A vítima grega

Crise deve-se principalmente à arrogância das autoridades europeias. Incapazes e moralistas, creem que tudo funcionará, se sociedades aceitarem sofrer mais

Por Paul Krugman | Tradução: Antonio Martins

Desde que a Grécia caiu em pecado, ouve-se falar muito dos problemas relacionados a tudo que é grego. Algumas das acusações são corretas e outras falsas – mas todas são irrelevantes. Sim: existem problemas importantes na economia grega, em sua política e, sem dúvida nenhuma, em sua sociedade. Mas estas falhas não são a causa do abismo para o qual o país está escorregando, e da crise que ameaça estender-se pela Europa.

Não, as origens do desastre encontram-se mais ao norte, em Bruxelas, Frankfurt e Berlim, onde as autoridades criaram um sistema monetário profundamente defeituoso – e talvez condenado a morrer – e depois agravaram os problemas destes sistema substituindo a análise por lições de moral. E a solução da crise, se é que existe alguma, terá de chegar dos mesmos lugares.

Vejamos os defeitos gregos. Sem dúvida nenhuma, o país tem muita corrupção e muita evasão fiscal, e o governo grego tem o costume de viver acima de suas possibilidades. Além disso, a produtividade do trabalho grega é baixa, para os níveis europeus: é inferior em uns 25% à média da União Europeia. No entanto, vale a pena assinalar que a produtividade laboral, digamos, no Mississipi, é baixa, segundo os padrões norte-americanas, e mais ou menos pela mesma margem.

Por outro lado, muitas “informações” que circulam sobre a Grécia são erradas. Os gregos não são indolentes: ao contrário, trabalham mais horas que quase todo mundo na Europa, e muitas horas mais que os alemães. A Grécia também não tem um Estado de bem-estar desenfreado, como gostam de afirmar os conservadores; o gasto social como porcentagem do PIB (a medida habitual para aferir o “tamanho do Estado de bem-estar social”) é consideravelmente mais baixo na Grécia que, digamos, na Suécia ou Alemanha – países que até agora enfrentaram a crise europeia bastante bem.

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Mas então, como a Grécia meteu-se em tantos problemas? Culpem o euro.

Há 15 anos, a Grécia não era um paraíso, mas tampouco estava em crise. O desemprego era elevado, mas não catastrófico. O país garantia-se razoavelmente nos mercados mundiais, já que ganhava o bastante (com as exportações, o turismo, os navios e outras fontes) para pagar suas importações.

Depois, a Grécia incorporou-se ao euro, e sucedeu algo terrível: as pessoas passaram a crer que era um lugar seguro para investir. Entrou dinheiro estrangeiro na Grécia – uma parte, mas não tudo, para financiar os déficits do governo. A economia acelerou-se; a inflação cresceu; o país perdeu cada vez mais competitividade. Sem dúvidas, os gregos desperdiçaram muito (se não a maior parte) do dinheiro que entrava a rodo; mas também é verdade que todos os que se enroscaram na bolha do euro fizeram o mesmo. No momento em que estourou esta bolha, as falhas essenciais de todo o sistema da moeda única tornaram-se demasiado evidentes.

Pergunte-se por que a zona do dólar – também conhecida como Estados Unidos – funciona mais ou menos, sem as graves crises regionais que afligem agora a Europa. A resposta é que temos um governo central forte, e as atividades destes governo proporcionam, para todos os efeitos, resgates automáticos aos Estados que metem em problemas.

Pense, por exemplo, no que poderia estar ocorrendo na Flórida agora mesmo, após o estouro de sua enorme bolha imobiliária, se o Estado tivesse de sacar o dinheiro da Previdência Social e assistência à Saúde de suas próprias receitas, que se reduziram bruscamente. Por sorte para a Flórida, é Washington, e não Tallahassee [a capital da Flórida] quem se encarrega da fatura, o que significa que a Flórida esta recebendo, para todos os efeitos, um resgate em escala a que nenhum país europeu poderia sonhar.

Ou pense num exemplo mais antigo, a crise das caixas de poupança, na década de 1980, que foi em grande medida um problema do Texas. Os contribuintes acabaram pagando uma enorme soma para resolver a confusão, e a imensa maioria deles fora do Texas. Também neste caso, o Estado recebeu um resgate automático, numa escala inconcebível na Europa moderna.

Por isso, a Grécia, mesmo que não isenta de culpa, encontra-se em apuros principalmente devido à arrogância das autoridades europeias (em sua maioria, procedentes de país mais ricos), que acreditaram ser possível fazer uma moeda única funcionar sem governo único. E estas mesmas autoridades pioraram a situação ao insistir, apesar das provas, que todos os problemas da moeda única eram causados pelo comportamento irresponsável destes europeus do Sul, e que tudo funcionaria se as pessoas estivessem dispostas a sofrer um pouco mais.

O que nos leva às eleições de domingo na Grécia, que acabaram não solucionando nada. Pode ser que a coalizão de governo tenha conseguido manter-se no poder mas, de qualquer maneira, os gregos não podem resolver esta crise.

As únicas fórmulas que poderiam – poderiam – salvar o euro exigiriam que os alemães e o Banco Central Europeu dessem-se conta de que são eles que precisam mudar seu comportamento, gastar mais e, sim, aceitar uma inflação mais alta. Do contrário, bem, a Grécia passará à história como a vítima do orgulho desmedido de outros países.

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Paul Krugman

Paul Krugman é um economista norte-americano, ganhador do Nobel de Economia de 2008. Autor de diversos livros, também é desde 2000 colunista do The New York Times.