Adeus ao economicismo

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Em novo livro, José Luís Fiori distancia-se dos que veem História como mero produto das relações econômicas e sugere: é o poder que explica o capital, não o contrário

Por Gabriel Palma | Imagem: Diego Rivera, Gloriosa Victoria (1954)

“O impulso imperialista foi sempre uma força,
uma dimensão essencial e permanente do sistema interestatal europeu.
Em suma, o sistema interestatal capitalista, criado pelos europeus,
não foi apenas o produto da expansão dos mercados ou do capital;
foi uma criação do poder expansivo de alguns estados europeus
que conquistaram e colonizaram o mundo,
durante os cinco séculos em que lutaram, entre si,
pela conquista e monopolização de posições de poder
e de acumulação de riqueza”.

J.L. Fiori, História, Estratégias e Desenvolvimento

A América Latina é uma região cuja imaginação social crítica ficou paralisada, passando de um período extremamente rico, durante as décadas de 1950 e 1960 – com as “teorias de dependência”, as análises do “capitalismo monopolista” de Baran e Sweezy, o estruturalismo francês, a escola historicista alemã de economia, a macroeconomia keynesiana e pós-keynesiana e as ideias de intelectuais próprios, como Mariátegui – para um outro período intelectualmente estéril, depois da crise da dívida de 1982 e da queda do Muro de Berlim. Embora isso tenha acontecido na maior parte do mundo, na América Latina os processos de reafirmação do capital e de declínio do pensamento crítico foram muito acentuados, enquanto o neoliberalismo – com suas sofisticadas tecnologias de poder e com suas políticas econômicas nada sofisticadas – conquistava a região, inclusive grande parte de sua intelligentsia progressista, tão completamente (e tão ferozmente) quanto a Santa Inquisição conquistou a Espanha – transformando os pensadores críticos numa espécie em extinção.

Nesse contexto, os artigos periódicos de José Luís Fiori (1), sobre geopolítica e desenvolvimento econômico, constituem uma verdadeira exceção. Neles, Fiori propõe uma discussão renovada sobre o tema e os desafios do desenvolvimento econômico a partir de uma perspectiva histórica que privilegia o poder como uma dimensão com lógica própria, a lógica determinante da trajetória do “sistema interestatal capitalista”. Aqui, “poder” não é sinônimo de Estado e, por isto, a análise do autor vai muito além do velho debate sobre a relação entre “Estado e mercado” no desenvolvimento capitalista. Na abordagem de Fiori, a questão do poder vem antes e é muito mais ampla e complexa que a do Estado. Por conseguinte, a questão da “acumulação de poder” precede, logicamente, a da “acumulação de capital” e a própria aparição histórica dos Estados. Ao mesmo tempo, Fiori defende a tese de que a formação dos “Estados-economias nacionais” é a marca e o grande motor do “milagre europeu” – onde os Estados nasceram e sempre coexistiram competitivamente, dentro de um sistema interestatal inseparável do capitalismo.

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Desse ponto de vista, segue-se que a economia capitalista está ligada de forma inextricável ao processo de acumulação de poder – e ao modo como isso aconteceu na Europa (e apenas na Europa) entre os séculos XII e XVI. Este livro usa a geopolítica (mas não exclusivamente) como chave fundamental para a compreensão do sucesso do desenvolvimento econômico em alguns países, e de sua falência em tantos outros. E considera que a política econômica deve ser considerada como uma variável endógena e dependente da macroestratégia de cada país; e por isto, seu sucesso varia de caso para caso e de tempo histórico para tempo histórico. Nesse sentido, pode-se afirmar com toda certeza (e felizmente) que este livro é um livro verdadeiramente herético com relação às visões “economicistas” tradicionais do desenvolvimento e da história.

Para fundamentar suas hipóteses, História, estratégia e desenvolvimento compara vários países de sucesso e identifica suas características comuns relacionadas com sua posição internacional e com suas configuração de poder interno. No que tange à América do Sul, o livro enfatiza a importância crítica desses mesmos fatores nos altos e baixos da Bacia do Prata, e de modo particular, no desenvolvimento da Argentina e do Brasil. O livro não tem propósito normativo, mas considera que a direção estratégica dos estados não está predeterminada, mas também não acontece por acaso, dependendo da luta permanente pelo poder dentro e fora de cada país. Como diz o próprio autor quando se refere ao Brasil, sem prescrever nenhuma solução ou política especifica, apenas  reconhecendo e chamando atenção para as consequências de que hoje o Brasil já tenha ascendido dentro do sistema internacional, sendo por isto obrigado a questionar, inevitavelmente e de “forma cada vez mais incisiva a ordem institucional estabelecida e os grandes acordos geopolíticos em que se sustenta, algo a ser feito sem o uso das armas e por meio de sua capacidade de construir alianças com quem quer que seja, desde que o Brasil mantenha seus objetivos e valores e consiga se expandir e conquistar novas posições dentro da hierarquia política e econômica internacional. Esse objetivo já não obedece mais a nenhum tipo de ideologia nacionalista, muito menos a qualquer tipo de cartilha militar; obedece a um imperativo funcional do próprio sistema interestatal capitalista: nesse sistema, “quem não sobe cai” (2).

TEXTO-MEIO


[1] Artigos que foram selecionados e reunidos no livro “Historia, estratégia e desenvolvimento. Para uma geopolítica do capitalismo”, da Editora Boitempo.

[2} Fiori, J.L. Idem, p: 278

TEXTO-FIM