Afeganistão: os talibã comandam a narrativa

Por Gareth Porter, Asia Times | Tradução Vila Vudu

O general David Petraeus escreveu em 2006, no manual de sua autoria para a contraguerrilha, que os quartéis-generais do comando norte-americano deviam fixar “uma narrativa” para a guerra de contraguerrilha – o roteiro de uma história, necessariamente simples, que garantisse um contexto a partir do qual interpretar e entender os eventos, tanto para a população dos EUA quanto para públicos internacionais.

Essa semana, contudo, ataques dos Talibã contra vários alvos em Kabul, entre os quais a embaixada dos EUA e o quartel-general da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN),  são os mais recentes e mais espetaculares de uma série de eventos que deram à guerrilha o controle da narrativa da guerra – como a vê a população afegã.

Esses ataques e outras operações que já estiveram nas manchetes em 2010 visaram a convencer os afegãos de que os Talibã podem atacar o alvo que escolham no país, porque já infiltraram seus agentes em órgãos da polícia, do governo e também no aparelho militar afegão.

No dia seguinte aos recentes ataques, a narrativa da guerra dos Talibã alcançou novo patamar de influência, quando um nome da oposição política ao presidente Hamid Karzai, aliado próximo de destacado senhor-da-guerra pashtun, declarou publicamente que os Talibã jamais conseguiriam deflagrar conjunto de operações tão sofisticadamente coordenadas no centro da capital do país, se não tivessem recebido ajuda de dentro do aparelho de segurança do Afeganistão.

Os Talibã deflagraram três ataques de alta sofisticação em Kabul ao longo dos três últimos meses, envolvendo homens-bomba e comandos armados com lança-granadas.

No final de junho, seis suicidas-bombas atacaram o Hotel Intercontinental, ponto preferido dos ocidentais na capital, para realizarem encontros e simpósios, que deixou o prédio sem energia elétrica por várias horas.

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Em agosto, os guerrilheiros deflagraram ataque muito mais complexo contra o Conselho Britânico [ing. British Council], agência semigovernamental que organiza eventos culturais. O ataque envolveu um suicida-bomba numa intersecção na área oeste da capital Kabul, seguido de ataque ao ponto de controle policial que guarda o Conselho Britânico, e um carro-bomba que destruiu o muro que cerca o prédio e permitiu que os suicidas-bomba entrassem no complexo.

Ataques na capital eram pressupostos impossíveis depois que se instalou um “anel de ferro” em torno da cidade. Depois que os Talibã atacaram no centro de Kabul em janeiro de 2010, a polícia afegã, com consultoria e financiamento dos militares norte-americanos, instalaram um sistema de 25 postos de segurança em torno da capital, guardados por 800 policiais do batalhão do comando policial da cidade de Kabul.

Mesmo assim, os guerrilheiros conseguiram contrabandear armas, inclusive lançadores de granadas, através do cordão de segurança e mantiveram sob ataque, durante um dia inteiro, o quartel-general da Força Internacional de Assistência à Segurança [ing. International Security Assistance Force (ISAF)].

Pela primeira vez, um importante líder político em Kabul concedeu que os atacantes haviam contado com apoio de gente de dentro do aparelho de segurança do governo afegão.

Mohammed Naim Hamidzai Lalai, presidente da Comissão de Segurança Interna do parlamento e aliado político do poderoso Gul Agha Sherzai, senhor-da-guerra pashtun, declarou que “a natureza e a escala do ataque de hoje” mostrou que os Talibã receberam  “auxílio e orientação de alguns oficiais da segurança dentro do governo, seus simpatizantes” – segundo o  New York Times[1].

“Teria sido impossível que planejadores e estrategistas do ataque montassem operação tão sofisticada e complexa, nesse local extremamente bem guardado, se não contassem com a cumplicidade de gente de dentro” – disse Lalai.

No centro da estratégia dos Talibã está uma série de assassinatos de altas figuras do governo afegão, que provam a capacidade dos guerrilheiros para infiltrar agentes até nos pontos mais protegidos do país.

Em meados de abril, um suicida-bomba Talibã, usando uniforme de policial, conseguiu invadir a segurança à frente do quartel-general de polícia em Kandahar, e matou o chefe da polícia provincial.

Dia 28 de maio, outro suicida-bomba que conseguiu entrar no complexo de prédios onde está instalado o governo provincial da província de Takhar e detonou seu colete de explosivos no hall de uma sala de reuniões, matando o chefe de polícia do norte do Afeganistão, general Mohammad Daud Daud.

