Ao mestre com carinho

Por José Geraldo Couto, editor do  Blog do Zé Geraldo

Poucos indivíduos foram tão importantes para a cultura brasileira quanto Thomaz Farkas, que morreu nesta sexta-feira, 25 de março, aos 86 anos.

Fotógrafo, cineasta, professor, entre outras coisas esse brasileiro nascido em Budapeste criou nos anos 60 a célebre “caravana Farkas”, que desbravou e mapeou a sociedade brasileira em documentários realizados por gente como Geraldo Sarno, Maurice Capovilla, Paulo Gil Soares e Sergio Muniz, além do próprio Farkas.

Para além de seu pioneirismo e de sua maestria técnica, o que mais chamava a atenção de quem se aproximava dele era o seu intenso calor humano, seu entusiasmo pela vida, sua curiosidade infinita pelas coisas do mundo. Ninguém saía inalterado do contato com esse homem.

Tive o privilégio de ser seu aluno no curso de jornalismo da ECA-USP, na disciplina fotojornalismo. Sua aula consistia em levar os alunos numa Kombi a algum lugar da cidade e entregar uma câmera a cada um, dizendo-lhes que fotografassem algum tema em particular. Claro que ele dava algumas orientações gerais, mas deixava a cargo de cada aluno a escolha de seu objeto e o modo de se enfrentar com ele.

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Lembro-me, por exemplo, de uma manhã em que fomos ao largo de Pinheiros. O tema era “profissões”, e então nos espalhamos pelo largo e seus arredores, fotografando jornaleiros, vendedores, policiais, barbeiros, ambulantes, manicures, todos eles no exercício de seu ofício.

Uma das poucas dicas de Farkas foi a seguinte: para que o fotografado não posasse para a foto, perdendo a naturalidade, devíamos aprontar a câmera (abertura, velocidade, foco etc.) apontando-a para outro objeto, que estivesse na mesma distância e mais ou menos com a mesma luz do fotografado. Só depois de tudo pronto apontaríamos a câmera para nosso personagem, pegando-o de surpresa.

Guardo até hoje algumas das fotos que fiz naquela longínqua manhã.

Depois disso, no exercício da minha profissão, encontrei um punhado de vezes com Thomaz Farkas. Sempre o chamei de “professor”, não apenas por hábito, mas porque era isso mesmo o que ele era: um professor de fotografia e cinema, mas principalmente um professor de elegância, gentileza, afeto fraterno. Dói um bocado saber que não vou mais encontrá-lo por aí, com seu bigodão e seu sorriso jovial.

Farkas registrou de tudo em seus filmes e fotos, mas dois universos em especial lhe eram muito caros: a música popular (tem um belíssimo curta sobre Hermeto Paschoal, por exemplo) e o futebol.

Para celebrar a passagem tão bonita e fecunda do mestre por nossas vidas, aqui vai o curta de Ricardo Dias em que Farkas apresenta o filme que fez da apresentação de Pixinguinha e seu grupo na inauguração do Parque do Ibirapuera, em 1954. São imagens de um valor inestimável. Não são para ver de joelhos, como se costuma dizer, mas para ver dançando.

José Geradl Couto é crítico de cinema e tradutor, foi durante anos colunista na Folha, escreve suas criticas hoje em seu próprio blog e na revista Carta Capital.

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José Geraldo Couto

*José Gerado Couto é crítico de cinema e tradutor. Publica suas criticas no blog do IMS. Para ler as edições anteriores da coluna, clique aqui.