A semana em que a revolução egípcia renasceu

Como os jovens da Praça Tahrir desafiaram militares, contrariaram islâmicos e venceram. Que o episódio pode sugerir aos movimentos anticapitalistas

Por Antonio Martins

I.
“Estamos vivos”

 Como são frágeis e traiçoeiras as análises que vaticinam o fracasso das revoluções, diante de seus primeiros tropeços. Em 31 de agosto, Hussein Agha e Robert Malley, dois dos mais qualificados analistas norte-americanos sobre Relações Internacionais e Oriente Médio, publicaram, no New York Review of Books, um artigo elegante e erudito, intitulado “A Contra-revolução árabe. Ao articular e interpretar um amplo conjunto de informações atuais, referências históricas e reflexões filosóficas, o texto sustentava uma hipótese: a primavera política iniciada na Tunísia no final de 2010, e que teve seu ápice em 11 de fevereiro deste ano – quando caiu o ditador do Egito, Hosni Mubarak – entrara em declínio.

Fora neutralizada principalmente por duas forças: militares e correntes islâmicas. Os jovens revolucionários do Cairo, que fizeram a história de seu país durante dezoito dias e que emitiram, da Praça Tahrir, ondas de inspiração captadas em todo o mundo, tendiam a ser marginalizados na nova ordem, que ajudaram a construir.

TEXTO-MEIO

Menos de três meses depois, a Praça Tahrir envia uma resposta. Entre 18 e 27 de novembro, ela foi palco de um conjunto extraordinário de manifestações populares. Embora iniciada com uma marcha islâmica (em 18/11), a sequência de protestos foi conduzida, a partir do dia seguinte, pelos jovens que Agha e Malley viram como derrotados. Na última terça-feira (22/11), elas derrubaram um governo.

O general Mohamed Tantawi, presidente do Conselho Supremo das Forças Armadas (CSFA) – que assumiu o poder desde a queda de Mubarak –, anunciou que aceitava a renúncia do primeiro-ministro, Essam Sharaf. Também comprometeu-se com eleições presidenciais até julho de 2012. Na sexta (25/11), o governo dos Estados Unidos, principal aliado dos militares, e que lhes oferece anualmente “assistência” de 1,3 bilhões de dólares, recomendou que o próprio CSFA transfira o poder para um governo civil. Nesta segunda (28/11), quando começou – com ampla participação e enormes filas – o longo processo eleitoral que formará o Parlamento e levará a uma nova Constituição, o ambiente político do país está transformado.

As mudanças foram conquistadas de forma heroica. As manifestações populares foram reprimidas com selvageria incomum pelas forças de segurança: balas, gases químicos ainda não-identificados, que queimam os olhos e a pele, granadas de “efeito moral”. Segundo números do ministério da Saúde, a repressão matou 41 pessoas e mais de 1.500 estão feridas gravemente – várias destas com perda dos olhos, atingidos por projéteis de borracha.

Mas a violência surtiu efeito contrário ao que esperavam os que a praticaram. A cada investida, Tahrir encheu-se de mais gente – que se defendia com pedaços de asfalto e coquetéis molotov. A partir de 22/11, a praça foi retomada. Ao final do dia, voltou a encher-se de barracas – como entre janeiro e março, quando o exército dispersou a multidão. Em seu centro, surgiu um grande cartaz: “Esta terra pertence ao povo egípcio”. Os manifestantes vaiaram longamente, em 22/11, o discurso (transmitido em cadeia de TV) em que o general Tantawi anunciou a demissão do ex-primeiro-ministro.

Rejeitam com ainda mais ênfase o novo primeiro-ministro indicado pelos militares em 24/11– Kamal El Ganzoury, um antigo auxiliar de Mubarak, de 77 anos, que ainda não conseguiu formar governo. Os jovens exigem que o CSFA entregue o poder a um “governo de salvação nacional”. Parte deles não se engajou nas eleições, que enxerga como ilegítimas, controladas pela oligarquia dos partidos e não representativas da vontade popular.

II.
Em transe, mas à esquerda

A retomada da revolução não é palavra final, capaz de estabelecer rumos de longo prazo para o Egito. No turbilhão em que vive o país desde fevereiro, há fatos novos, rearranjos de forças e reviravoltas constantes. Episódios anteriores demonstraram que, nas fases de relativa calmaria, os pontos de vista dos jovens não são majoritários. Além de culturalmente conservadora, e de manter laços fortes com a religião, a sociedade egípcia quer experimentar o jogo da democracia representativa, no qual o pensamento mais radical tende a obter resultados frágeis. Os próprios grupos que intuem a necessidade de superar as lógicas do capitalismo não têm uma alternativa de poder ou mesmo um programa claro – o que, aliás, não é uma lacuna apenas no Egito.

