Caesar, ou como construir um império

Caesar (2) - Foto LEE KYUNG  KIM

Baseada em peça de Shakespeare, montagem no Rio transita entre a poesia e o ódio, entre os laços afetivos e a maldade deliberada

Por Wagner Correa de Araujo


MAIS:
Caesar – Como construir um império
No Rio de Janeiro, apenas até 6 de março. Sexta, às 20h30, sábado, às 18h, domingo, às 20h30h
Espaço Sesc Arena – Copacabana
Rua Domingos Ferreira, 160 [
mapa] – Fone: (21) 2547.0156

A Tragédia de Julio Caesar, no original de Shakespeare, vem inspirando não só o teatro, mas a música (a ópera de Haendel) e o cinema, desde a clássica adaptação de Mankiewicz (1953) a uma incisiva visão contemporânea dos Irmãos Taviani (2012), César Deve Morrer.

Caesar – Como Construir um Império, a transposição dramatúrgica de Roberto Alvim, condensa em uma hora e em dois atores (Caco Ciocler e Carmo Dalla Vechia) os personagens/chaves (Caesar, Brutus, Cassius, Marco Antonio) da peça inicial da trilogia romana shakespeariana.

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Esta concentração narrativa aumenta o foco sobre o dimensionamento do processo político revelado, exponencialmente, através do discurso verbal. Com todos os meandros, posturas e argumentações que marcam a permanência e a alternância governamental.

Num espetáculo marcado pela proposital aridez, entre a poesia e o ódio, entre os laços afetivos e a maldade deliberada. Mais pelo interesse político próprio que pelo bem coletivo, numa perceptível atemporalidade temática.

Quando a peça foi escrita (1599) pretendia conscientizar o público sobre a ameaça de uma temerária guerra civil, no instável final da era elisabetana. Fácil, assim, estender a sua pesada e mal resolvida sensação de culpa e de crise de liderança às atuais circunstâncias brasileiras.

Os códigos de cena retomam uma linha estética, com inventivas variações, que Roberto Alvim privilegia em seus espetáculos, desde o seu último Beckett a este seu primeiro Shakespeare.

Caesar - Foto LEE KYUNG  KIM

Luzes de néon entre muitas sombras delineando perfis, de plasticidade geométrica, das performances. Refletidos na solene uniformidade de figurinos negros (João Pimenta) e na emblemática arquitetura cênica em formato de arena.

Através, ainda, da simbologia de impérios e tiranias, em seu exercício do domínio, nos seus elementos cênicos – moeda, sangue e morte.

E, especialmente, na singularidade expressiva do score musical de Vladimir Safatle, numa leitura pianística ao vivo (Mariana Carvalho). Integrando vozes, acordes e dissonâncias, no lastro de Schoenberg (Pierrot Lunaire), John Cage, Philip Glass e John Adams, numa quase ópera minimalista.

A irrepreensível interpretação dos atores revela rara desenvoltura, nos seus inesperados meios tons e contrastantes nuances. Ora entre sussurros e tomadas de fúria (Carmo Dalla Vechia), ora na eloquência de altissonante vocalização (Caco Ciocler), em filigranada gestualidade e hierático cerimonial.

Um teatro, enfim, de dimensão épica, no seu transcendente teor reflexivo sobre o maquiavélico jogo político de poder e submissão, além do tempo, entre governantes e governados, Estados e almas humanas.

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Wagner Correa de Araújo

Jornalista especializado em cultura, roteirista, diretor de televisão, crítico de artes cênicas. Dirigiu os documentários "O Grande Circo Místico" e "Balé Teatro Guaíra 30 Anos" . Participou como critico e jurado de festivais de dança e cinema, no Brasil e na Europa.