As téles (quem diria) precisam de uma nova comunicação

Para padrões internacionais, receita com serviços extra-telefonia ainda é muito baixa no Brasil

Um dos fatos mais notáveis da I Conferência Nacional de Comunicação (Confecom, na foto) foi a completa divisão do setor empresarial. As principais emissoras de TV boicotaram o processo, aferradas a seu oligopólio. Mas um setor corporativo ainda mais poderoso — o das empresas de telefonia — preferiu participar. Apesar das tensões inevitáveis, este setor manteve diálogo permanente com os movimentos sociais. Sua presença esvaziou o boicote comandado pela TV Globo.

Dados publicados nesta segunda-feira (22/2), pelo Valor Econômico, ajudam a entender por que as téles estão interessadas em alguma mudança nas leis que regem as comunicações brasileiras. O número de usuários de telefonia celular continua crescendo, inclusive nas faixas consideradas “nobres”. Há 4,5 milhões de aparelhos 3G em funcionamento — e este número deverá chegar a 10 milhões, ao final do ano. Mas seu uso continua concentrado na telefonia. Apenas 12% da receita das operadoras de celular vem de outros serviços. Nos EUA, o percentual chega a 25%; e mesmo no México, a 21%.

Os principais serviços extra-telefonia oferecidos são audiovisuais e jogos. A BBC acaba de anunciar, por exemplo, que fará a transmissão, para celular, de todos os jogos da Copa do Mundo 2010. Vendidos num sistema semelhantes ao pay-per-view, estes serviços são, em todo o mundo, a esperança das empresas de telecomunicações. O avanço da internet, e a concorrência cada vez mais acirrada entre as operadoras, está derrubando as tarifas da telefonia, inclusive celular. Situações como a do Brasil — onde o preço é o segundo mais alto do mundo e a qualidade, sofrível (se tanto…) — não perdurarão por muito tempo.

Para oferecer audiovisuais a seus clientes, contudo, as téles precisam alterar de alguma forma a legislação brasileira, que estabelece o oligopólio das emissoras de rádio e TV. Esta necessidade abre uma fissura importantíssima no setor empresarial. Saber aproveitá-la foi muito importante na Confecom. Novas vitórias poderão surgir, nos próximos meses, se a mesma tática for adotada.

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