Mas examinar o que se passou por lá, nos últimos meses, é um exercício político fascinante e revelador. O exército assumiu o poder graças a uma trajetória histórica peculiar e a um comportamento sagaz, nas semanas em que o reinado do ditador desmoronou. Os grupos que foram decisivos para a derrubada do ditador – e que enxergam o mundo de modo muito semelhante ao de quem ocupa praças em Madri, Atenas, Santiago, Telavive ou Nova York – não souberam como materializar a ideia, ainda muito genérica, de uma democracia que vá além da representativa (ou “real”, como se diz na Espanha). Por isso, dividiram-se.

Em condições normais, o Parlamento será controlado por partidos islâmicos e liberais – e candidatos orientados por estas posições tendem a ganhar a disputa pelo Executivo. Mas surgiram contradições nítidas entre os interesses destes partidos e os dos militares. Elas puderam ser aproveitadas porque os grupos identificados com o espírito de Tahrir têm sido capazes de formular com grande clareza reivindicações imediatas que põem em xeque o poder tradicional. Nisso, eles parecem estar muito adiante de seus correspondentes no Ocidente. Como resultante de todos estes vetores, o futuro do Egito permanece em aberto e o cenário desloca-se para a esquerda. Num país em processo de se repensar, parecem crescer as perspectivas de uma democracia mais avançada e de um sistema de produção que incorpore elementos não-capitalistas.

III.
Praça Tahrir, o emblema

Muitos pensadores resistem a enxergar, na Primavera Árabe, pontos de contato com a realidade política do Ocidente. Para eles, os egípcios, tunisianos ou sírios vivem uma página já virada por aqui: a luta para superar os governos autoritários e instalar regimes liberais. Este entendimento tropeça em alguns fatos eloquentes. As grandes manifestações que eclodiram a partir de maio na Europa (Espanha e Grécia), América Latina (Chile e Colômbia), Israel e Estados Unidos têm pontos importantes de contato com os levantes árabes: presença predominante da juventude; ocupação do espaço público, como forma de luta principal; percepção que há, também aqui, poderes que se sobrepõem à democracia. Seriam meras coincidências?

O filósofo Toni Negri pensa que não. Ainda em fevereiro, após estudar atentamente as revoltas árabes, ele identificou um sujeito político novo, presente tanto no Egito e Tunísia quanto em qualquer grande metrópole da Europa, Américas ou da Ásia. Trata-se de uma “geração jovem, inteligente e bem formada”, que está envolvida nas redes planetárias de conhecimento, cultura e tecnologia; experimenta suas possibilidades libertadoras; e se revolta ao entrar em choque com a mediocridade da vida “real” contemporânea.

Negri frisou que este sujeito não era o único motor da revolução árabe – estava ao lado, por exemplo, das massas empobrecidas pela crise e dos movimentos islâmicos reprimidos durante décadas. Mas, para o filósofo, a nova geração jogaria papel essencial, por dois motivos. Seus desejos evitariam que a luta contra a ditadura se esgotasse na conquista de uma democracia parlamentar tradicional. Ao fazê-lo, dariam universalidade à primavera árabe, permitindo que suas ondas percorressem um mundo em busca de esperanças políticas.

Pouco antes, o correspondente do New York Times no Cairo, David Kirkpatrick, enxergara algo semelhante – não por meio da teoria, mas da reportagem (é provável que Negri tenha lido seu trabalho). Kirkpatrick localizou e entrevistou alguns dos jovens que lideraram o levante da Praça Tahrir. Ao descrevê-los, destacou que vinham de origens políticas distintas – da Fraternidade Muçulmana ao Partido Comunistas e às velhas agremiações liberais. Estavam na casa dos 25 aos 35 anos de idade. Sua condição social era a que Negri descreveria mais tarde: médicos, psicanalistas, engenheiros. Um deles, Wael Ghonin – na ocasião o mais proeminente, sequestrado e torturado por duas semanas pela polícia da ditadura – era um diretor do Google no Egito.

Algo, em especial, chamou a atenção de Kirkpatrick. Os jovens da Praça Tahrir rejeitavam noções políticas que teriam sido caras às gerações anteriores: representação, liderança, protagonismo individual ou partidário. Preferiam atuar em rede. Extremamente hábeis na internet, tinham empregado inclusive táticas de hackers, para ludibriar a polícia. Talvez esta cultura explicasse a facilidade com que superaram as fronteiras entre as origens políticas de cada um.

