A águia pousará no México?

Por  Laura Carlsen / FPIF | Tradução Cauê Seigne Ameni | Foto Reuters

A secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, afirmou em 10 de setembroque algo equivalente ao “Plano Colômbia” tornou-se necessário no México e América Central, para enfrentar a “insurgência” dos cartéis da droga. Seus comentário despertou imediatamente a ira do governo mexicano e provocou temores de uma intervenção militar norte-americana.

“Estamos enfrentando uma ameaça crescente, a partir de uma rede de tráfico de drogas organizada, que em alguns casos transforma-se, ou age em conjunto com o que poderíamos considerar uma insurgencia, no México e na América Central, disse Clinton. Acrescentou que “esses cartéis estão mostrando sinais mais fortes de insurgência. De repente, aparecem carros-bomba que não existiam antes.”

Ironicamente, a secretária respondia a uma pergunta sobre o que os Estados Unidos estavam fazendo a respeito de sua “responsabilidade em relação ao trânsito das drogas para o norte e das armas para o sul”. Ao invés de responder à pergunta, ela comparou o México à Colômbia e fez a declaração mais ousada até agora sobre a intervenção dos EUA (incluindo apoio militar) na guerra contra as drogas no México..

“Está parecendo cada vez mais com a Colômbia vinte anos atrás”, disse Clinton. “E a Colômbia – chegou ao ponto em que mais de um terço do pais, aproximadamente 40% do país esteve, em algum momento, controlada pelos insurgentes, pelas FARC. Será preciso uma combinação de melhor capacidade institucional e melhor aplicação da lei, além de, quando apropriado, o apoio militar para rebater a ameaça.” A secretária assegurou que o Plano Colômbia funcionou, acrescentando “Precisamos descobrir onde estão as equivalências da América Central, México, e o Caribe”

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Resposta Méxicana

Não demorou muito para que os membros do Congresso mexicano respondessem com indignação. Na sessão para analise do quarto discurso sobre o estado da União, do presidente Felipe Calderón, uma deputada obervou que o governo norte-americano era “bom em criticar outros países e em não reconhecer que eles mesmos são uma importante parte da cadeia cinzenta do tráfico de drogas e crimes organizado. O povo mexicano deve rejeitar qualquer atitude intervencionista por parte do governo dos EUA.” Alguns membros do Congresso pediram que o secretário de Relações Exteriores enviasse uma nota formal de protesto ao governo Obama.

A ministra Patricia Espinosa afirma que não “compartilha o julgamento” de sua homóloga do norte, e o porta-voz da Presidência, Alejandro Poire, rejeitou a comparação com a Colômbia.

Em Washington, assessores de Obama apressaram-se em reduzir os danos. O secretário do Estado Adjunto, Arturo Valenzuela, corrigiu seu patrão, dizendo que o uso “do termo insurgente não deve ser encarado da mesma forma que um insurgente colombiano. Não é uma revolta de um grupo militarizado que está tentando assumir o controle do Estado por razões políticas.” Mais tarde, O presidente Obama descartou as comparações, em entrevista concedida a La Opinion.

O comentário provocou uma pequena tempestade dentro do gabinete de Obama e nas relações diplomáticas– México – Estados Unidos

A comparação colombiana

A única coisa surpreendente sobre o conceito de Clinton é que ela o expressou em alto e bom tom. A Iniciativa Merida foi inicialmente lançada como “Plano México”, até que o apelido foi desfeito. A comparação direta com o Plano Colômbia foi considerada uma irresponsabilidade. No México, a especulação sobre presença militar norte americana revoltou o sentimento nacionalista. Nos Estados Unidos, o reduzidono tráfico de drogas e o aumento de violação dos direitos humanos, após gastos de 7,3 bilhões de dólares no Plano Colômbia acenderam preocupações com a tentativa de copiá-lo na fronteira.

Independentemente de seu nome , o plano do ex-presidente Bush para o México e América Central sempre teve relação estreita com o seu antecedente na América do sul. O Plano Colômbia começou como uma iniciativa de luta contra os narcóticos, construído em torno do modelo de combate às drogas por meio da proibição de uso, repressão e militarização, com presença direta dos EUA. O Plano México não inclui a participação do exército americano, mas apoia-se no mesmo modelo.

A confusão deliberada de Clinton entre insurgência e tráfico de drogas surge de uma das duas fontes possíveis: a ignorância ou desinformação maliciosa. Uma rebelião procura promover uma mudança profunda na estrutura da sociedade e, normalmente, assumir o governo. Os traficantes, apesar das declarações de Calderón em sentido contrário, não lançam ofensivas contra o Estado para substituir o governo. Estão ocupados protegendo e expandindo seus negócios muito lucrativos. Em parte, está neste mal-entendido, aparentemente proposital, a raiz do fracasso da política da guerra às drogas.

Se o erro não fosse cometido, a óbvia estratégia deveria ser atacar o negócio, e não seus agentes. Promover substituições, no cartel, é extremamente fácil, no México. Os cartéis são flexíveis em sua estrutura: novos líderes, ou quadrilhas rivais, substituem ou enfraquecidos. Háum estoque inesgotável de homens jovens com poucas perspectivas de vida, em um país onde o governo foi incapaz de oferecer as oportunidades adequadas de emprego ou ensino.