Em julho, o meio-irmão do presidente Karzai, Ahmed Wali Karzai, e capo político, de estilo mafioso, da província de Kandahar, foi morto por seu, há muito tempo, chefe de segurança, Sardar Mohammad. Mohammad, conhecido das Forças Especiais de Segurança e da CIA, que há anos mantinham contato estreito com Wali Karzai.

Mas Mahmoud Karzai, outro irmão do presidente, disse ao jornalista Julius Cavendish do jornal The Independent de Londres, poucos dias depois do assassinato, que Mohammad viajara a Quetta, no Paquistão, onde se encontrara com os Talibã; e que recebera vários telefonemas no meio da noite. A família Karzai concluiu que Mohammad fora recrutado pelos Talibã para assassinar Wali Karzai, segundo Mahmoud Karzai.

O elemento mais importante na construção da narrativa dos Talibã, parece ser as repetidas denúncias de ataques de soldados e policiais afegãos contra soldados de EUA e OTAN. Segundo números oficiais da OTAN, entre março de 2009 e junho de 2011, foram mortos, no mínimo, 57 soldados estrangeiros, entre os quais 32 norte-americanos, em pelo menos 19 daqueles ataques.

Relutantemente, funcionários da inteligência e militares dos EUA, tiveram de reconhecer que a maior parte, se não todos aqueles ataques, haviam sido resultado de os agentes de inteligência dos Talibã já terem recrutado quadros do aparelho de segurança afegão para atacarem soldados dos EUA e OTAN, entregues, os recrutados, evidentemente, a altos riscos.

Em junho, os EUA decidiram enviar número não sabido de agentes de contrainteligência com a missão de implantar processos mais rigorosos para identificar soldados com maior probabilidade de serem recrutados pelos Talibã.

Para aumentar ainda mais a penetração e a eficácia da narrativa dos Talibã, houve uma muito cuidadosamente planejada ação para libertar cerca de 500 prisioneiros, que estavam na ala de segurança da prisão de Sarposa em Kandahar; para essa ação, uns poucos prisioneiros cavaram, durante meses, um túnel de 300 metros de extensão. A libertação de tantos prisioneiros só foi possível porque um agente dos Talibã ou simpatizante infiltrado forneceu aos prisioneiros cópias das chaves das celas, com as quais os prisioneiros envolvidos no plano de fuga puderam abrir as celas de todos os demais que escaparam pelo túnel.

Duas semanas adiante, os Talibã praticaram outro ataque complexo a alvos chaves do governo em Kandahar, inclusive ao gabinete do governador, à agência afegã de inteligência e a central de polícia. A ofensiva em Kandahar envolveu sete explosões na cidade, seis das quais por ação de suicidas-bombas.

Os Talibã conseguiram atacar livremente em Kandahar, apesar do que o brigadeiro-general canadense Daniel Menard chamou de “anel de estabilidade” – um cordão de segurança que, supostamente, impediria que guerrilheiros Talibã entrassem na cidade.

Em fevereiro de 2010, Menard, que comandava a Força Tarefa de Kandahar em nome da ISAF, vangloriara-se de que, com um total de cerca de 6.000 soldados dos EUA e Canadá empenhados em combater as forças dos Talibã na província de Kandahar, “posso literalmente quebrar a espinha deles”.

Apesar disso, os Talibã continuaram a operar livremente na cidade. Como disse Peter Dmitrov, ex-oficial militar canadense, que trabalha hoje como consultor de segurança para organizações não governamentais no Afeganistão, falando ao jornal The Canadian Press, “O anel, de fato, nunca chegou a ser fechado, nem modelado, nem formado”.

A estratégia de guerra dos EUA baseava-se, pelo menos em parte, em convencer os afegãos de que os EUA permaneceriam indefinidamente nos EUA, e que os Talibã seriam minados e enfraquecidos. Mas, hoje, a narrativa de guerra dos Talibã, segundo a qual os Talibã conseguem penetrar até nas defesas mais bem construídas dos EUA, e não são derrotáveis, já parece muito mais crível, a afegãos de todas as orientações políticas, que a narrativa criada pelos estrategistas norte-americanos.

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Gareth Porter

Gareth Porter é historiador americano, jornalista investigativo e analista político, principalmente de política externa e militar dos EUA. Um forte oponente de guerras dos EUA no Sudeste Asiático e no Oriente Médio, ele também tem escrito sobre o potencial de compromisso diplomático para acabar ou evitar as guerras da Coréia, Vietnã, Camboja, Filipinas, Irã e Iraque. Ele é o autor de "Perigo de domínio: Desequilíbrio de poder eo caminho para a guerra no Vietnã".

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