Seu projeto para o Egito estava em formação. Nascidos entre as elites, eles haviam se aproximado resolutamente dos mais pobres, ao sentirem que neles estava a possibilidade de aprofundar a luta pela liberdade. Antes da insurreição, tinham realizado meses de trabalho político silencioso nas áreas mais pobres do Cairo. Conheceram seus problemas, aprenderam a falar sua língua. Não se assustaram quando algumas das mobilizações que ajudaram a promover evoluíram para a queima de carros. Embora chocados com as mortes de janeiro, não abandonaram a Praça Tahrir. Tinham, contudo, certa esperança nas instituições políticas que, apostavam, surgiriam após a queda de Mubarak.

IV.
Um exército contraditório

Em 11 de fevereiro, após 18 dias de insurreição, desabaram 31 anos de ditadura Mubarak. Diante da renúncia do presidente, num país onde a repressão impedira o florescimento de partidos regulares e legais, quem teria legitimidade para assumir o poder?

O Supremo Conselho das Forças Armadas (SCFA) deu um passo à frente. Seu atual líder e homem-forte do país, o general Mohamed Tintawi, foi, durante os dez últimos anos dos governo Mubarak, ministro da Defesa e vice-primeiro-ministro. Como um país capaz de derrubar nas ruas uma tirania feroz aceita, como novo líder, alguém tão ligado ao antigo regime?

A resposta está na história do exército egípcio e em seu comportamento, nos dias da insurreição. No início dos anos 1950, este mesmo país liderou uma onda anterior de revoluções modernizantes. Ela se espalhou por todo o Oriente Médio. Foi iniciada pela chamada Revolução de 23 de Julho (de 1952), no Cairo. Seu principal agente foram jovens militares reunidos no Movimento dos Oficiais Livres e liderados por Gamal Abdel Nasser. Eles derrubaram a monarquia por meio de um golpe de Estado e abriram uma ambiciosa agenda de mudanças. Constituíram um governo laico, encerraram a ocupação do país pela Grã-Bretanha, combateram a corrupção, a concentração de riquezas, o poder parasitário das elites. Nacionalizaram parte da economia. Declaravam-se antiimperialistas e partidários do pan-arabismo. Inspirados em seu exemplo, movimentos semelhantes espalharam-se, nos anos seguintes, pelo Irã, Síria, Iraque, Iêmen, Líbia.

As revoluções árabes terminariam degenerando em autoritarismo, corrupção, constituição de novas elites e acordos oportunistas com potências estrangeiras. Mas, no imaginário popular, estas chagas foram sempre mais associadas à figura dos novos ditadores que ao corpo do exército, cujo papel era coadjuvante.

E o prestígio das forças armadas voltou a crescer quando elas recusaram-se a reprimir a primavera de 2011. Esta atitude foi narrada com enorme riqueza num outro trabalho jornalístico notável: “Os dias da Praça Tahrir”, escrito pela jornalista Wendell Steavenson, publicado por The New Yorker e traduzido por Outras Palavras. Wendell viveu o cotidiano da praça durante as três semanas em que ela virou o Egito pelo avesso. Entre muitos outros aspectos, ela destaca a interação entre os manifestantes e os soldados – homens do povo, tão oprimidos quanto os que protestavam, às vezes explicitamente simpáticos ao movimento.

No início de fevereiro, ao perceberem que a posição de Mubarak tornara-se insustentável, os generais forçaram sua renúncia. Anunciada ao vivo pela TV, em 11/2, ela foi saudada por uma festa monumental na Praça Tahrir e por simpatizantes da democracia e da causa árabe em todo o mundo. Dois dias depois, o Supremo Conselho das Forças Armadas comunicou que estavam dissolvidas a Constituição e o Parlamento; e que haveria eleições presidenciais em setembro.

Desde então, o SCFA exerce o poder de fato. Formou-se um conselho civil de ministros, chefiado pelo agora demissionário Essam Sharaf; mas suas atribuições são simbólicas ou meramente administrativas. As questões-chave de política externa e segurança interna estão nas mãos dos generais.

No plano internacional, eles inovaram. A posição do Egito em relação ao tema geopolítico mais sensível da região – a ocupação da Palestina por Israel – mudou sensivelmente. O país deixou de ser esteio de Washington e Telavive no Oriente Médio. Numa possível reminiscência de seu passado pan-arabista, o exército egípcio foi participante ativo em dois movimentos destacados da luta pela independência palestina. Intermediou o acordo entre o Fatah e o Hamas, que pôs fim a anos de conflitos às vezes sangrentos e a troca de centenas de prisioneiros árabes por um soldado israelense capturado durante a ofensiva contra o Líbano, em 2006.

