As eleições que podem mudar o rumo da França

A seis semanas da disputa presidencial, um Partido Socialista razoavelmente renovado tem grandes chances de vencer. Mas não se despreze Sarkozy…

Por Marilza de Mello Foucher, correspondente em Paris

O presidente francês, Nicolas Sarkozy, buscou neste domingo iniciar uma reviravolta eleitoral a seu estilo. Depois de fretar onze TGVs (o trem-bala francês) e 700 ônibus, encarregados de recolher militantes pela França, conseguiu reunir 50 mil pessoas, num comício em Villepinte, subúrbio de Paris. Ali anunciou seus planos para a eventual reeleição. A tarefa será bem mais dura: a seis semanas do pleito (22/4) para a Presidência, o atual chefe de Estado está vários pontos percentuais abaixo de François Hollande (Partido Socialista), nas sondagens de intenção de voto. Ainda assim, não se deve subestimar sua capacidade como estrategista e suas vastas relações com a mídia. Muito menos, seu esforço para liderar um vasto arco conservador, numa eleição que pode se transformar em disputa entre os valores de direita e os de esquerda.

Num cenário em que tem cerca de quinze pontos percentuais a menos que Hollande, nas sondagens relativas a um provável segundo turno, Sarkozy reforçou a tentativa de acariciar o eleitorado de extrema direita. Afirmou que deseja rever os dispositivos do Tratado de Schengen que permitem livre circulação de pessoas no interior da União Europeia. É uma afronta aos países do Sul do continente, mas um afago em Marine Le Pen, candidata do Front Nacional, abertamente xenófoba, e que tem cerca de 15% das preferências do eleitorado.

Seu governo associou todos os problemas de delinquência e violência aos estrangeiros. Dificultou como nunca o acesso deles ao solo francês restringindo a própria vinda de estudantes de outras nacionalidades. Fez discursos polêmicos como o de Dakar, onde afirmou que os africanos ainda não entraram para história. Suas medidas contra os roms (ciganos da Romênia e Bulgária) provocaram a expulsão de mil pessoas, por motivos de limpeza étnica. Tal postura foi condenada pelo Comitê das Nações Unidas para a Eliminação da Discriminação Racial, preocupada com a existência de 12 milhões de ciganos na Europa e com o fato de esta população também ter sofrido perseguições durante o nazismo.

Em coro com as atuais estratégias de Sakoziy, o ministro Claude Guéant, ex- secretario-geral da Presidência e o mais fiel dos amigos do Presidente, afirmou que as civilizações não têm o mesmo valor. O etnocentrismo, tão combatido por Levis Strauss, é reabilitado pelo ministro, para quem a cultura ocidental é superior a outras.

Em entrevista concedida ao jornal Le Figaro, dois dias antes de anunciar sua candidatura, o chefe do governo definiu o tom de sua campanha, e, de sua estratégia de comunicação focalizando o debate político sobre os valores tradicionais da direita: “Travail, responsabilité, autorité”. Em entrevista, reivindicou também da herança da civilização cristã. Assopra sobre o fogo, ao abordar temas sensíveis que dividirão a sociedade francesa.

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O presidente, que governou de modo autoritário, impondo suas reformas contra os sindicatos, contra o povo que desceu as ruas para protestar contra a reforma do sistema de aposentadorias, agora ele promete convocar o povo para decidir como simplificar o processo de expulsão dos estrangeiros, sobre a indenização dos desempregados, sobre o casamento homossexual, sobre a decisão de ajustamentos estruturais para manter o rigor econômico. Segundo o próprio Figaro, toda semana, Sarkozy apresentará uma “grande” ideia! O importante é tentar subir nas pesquisas de opinião.

Apesar de considerando derrotado pelos institutos de pesquisa, devido os resultados negativos de sua administração, Sarkozy é um adversário temível. Enquanto advogado, cultivou boa retórica. É uma pretensa metamorfose permanente: nunca um homem político foi capaz de repetir, a cada ano, que mudou! O pior que ele consegue convencer os despolitizados, que hoje crescem como cogumelos…

Além disso, Nicolas Sarkozy tem sob seu controle todos os poderes, principalmente os meios mediáticos. Sabe como intimidar os jornalistas, arrogando a relação de amizade que mantém com todos os donos dos canais de televisão, rádio e jornais. Conseguiu, desde que se declarou candidato, centralizar as atenções sobre o tema de sua campanha: Meus valores para a França.

