A teia de afetos de Alexandre Sequeira

Luciana Cavalcanti estreia coluna sobre fotografia e apresenta artista “cuja câmera é um meio para construir intimidade, respeito amizade”

Por Luciana Cavalcanti*, colaboradora de Outras Palavras

Falar de Alexandre Sequeira emociona sempre… E é fácil e ao mesmo tempo dificílimo explicar o que se sente ao ver o trabalho dele… Pude conhecê-lo mais um pouco e saber da construção de seu universo fotográfico na IV Semana de Fotografia do Recife. Uma semana citada aqui no blog como cheia de afeto e gente de qualidade profissional e pessoal.

Sequeira, para quem não o conhece, é nascido em Belém. E como mesmo se apresenta em seu blog, é formado em arquitetura pela Universidade Federal do Pará-UFPA em 1984. Professor do Instituto de Ciências da Arte da mesma universidade, Especialista em Semiótica e Artes Visuais e Mestre em Arte e Tecnologia pela Universidade Federal de Minas Gerais-UFGM. Artista plástico e fotógrafo, desenvolve trabalhos que utilizam a fotografia como vetor de interação e troca de impressões com indivíduos ou grupos. Ele já expôs seu trabalho no Brasil, no Canadá, na Bélgica e na França.

Sua ligação com as pessoas e os lugares que ele fotografa é impressionante. Porque a máquina fotográfica é só um meio para a construção de relações de respeito, identidade, amizade… E é efetivamente este meio que deslancha, dá colo e respeito aos fotografados e atribui outros valores maiores à fotografia.

TEXTO-MEIO

Descobri um vídeo com Sequeira apresentando Nazaré de Mocajuba, uma vilinha afastada de Belém do Pará, onde ele desenvolveu seu trabalho maravilhoso em que estampou os retratos das pessoas da vila em toalhas, lençóis… Mas essa foi só uma etapa do projeto realizado por ele neste lugar, lindo e com pessoas afetuosas e receptivas.

Outro exemplo de afeto e de talento é a fotógrafa, artista e professora Fernanda Magalhães. Ela também estava na Semana de Fotografia e foi ela quem postou este vídeo no Facebook. Falaremos mais dela aqui por estas vielas fotográficas… Aguardem!

Vendo o vídeo com Sequeira explicando sua trajetória em Nazaré não me canso de chorar… Não me canso de acreditar que enfim, se a fotografia não cria afetividade com as pessoas e lugares, para que ela serve exatamente? Sequeira me põe a pensar efetivamente nas questões proporcionadas pelo ato fotográfico – não discutidas só de boca para fora e para ficar na moda, só para inglês e fotógrafos verem – e me lembra o geógrafo chinês, naturalizado americano, Yi-Fu Tuan. Ele tem discutido desde o seu livro Topofilia: um estudo da percepção, atitudes e valores do meio ambiente” e em outros livros e artigos da geografia humanística, a relação do homem com seu espaço, lugar e a construção da percepção e do que ele chama de “geográfico afetivo”. Tenho lido bastente este senhor de mais de 80 anos que trouxe uma perspectiva realmente focada nas relações das pessoas com seu ambiente e bagunçou a teoria geográfica tradicionalmente conhecida. E na geografia duas correntes preponderavam, pelo que tenho acompanhado: a cultural e a física. Ele é respeitado inclusive pelos marxistas, imersos no conceito de espaço como produto, motivo de discussões majoritariamente políticas, sistêmicas e econômicas. Difícil conhecer pesquisador unânime assim!!!

Mais um motivo para encontrar respostas fundamentadas de que nossa identificação com lugares e pessoas através da fotografia principalmente não vem à toa ou pelo menos não deveria vir, como relatou muito bem Sequeira nesta apresentação divina de sua motivação fotográfica. Sequeira, como Yi-Fu Tuan, também é unânime entre nós e entre todos. E isso, pelo que tenho observado, é fácil: é só ser ele mesmo. E isso ele é demais!!

Luciana Cavalcanti é fotojornalista e graduada em Jornalismo pela UFPE, com especialização em Direitos Humanos pela UnB. Participa, juntamente com Fernando Martinho e Stefan Schmeling, do Coletivo Paralaxis

TEXTO-FIM
The following two tabs change content below.

Luciana Cavalcanti

Jornalista e fotógrafa independente, atualmente mestranda no Instituto de Estudos Brasileiros da USP. Faz parte do Coletivo Paralaxis de Fotografia. É pesquisadora do Núcleo de Estudos Interdisciplinares em Imagem e Memória coordenado pelo prof. Boris Kossoy na USP. Foi bolsista na Colômbia e na Bolívia pela Fundación Nuevo Periodismo Iberoamericano. Participou de doze exposições coletivas na América Latina e dos livros de fotografia "O Brasil passa pelo SESC" e "1971-2011 - São Paulo". Escreve sobre fotografia para o blog pessoal http://fotograficaminhamente.wordpress.com.