Mas no plano interno, os militares revelaram intenção de se perpetuar no poder e, pior, de manter intacto e operante o aparato repressivo do antigo regime. Mais de 12 mil ativistas continuam presos ou estão sendo processados. São acusados de lutar na revolução de janeiro-fevereiro (a mesma que colocou seus algozes no poder!) ou de fazer críticas ao Estado. Serão julgados por tribunais militares – às vezes, por “delitos” tão banais quanto postagens em blog. A tortura, endêmica no país há décadas, continua a ser praticada – segundo a Anistia Internacional, de forma tão generalizada quanto nos tempos de Mubarak.

Ao contrário do que sustentam certas análises de superfície, não significa que “nada mudou” no Egito. A revolução instaurou um clima de debate e mobilização permanentes. Cada tentativa de ato repressivo enfrenta protestos e resistência. Os militares recuam muitas vezes. Mas um sinal do que pode ocorrer, se a Praça Tahrir descansar, é o discurso repetido incessantemente na TV estatal, a de maior audiência. Em seus noticiários e outros programas, a revolução é vista invariavelmente como um ato encerrado em 11 de fevereiro. As sucessivas ondas de manifestações populares são tratadas como atos de perturbação da ordem, instigados por grupos antipatrióticos..

V.
O jogo eleitoral

Numa vasta reportagem publicada pelo Merip, um centro de estudos norte-americano sobre Oriente Médio (e traduzida para o português pela Rede Vila Vudu), Nate Wright retrata a campanha eleitoral por meio da qual os egípcios escolherão, a partir da última sexta-feira (26/11), os 498 membros de seu novo Parlamento. Ele descreve um ambiente de intenso debate. Os partidos e candidatos apresentam-se à população em cafés ou a céu aberto, durante encontros que se estendem pela noite e madrugada. São questionados na hora, por eleitores interessados em melhorias para seus bairros ou às vezes em favores pessoais – mas também em temas institucionais como a relação entre religião e Estado, o papel do Parlamento, o processo de escrever a Constituição. Não é raro que surjam, nestes encontros, referências ao papel desempenhado pela Praça Tahrir no processo de autoquestionamento vivido hoje pelo Egito.

Mas o texto de Wright revela, também, as grandes dificuldades enfrentadas pelos partidos que querem levar ao Parlamento o espírito de Tahrir. O foco central da reportagem é a ação de um grupo de militantes do Al Adl (Partido da Justiça) – provavelmente a mais forte das quatro agremiações formadas pelos jovens revolucionários, no pós-fereveiro.

Sua estrutura é precária, formada basicamente por trabalho voluntário. Sua experiência institucional, próxima de zero: ninguém viveu o cotidiano sequer de um Legislativo municipal. Seu discurso tende às vezes para fórmulas intelectualizadas, estranhas do pão-pão-queijo-queijo das audiências. Os militantes não costumam mentir, nem fazer promessas fáceis. Ao invés de se sair com rodeios, admitem claramente, quando não têm respostas às perguntas das plateias. Segundo as pesquisas que lhe são mais favoráveis, o Al Adl tinha, no início do mês, 4,7% das intenções de voto. Se conseguir eleger representantes, no intricado sistema eleitoral criado pelos militares, será uma força reduzida, quase simbólica no Parlamento.

A disputa principal, segundo indicam as sondagens, se dará entre dois blocos: os partidos islâmicos e os liberais. Entre os primeiros, destaca-se a Fraternidade Muçulmana. Fundada em 1928 (e depois ramificada em diversos países árabes), foi sempre muito popular, mas passou a maior parte de sua existência na ilegalidade. Opunha-se à monarquia, mas voltou-se contra o caráter laico da República criada pelos Oficiais Livres. Teria se envolvido num atentado cometido contra o presidente Nasser, em 1954. Foi proscrita e assim permaneceu até o fim do regime. Mas obteve 20% das cadeiras do Parlamento com reduzidos poderes já em 2005 – quando o regime de Mubarak, enfraquecido, permitiu que seus militantes concorressem na condição de independentes.

Além de capitalizar a força da religião, a Fraternidade apoia-se numa vasta rede de hospitais e escolas, que atendem parte da população egípcia diante da debilidade dos serviços públicos. Todos os prognósticos indicam que sua agremiação – o Partido da Liberdade e da Justiça – deverá ter a maior bancada no Parlamento. Seu posicionamento político exato é incerto. Alguns liberais temem que procure implantar um Estado islâmico e liquidar as liberdades políticas, mas o medo pode ser exagerado. Como todo partido grande, a Fraternidade é heterogênea. Seus líderes garantem respeitar a democracia. Sua juventude participou ativamente da revolução no início do ano; parte dela voltou à Praça Tahrir nas jornadas rebeldes dos últimos dias.