Enfrentar os negócios significa focar as estruturas transnacionais financeiras que os apoiam. Ambos os governos parecem relutantes em fazê-lo com força, já que os fluxos de dinheiro das drogas circulam através de poderosas instituições financeiras.

Formulação de políticas públicas para trás

Pouco antes das observações de Clinton, o congresso norte-americano aprovou recursos adicionais de 175 milhões de dólares para o combate às drogas no México, sem uma revisão global ou uma análise estratégica dos resultados terríveis apresentados até agora. Desde o lançamento da guerra contra as drogras, no final de 2006, a violência relacionada às drogas explodiu ao sul da fronteira dos EUA, com aproximadamente 30 mil mortos. As acusações de violação dos direitos humanos por parte do exército sextuplicaram no ultimo ano e nos últimos meses as forças do exército atiraram e mataram vários civis.

Os parlamentares devem empregar nossos impostos com base em uma análise cuidadosa de como os recursos serão efetivamente empregados para alcançar metas relacionadas com o bem público. Quando se trata de dotações de defesa em geral — e o Plano México é um exemplo extremo — o modus operandi é gastar agora e lidar com os resultados desastrosos mais tarde – para gastar ainda mais… Um relatório recente do Escritório Geral de Contabilidade informou que a Iniciativa Mérida nem contém referências que permitam avaliá-la.

A dotação suplementar de recursos para os estados do México, sob a rubrica “Controle internacional de narcóticos e cumprimento da lei” exige um relatório específico do Departamento de Estado, atestando cumprimento das exigências da Seção 7045. Relacionadas a direitos humanose apoiadas por alguns legisladores e grupos de Washington, elas refletem sérias preocupações de que os fundos seriam desviados para as forças de segurança notoriamente corruptas e violentasno México. Na prática, porém, o Congresso diluiu tanto as condições para que elas serviram como uma cortina de fumaça para esconder as preocupações mais profundas sobre a estratégia. O Congresso ignorou as críticas à Iniciativa Mérida feitas pela central sindical AFL-CIO e por dezenas de organizações honestas. Foram aprovadas cinco dotações separadas totalizando cerca de 1,5 bilhões. A iniciativa, antes um compromisso de três anos, transformou-se em engajamento permanente.

Em 5 de setembro, Hillary Clinton anunciou que o governo norte-americano havia retido 15% das novas verbas com base nas exigências relativas a direitos humanos. O governo mexicano reclamou publicamente e com ênfase, mas discretamente comemorou. A matemática é bastante simples: os EUA vão transferir ao governo mexicano 175 milhões de dólares extra; a retenção de US$ 26 milhões resulta num ganho liquido de US$ 149 milhões. Ambos os governos fizeram declarações hipócritas. Os Estados Unidos criticam o México ignorando o fato de que o crime transnacional não poderia funcionar sem a corrupção dentro de suas próprias fronteiras. O governo de Calderón protestou contra o barulho dos vizinho em torno dos direitos humanos, quando há pela frente uma guerra para lutar. Mesmo a imprensa observou as contradições em jogo..

Até o momento, parece que a tentativa de condicionar o apoio norte-americano ao respeito aos direitos humanos está completamente desacreditado. A interpretação mais generosa é que foi uma estratégia desenhada por grupos e membros do Congresso, que interpretaram mal a situação no México e a natureza da nova relação binlateral construída sob liderança do Pentágono e forjada ao longo do plano. Seria preciso promover uma ratificação imediata. Em vez disso, o governo Obama pretende pedir mais fundos públicos para a uma política fracassada, enquanto faz declarações hipócritas em favor dos direitos humanos.

Dúvidas Crescentes

A mais recente controvérsia sobre a política de combate ao tráfico de drogas no México vem em meio a dúvidas em ambos os lados da fronteira. Senadores mexicanos de todos os partidos, exceto o Calderón criticaram o “fracasso” do presidente na guerra contra as drogas, ao reverem o relatório anual do governo. O Partido Revolucionario Institucional observou que o documento revelou menos apreensões e um aumento não relevante no número de prisões. Apenas 1,5 milhões de pesos foram destinados à prevenção do vicio. Um membro do Partido Democratico Revolucionário denunciou a equação “mais recursos, mais mortes”. A guerra às drogas custou até agora, ao empobrecido orçamento mexicano, quase 7 bilhões de dólares.

Nos Estados Unidos, também crescem as dúvidas quanto à eficácia da estratégia. O vice-diretor do Serviço de Imigração e Alfândega, Alonzo R. Peña, queixou-se de que o governo mexicano frequentemente age sem sintonia com os serviços de informação norte-americanos. Opiniou que, em alguns casos, a razão pode ser cautela mas, em outros, a causa está “completamente relacionada a corrupção”. Em Washington, a multiplicação dos fatos negativos levou a questionamentos sobre a falta de uma estratégia de retirada, ou de um caminho claro para o sucesso.

Publicado originalmente em Foreign Policy in Focus

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