A revolução árabe derrubará mais um?

Por Luís Nagao, colaborador de Outras Palavras

Mais um governo está prestes a cair no Mundo Árabe. Após a Tunísia e o Egito, agora a ditadura de Ali Abdullah Saleh, que governa há trinta e dois anos o país, pode estar vivendo seus últimos dias. Aliado dos EUA no combate da Al-Qaeda, o país vive também conflitos ao norte (com a oposição minoritária xiita) e separatismo ao sul. Situado no extremo sudoeste da Península Árabe, é uma das nações mais pobres da região. Contudo, o que ocorrer por lá pode ter forte repercussão e se alastrar para a Arábia Saudita, que faz fronteira ao norte. O fim iminente da ditadura é indicado por uma proposta de transição política, feita há dias pelo Conselho de Cooperação do Golfo (CCG). Inteiramente composto por aliados dos Estados Unidos – Kuwait, Catar, Arábia Saudita, Bahrein, Omã e Emirados Árabes – o CCG parece julgar a queda de Saleh inevitável. Busca uma saída não-traumática. O debate atual no Iêmen é precisamente sobre o caráter da transição política para um novo regime.

As mobilizações que desestabilizaram a ditadura começaram no final de Janeiro, contra a alta taxa de desemprego e a corrupção. Exigiam mais liberdade política. Ao longo desses meses, os protestos multiplicaram-se e assumiram caráter de luta contra o regime. Conflagrações políticas e tentativas de solução ocorreram sem sucesso. O governo recorreu a repressão violenta e provocou dezenas de mortes – mas isolou-se cada vez mais. A proposta do CCG busca uma saída negociada. Ela dá trinta dias para que Saleh deixe o poder. Ao 29° dia, o Parlamento decretará a imunidade do presidente e seus aliados. Um governo provisório será formado e dois meses depois ocorrerão eleições presidenciais.

Formado principalmente por estudantes e jovens, o setor que exige democratização ampla do país rejeita tal negociação. Mesmo após a proposta feita pelo CCG , protestos e repressão continuam. Hoje (26/4), mobilizações em Taez causaram três feridos; em Aden, outros três. Na capital, Saana, dezenas de milhares de pessoas fizeram sit-in pedindo a saída do presidente e seu julgamento.

Mas há um setor disposto a aceitar o acordo. Ontem, após conversa com o embaixador norte-americano, a vacilante oposição parlamentar decidiu fazer parte do governo de transição, chamado “de unidade nacional”. Denominada Fórum Comum e composta por dissidentes do poder, nacionalistas, islâmicos e ditos socialistas, apoiou a proposta de transição negociada apresentada pelo CCG. Na semana que vem, o secretário geral deste grupo de países, Abdullatif al-Zayani, viajará a Saana para definir concretamente os detalhes de dia e local do acordo de saída de Saleh e os outros pontos relacionados a transição negociada.

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A reivindicação de lideranças estudantis, tais como Abdel Malik al Yusufi, é a mudança completa do regime, sem imunidade e concessões a Saleh e seus aliados. Nota para a imprensa lida ontem pelo jovem ativista Abdullah Al Sholif, do Comitê Organizativo da Revolução da Juventude, declara que a deportação e julgamento de Saleh e seus familiares é inegociável e que a posição dos grupos moderados, de apoio à imunidade, não representa a posição dos jovens. A nota exorta a população a não aceitar a anistia.

Além da crise política, o Iêmen está passando por um aumento do custo de vida com a alta dos preços de alimentos e combustíveis. Pode ser mais um ingrediente convulsivo na atual conjuntura. Apesar de não se saber qual será o desenlace do processo, já está clara a delimitação política dos campos. A esta altura, o fim de mais uma ditadura aliada a Washington parece certa. Resta aguardar os próximos acontecimentos para saber o caráter da transição e o futuro do país.

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