O risco maior de um fundamentalismo contrário às liberdades parece vir dos salafitas. São um ramo particular do islamismo, ultra-puritano, apegado ao extremo à tradição e explicitamente avesso a qualquer ideia que identifiquem como de origem ocidental – inclusive as melhores… No Egito, constituem um partido, com razoável presença entre os mais pobres.

A segunda corrente forte na disputa parlamentar é a dos partidos laicos. Nesta constelação, conta a reportagem de Nate Wright, está o Partido dos Egípcios Livres, formado por grandes empresários. Têm dinheiro, experiência gerencial, acesso a estrategistas eleitorais e de marketing. Sua bandeira é o laicismo. Ao erguê-la, conseguiram articular uma coalizão mais ampla, denominada Bloco Egípcio. Deste participam, por exemplo, agremiações marxistas.

Ainda entre o setor explicitamente laico, estão o Partido Social-Democrata, onde atuam intelectuais renomados, e o Al Wafd. É o mais tradicional (fundado em 1918) e experiente partido do país; mas, também, o mais identificado com as elites tradicionais – o que pode não ser um trunfo positivo, em tempos de questionamentos e transformações.

Por fim, correndo por fora, estão os antigos membros da agremiação de Mubarak, o NPD. Identificado com o antigo regime, sua agremiação foi posta fora da lei pelos militares, logo após tomarem o poder. Mas continuam a operar à sombra. Têm grande experiência política, laços com o poder econômico, as redes de clientelismo, o aparato de segurança oficial e grupos paramilitares. Por monopolizar o Estado, o NPD era numeroso: chegou a ter 3 milhões de membros. Muitos deles concorrerão ao Parlamento, agora abrigados em distintas legendas – tanto “filhotes” menores do velho partido, recém-fundados, quanto outras agremiações. Há alguns meses, o Partido dos Egípcios Livres foi o primeiro a admitir que incluíra, em suas listas de candidatos, ex-mubarakistas. Mas em seguida ficou claro que o mesmo expediente havia sido adotado por outras agremiações, interessadas em rechear suas listas com nomes conhecidos do eleitorado, e assim ampliar seu percentual de votos.

VI.
Dos conchavos ao impasse

No cenário político do Egito, a polarização central, nos dez meses desde a queda de Mubarak, foi entre Praça Tahrir e os militares. Um personagem representa o poder instituído; outro, sua negação radical e a busca de um projeto novo, ainda que indefinido. Mas foram frequentemente tensas, também, as relações entre a caserna e os diversos polos civis que disputam poder civil. Destas contradições surgiria, em novembro, a brecha que permitiu uma virada.

Desde que assumiu o poder, em fevereiro, e apesar ziguezagues táticos, o Supemo Conselho das Forças Armadas manteve sempre um norte: conservar, para os militares, o máximo de poder, pelo maior tempo possível. Em favor desta atitude pesa, entre outros aspectos, o gigantismo da máquina castrense. Muito próximo ao poder desde a revolução de 1942, o exército egípcio constituiu, ao lado de sua máquina militar, um conglomerado de empresas – industriais e de serviços. Produz “de macarrão a hotéis de luxo”, frisa a reportagem de Nate Wrigth sobre as eleições, já citada. Tem, portanto, interesses e quer preservá-los, numa nova ordem que afinal surgirá no Egito.

A arma principal dos militares, em favor de seu objetivo, tem sido a manipulação do processo eleitoral. Como não há nenhum poder civil instituído, é o SCFA quem, em última instância, dita as regras do jogo. Ao fazê-lo, tem procurado adiar e diluir a constituição de organismos políticos que assumam as responsabilidades que tomou para si. As eleições presidenciais que ocorreriam em setembro deste ano, por exemplo, foram adiadas. Permaneceram sem data estipulada até a recente onda de protestos (veja na Wikipedia verbete sobre possíveis candidatos).

Num certo sentido, a eleição do Parlamento é ainda mais importante. É a ele quem caberá aprovar uma nova Constituição. Mas os militares definiram um processo eleitoral particularmente intrincado, que se estende por dois meses e é de difícil compreensão para os cidadãos comuns. As duas câmaras parlamentares serão escolhidas separadamente. O país votará em rodízio: a capital e algumas outras cidades foram às urnas ontem (28/11) e hoje; nas próximas semanas, haverá mais duas rodadas, cada uma para um novo grupo de cidades. Há dois turnos. Dois terços dos candidatos são escolhidos entre listas apresentadas pelos partidos; um terço, entre mais de 6.000 postulantes independentes. Os resultados finais do pleito que começa agora só serão conhecidos em 13 de janeiro (para uma das câmaras legislativas) e 14 de março (a segunda).

