Cartas da Guanabara: O Parque Guinle

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“Repare, aqui parece Brasília”. “Parece mesmo”… “Prédios de 6 andares, pilotis, parque de criança, jardim, modernista. E foi construído antes: fim dos anos 40”. “Bora tomar uma cerveja”?

Por Daniel Cariello


Durante anos, o escritor e publicitário Daniel Cariello enriqueceu “Outras Palavras” (e, antes, a edição brasileira do “Le Monde Diplomatique”) com suas crônicas semanais, denominadas Chéri à Paris“. Emigrado à França, como centenas de milhares de brasileiros, durante as “décadas perdidas”, não perdeu a oportunidade de enxergar o país estrangeiro com ironia terna. Voltou ao Brasil nos tempos de recuperação da auto-estima nacional. Viveu em Brasília e no Rio. É um prazer tê-lo de novo no site, agora com as “Cartas da Guanabara“. Esperamos que aqui permaneça, apesar dos tempos ásperos. Precisamos de sua irreverência esperançosa. (A.M.)

– O parque Guinle foi projetado
Pierre, rentre!
– Pelo Lúcio Costa.
– Aquele de Brasília?
– Isso, o urbanista. E os jardins pelo Burle
On mange!
– Marx.
– Aquele de Brasília?
– O paisagista, o próprio. Repare, aqui parece a capital.
– Parece mesmo…
– Prédios de 6 andares, pilotis, parque de criança, jardim, modernista.
Allez, monte! Le déjeuner est prêt!
– Como uma superquadra.
– Exato! Mas foi construído antes, fim dos anos 40.
– É bonito.
– E sabe onde o Lúcio Costa nasceu?
– Onde?
– Em Toulon, na França.
Mais je crois pas!
– E daí?
– Você não reparou no tanto de gente falando francês aqui?
– É mesmo. Acabei de ver três garotinhas brincando na língua de Voltaire. Mas, me diga uma coisa: você é de Brasília, né?
Oui, c’est toi! Vite!
– Sou.
– E viveu em Paris?
– Vivi.
– Por esse motivo que veio morar na porta do parque Guinle?
– Não tinha pensado nisso…
– Encontrou um cantinho que é o Rio, é Paris e é Brasília. Tudo junto.
– É possível que você tenha razão.
Mais c’est pas possible, Pierre!
– Olha, não sei você, mas estou morrendo de calor. Bora continuar esse papo tomando uma cerveja.
– Pode ser vinho branco?
– Vinho? Que tal uma caipirinha? Soube que faz sucesso na França.
– Caipirinha é bom.
C’est bon, maman. Je monte!
– Então, desce duas.

TEXTO-FIM
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Daniel Cariello

Daniel Cariello é colaborador de Outras Palavras e, antes, do Diplô Brasil, desde 2008. Já lançou dois livros de crônicas, Chéri à Paris (2013) e Cidade dos Sonhos (2015), ambos best sellers na Amazon. Foi cronista de Veja Brasília e Meia Um. Este texto faz parte de seu novo projeto, Cartas da Guanabara, com crônicas cariocas. É editor do selo literário Longe.

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