Diante da artilharia “sarkozysta”, que tenta provocar o candidato socialista o levando para o terreno da confrontação sobre os valores, François Hollande até o momento apresenta uma imagem de candidato tranquilo, coerente, homem de diálogo e não da confrontação. Insiste sobre os pontos negativos da gestão Sarkozy e propõe suas soluções. Critica um modo de governar que só favoreceu as camadas mais privilegiadas da sociedade francesa. Diz que Sarkozy é o homem da crise, e ele será o da saída.

Diante de mais de 25 mil pessoas, Hollande lançou sua candidatura com um discurso em que abordou a necessidade urgente do resgate do espírito republicano, reafirmou a defesa da soberania do Estado face ao mercado e à globalização. Assumiu o compromisso de resgate dos símbolos republicanos: liberdade, fraternidade e igualdade. Apresentou-se como o candidato de mudanças, para reconstruir a França. Prometeu dirigir o país com o espírito de reconciliação.

Hollande espera oferecer aos franceses confiança — uma palavra que, segundo ele, não pode ser decretada. A França que Sarkozy dividiu, Hollande espera reconciliar. Ele exalta os valores da esquerda e vai insistir com certa força de peso na palavra igualdade, que repete em varias ocasiões. “L’égalité, l’égalité toujours, l’égalité ce sont les mêmes droits pour tous” [« A igualdade, a igualdade sempre, a igualdade são os mesmos direitos para todos »].

Este tom de campanha do candidato socialista surpreendeu todas as tendências da esquerda francesa. Quando dirigiu o PS, Hollande era criticado por afastar o partido das camadas populares. Mas os socialistas viveram uma certa reviravolta com a candidatura presidencial de Ségolène Royal, em 2007. Mesmo sem contar com o apoio total da direção, ela re-dinamizou o PS, ao introduzir certos elementos de democracia participativa.

Segolène era a companheira de François Hollande: o rompimento da relação deu-se durante sua campanha, num segredo só revelado depois das eleições. Apesar de muitos do partido não a apreciarem, existe um antes e um depois de Ségolène no PS. Ela levou o partido a optar por eleições “primárias”, favoreceu um debate amplo e a confrontação das ideias, no seio de uma agremiação que necessitava caminhar para a esquerda. Nas primárias deste ano, Hollande saiu vencedor e sintetizou os principais eixos de reivindicação de seis candidatos. Hoje, aparece como a esperança da renovação política no modo novo de governar. É algo a conferir, caso seja eleito presidente.

À esquerda de Hollande, há cinco candidatos, todos desprezados pela mídia francesa, que procura instiuir no país um bipartidarismo castrador. A Frente de Esquerda [Front de gauche] reúne o Partido Comunista, dissidentes do PS e algumas correntes trotskistas. Seu candidato, Jean-Luc Mélénchon, navega entre 7% a 10% das intenções de voto. Nathalie Arthaud, trotskista da Lutte Ouvrière (Luta operaria), tem entre 1% à 3% de opinião favorável. Outro partido trotskista que não consegue decolar é a antiga Liga Comunista Revolucionária (LCR), hoje chamada NPA-Novo Partido Anticapitalista. Seu candidato, Philippe Poutou não tem o mesmo carisma do jovem Olivier Besancenot que conseguiu cerca de 5% na eleição Presidencial de 2002 e 2007. O Partido Verde, que sempre foi um grande aliado do PS, não consegue ultrapassar 3% de preferência.

Note-se que o acervo de votos à esquerda é, por enquanto, minoritário, se se leva em consideração Marine Le Pen, de ultra-direita, o candidato do centro, François Bayrou (que hoje se situa entre 11,5% e 15% das preferências) e Dominique de Villepin (ministro de Relações Exteriores e primeiro-ministro de Jacques Chirac), de centro-esquerda, com algo entre 1% a 2,5%.

Na hipótese que estes candidatos subam devido a rejeição de Sarkozy, o risco para a esquerda é grande. Os candidatos de esquerda permanecem praticamente estáveis. Dificilmente podemos diagnosticar quem passará no segundo turno. Não se deve esquecer que a França dita “profunda” é mais ancorada na direita que na esquerda. O centro é historicamente, um aliado de direita – embora esteja hoje dividido, por certa rejeição ao “sarkozismo”. Hollande poderá, provavelmente, contar com votos centristas e também de Villepin. Nesse caso, tem fortes chances de ser o próximo presidente da República, o que seria uma mudança política de repercussão internacional. Todavia, o cenário permanece nebuloso e o povo é sempre uma potência incontrolável.

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Marilza de Mello Foucher