Em favor do exército, deve-se ressaltar que, ao longo dos últimos dez meses, os principais grupos institucionais procuraram no poder militar a força para fazer valer seus pontos de vista sobre o futuro do país. Temendo uma possível islamização, os partidos laicos reivindicaram repetidamente que os militares definam algo como “cláusulas pétreas”, limitando os poderes constituintes do futuro legislativo. Ele não poderia, por exemplo, quebrar o caráter laico do Estado. Este tipo de intervenção militar modernizante segue, grosso modo, o modelo da Turquia – aliás, um exemplo cada vez mais presente.

Já a agenda dos islamitas junto aos militares foi, como é natural, de curto prazo. Há poucos pontos programáticos de identidade entre as duas partes. Mas, consciente de sua força eleitoral, a Fraternidade Muçulmana agiu, em diversos momentos, para reduzir a potência da Praça Tahrir e diluir as que esta exercia sobre o SCFA. Também a Fraternidade teme a mobilização social. Parece desejar que as eleições ocorram o mais cedo possível – preservando seu atual favoritismo – e conduzam à formação de um poder “normal”, capaz de tomar decisões e impô-las à sociedade.

No início de novembro, uma decisão do SCFA, longamente aguardada, azedou este ambiente de negociações em cúpulas. Com a proximidade das eleições, todos os partidos esperavam que os militares baixassem um “decreto supraconstitucional”, normatizando o processo que conduzirá à nova Constituição. Finalmente anunciado em 1º/11, ele foi visto, tanto pela Praça Tahrir quanto pela Fraternidade Muçulmana, como um tapa na cara.

Primeiro, por estabelecer “autonomia” militar tanto sobre os assuntos relacionados às Forças Armadas quanto sobre seu orçamento. Ou seja, se conseguirem torná-lo efetivo, o SCFA poderá se constituir num poder à parte, livre inclusive de limitações financeiras e, nestas condições, permanentemente capaz de interferir na vida institucional.

Além disso, os trâmites previstos no decreto para redação da nova Carta são tortuosos, tendentes a causar crises e divisões permanentes entre o poder civil. O Parlamento não redigirá a Constituição diretamente. Os militares nomearão uma comissão de cem membros, encarregada de preparar uma primeira versão da Carta. O Legislativo poderá alterar este texto – mas só no caso de reunir maioria de 2/3. Se houver desacordos, uma nova comissão, também indicada pelos militares, será encarregada de produzir novo texto.

É provável que os militares tenham calculado mal suas forças e a de seus adversários, quando tentaram estender a tal ponto seu poder. A série de rebeliões que marcou novembro, e levou a Casa Branca a pedir o fim do governo do SCFA, foi deflagrada em reação ao “decreto supraconstitucional”.

VII.
A nova insurreição

A primeira resposta à posição dos militares veio da Fraternidade Muçulmana. O grupo convocou, para 18 de novembro, uma grande manifestação contra o decreto supraconstitucional e pela entrega do poder aos civis. É provável que a data tenha envolvido cálculo político. Além de coincidir com sexta-feira – o dia em que ocorreram as manifestações decisivas na insurreição de janeiro-fevereiro – ocorreria dez dias antes das eleições, podendo repercutir mais intensamente sobre elas. Foi um grande ato. Dezenas de milhares de pessoas encontraram-se na emblemática Praça Tahir. Entre o público, misturavam-se membros e apoiadores da Fraternidade Muçulmana e os jovens rebeldes e laicos.

Terminado o protesto, as atitudes diferiram. Os apoiadores da Fraternidade desmobilizaram-se. Os jovens, não. Muitos milhares pernoitaram na praça, esboçando um novo acampamento. Foram reprimidos com brutalidade logo na manhã de sábado. As forças policiais destruíram rapidamente as barracas armadas e tentaram dispersar os manifestantes com granadas de gás e tiros. Já nesta investida, houve algumas mortes e 600 feridos.

