais tumultos, eles sabem, virão.

TEXTO-FIM
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Fabiane M. Borges

Fabiane M. Borges é psicóloga ensaísta e artista, desenvolve pesquisa sobre arte urbana, performance, movimentos sociais, esquizoanálise, saúde mental. Dedicou sua tese de doutorado a assuntos relativos à cultura espacial, satélites, foguetes, comunicação e programas de apropriação orbital (open source) a partir do ponto de vista de pequenas e médias empresas e hacklabs (faça você mesmo e cultura maker). Faz atendimento terapêutico e tem uma empresa de consultoria com Adriana Veloso (Cosmos Consultoria). Publicou os livros: Domínios do Demasiado (Ed. Hucitec. SP. 2010), Breviário de Pornografia Esquizotrans (Ed. Ex.Libris), Ideias Perigozas (Ed. Des. centro. 2010), Peixe Morto (Org. Ed. Imotirô. 2011). Mantém o site: http://catahistorias.wordpress.com

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