Mas neste momento, começou também uma batalha campal que se estendeu por quatro longos dias, até a terça-feira. Os manifestantes resistiram. Sua postura atraiu milhares de outros. O heroísmo de Tahrir e seu papel na derrubada da ditadura são reconhecidos e admirados – mesmo quando as posições que prevalecem na praça não correspondem às da maioria dos egípcios. Além disso, as reivindicações apresentadas foram claras, objetivas e viáveis. Ao invés de algo radical porém inócuo, como o “No nos representan” às vezes ecoado pela Puerta del Sol, Tahrir formulou quatro exigências: a) demissão do governo do ex-premiê Sharraf; b) eleições presidenciais em abril de 2012; c) constituição de um governo “de salvação nacional”; d) reforma do ministério do Interior, responsável pelas perseguições políticas, torturas, prisões arbitrárias.

Na praça, como destacam reportagens mencionadas (1, 2), vigora uma democracia direta e horizontal, sem líderes instituídos ou espaços formais de tomada de decisões. Mesmo assim, a força das exigências permitiu que, durante quatro dias, este laboratório fervilhante de nova cultura transformadora funcionasse como um polo do cenário político do país. Já no sábado, em meio às conflagrações, compareceram pessoalmente à praça, para expressar solidariedade, dois pré-candidatos às eleições presidenciais: o Nobel da Paz Mohamed El Baradei e o ex-preso político Ayman Nour.

Os confrontos violentos estenderam-se até terça-feira, 22/11. A partir do domingo, espalharam-se do Cairo para Alexandria, Suez, Ismailiya, Quena, Assuit. Nem as mais de 40 mortes intimidaram os manifestantes. Em determinado momento, quatro hospitais de campanha estavam simultaneamente instalados na Praça Tahrir, todos funcionando com médicos e enfermeiros voluntários. Além da juventude politizada, acorreram outros setores, que se identificaram com a insurreição por terem também, como inimigo, a polícia egípcia e seus métodos selvagens. Uma excelente reportagem de Eduardo Febbro para o jornal argentino Página12 (reproduzida no Brasil por Carta Maior) retrata, por exemplo, a participação decisiva de três das principais… torcidas de futebol egípcias!

Febbro explica as razões do envolvimento: seus membros “detestam a Polícia, cuja brutalidade nada tem de novidade para eles; e detestam o sistema, cuja corrupção e desigualdade também conhecem bem. Estão habituados a enfrentar a polícia nas ruas, depois das partidas de futebol, e são especialistas na arte de pular muros, jogar pedras, resistir aos gases lacrimogêneos e caminhar diretamente contra unidades policiais altamente treinadas. (…) Mestres consumados nas táticas de guerrilha urbana, acumulam experiência que só eles têm, quando se trata de unir-se para enfrentar a polícia, ou dividir-se em colunas para contornar os batalhões da repressão e golpeá-los pela retaguarda, incendiando veículos policiais”. Um ativista mais convencional da Praça Tahrir, o estudante de Psicologia Abdel Gamal, reconhece, para o jornalista:“Sem a experiência das torcidas, duvido que tivéssemos podido resistir por tanto tempo”.

Na terça-feira, depois de três dias defendendo-se, a praça foi à contra-ofensiva. Convocou-se uma “Marcha de um milhão”, para tornar ainda mais visível a luta pelo fim do governo militar. Organizada sem o apoio da Fraternidade Muçulmana, ela reuniu, segundo todas as fontes, algumas centenas de milhares de pessoas. Três dias depois, na sexta (25/11), um público ainda maior participou de um novo ato.

A partir da terça-feira, a tenacidade da resistência começou a alterar a correlação de forças. Até os generais deram-se conta que ampliar a carnificina – sem resultado prático relevante – significaria, para eles, um desgaste insuportável. O SCFA iniciou um giro tático. Naquela mesma manhã, o general Tantawi reuniu-se com dez partidos políticos, inclusive a Fraternidade Muçulmana. À noite, anunciou a demissão do gabinete, e a convocação de eleições presidenciais até julho de 2012. Dois dias depois, o homem-forte do governo pediu desculpas pela repressão e comunicou que a polícia iria se afastar de Tahrir e suas adjacências. O exército, que foi sempre poupado dos enfrentamentos, assumiu seu lugar, atuando de maneira pacífica. A praça conquistara mais alguns troféus simbólicos, em sua curta (porém tão rica…) história de batalhas por uma nova democracia.

VIII.
Outro projeto de revolução?

Analisar a correlação de forças e desenhar, com base nela, estratégias e táticas foram, em todas as épocas, alguns dos desafios intrincados com que se depara quem se atreve a questionar e transformar as sociedades. A imensa maioria dos jovens que derrubaram Mubarak no início do ano e permanecem mobilizados jamais se propôs a ingressar num partido político, disputar um mandato parlamentar, exercer alguma forma de poder estatal. Intui a possibilidade de outra política, baseada em ações autônomas, em formas de autogoverno e de articulação em rede que superem a representação. No Egito, tudo isso tem se mostrado especialmente potente.

Mas parte desta juventude politizada parece ter acreditado, além disso, que seu sentimento correspondia ao da sociedade egípcia. Esta ideia cresceu durante os enfrentamentos da última semana. É natural que vitórias tão épicas produzam, entre seus protagonistas, um sentimento de potência e relevância. Como conta, entre muitas outras, esta matéria no jornal londrino The Guardian, cresceu, na Praça Tahir a proposta de boicote às eleições parlamentares.Se a política institucional é tão medíocre, por que os revolucionários deveriam curvar-se a ela?

Esta batalha, a praça não tinha como ganhar. Ao aceitar a queda do gabinete de ministros e ordenar à polícia que interrompesse a violência, no dia 22, o general Tantawi parece ter percebido que este passo atrás recolocaria o tempo a seu favor. Nos cinco dias que se seguiram, a normalidade voltou a se impor, pouco a pouco. Houve duas megamanifestações, é certo, mas os partidos retomaram o contato com os eleitores. Num país em que não há eleições livres há décadas, e em que os debates eleitorais atravessam a noite, nos bares e ruas, é evidente que o ato de fazer uma opção, depositando um voto em urna, tem enorme força simbólica.

Ainda ontem, uma blogueira que se apresenta como Zeinobia e é uma das vozes mais constantes e lúcidas da revolução egípcia, escreveu em Egyptian Cronicles, seu blog (em inglês): “É muito tarde para convocar um boicote. Pelo que vejo a meu redor, muitos egípcios comuns votarão. O boicote exigiria uma campanha – longa, não de uma semana. As pessoas estão extremamente preocupadas com o futuro do país e querem – mais do que alguns podem imaginar – uma transição civil pacífica”. A realidade lhe deu razão. Ontem, imensas filas formaram-se, desde muito cedo, nas seções eleitorais. A paciência dos eleitores superou a desorganização do pleito: não houve incidentes graves. As mesas ficaram abertas por duas horas mais que o previsto, para que ninguém ficasse sem votar.

Mas a realidade política do Egito sofreu uma nova mutação, nos últimos dez dias. A praça Tahrir mostrou que pode ir além da derrubada de um ditador. No intricado cenário que se formou no país, ela é capaz de assumir posições, diferenciar-se dos demais atores políticos, galvanizar parte importante da opinião pública, produzir fatos novos e modificar tendências. Os militares e os islâmicos terão de levá-la em conta. O novo Parlamento, também – qualquer que seja sua composição final.

Em seu ensaio no New York Review of Books, Hussein Agha e Robert Malley recordam que “as revoluções devoram seus filhos”. E preveem: “Os jovens ativistas que primeiro saíram às ruas tendem a ser derrotados nas escaramuças que se seguirão. (…) A condição usual do revolucionário é ser atirado à margem”. Talvez estejam certos. Foi quase sempre assim, nos séculos passados.

Mas a despeito disso, as revoluções foram, nestes mesmos séculos, a grande oficina da democracia, os momentos em que as multidões questionaram privilégios, conquistaram direitos, ampliaram as fronteiras da liberdade. O fato de seus líderes terem sido expulsos do poder depois de conquistá-lo por breve período, ou mesmo mortos ou traídos, não reduz o papel civilizatório destes momentos históricos raros e peculiares.

Além disso, a tradição política que desponta no século 21 permite lançar uma nova questão. A julgar pelo que se vê na Praça Tahrir, na Puerta del Sol ou no movimento Occupy, a própria ideia de revolução mudou. Os novos revolucionários nem almejam o poder, nem se veem como líderes. Atuam como instigadores de inteligência coletiva, como provocadores de fatos políticos capazes de produzir efeitos de longo prazo. A derrubada da ditadura de Mubarak, por exemplo. Em outras circunstâncias e outros lugares – quem sabe? – a instituição de um imposto redistributivo sobre os lucros do sistema financeiro e as grandes fortunas? A redução da jornada de trabalho? A garantia, a todos os seres humanos, de uma renda universal da cidadania? A definição de planos locais, nacionais ou globais para a redução das emissões de carbono e o combate ao aquecimento do planeta?

São meras conjecturas: a nova cultura política somente engatinha; a reflexão teórica sobre ela é ainda mais incipiente. Mas é ótimo saber que às vésperas de terminar 2011, este ano já tão cheio de surpresas, a Praça Tahrir contribuiu de novo para reviver – e reinventar – a ideia de revolução.

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Antonio Martins

Antonio Martins é Editor do Outras Palavras