A possível paz afegã

Por Robert Dreyfuss* | Tradução: Clarissa Barbosa** | Foto: Pål Berge***

Conforme a poeira for baixando, agora que a excitação por conta da demissão do general McChrystal acabou, os Estados Unidos irão se ver no Afeganistão, na mesma guerra suja e invencível que encararam semana passada, mês passado e ano passado. Apesar das fantasias do general Petraeus e o culto de contra-insurgência (COIN), a guerra não terminará quando o Talibã for removido de todas as vilas e vales do país. Ela terminará quando o Talibã, as forças de Gulbuddin Kekmatyar e os guerreiros liderados pela família Haqqani – encorajados ou pressionados pelos seus patrocinadores no Paquistão – firmarem um acordo de partilha de poder com um novo governo em Cabul.

É a mensagem de um ensaio importante publicado há dias, por Dan Serwer, vice-presidente dos Centros de Inovação para Construção da Paz (Centers of Peacebuilding and Innovation), no Instituto para Paz (Institute of Peace) dos Estados Unidos. Intitulado, “Uma Paz Negociada”, o artigo de Serwer afirma que negociações com o Talibã e outros grupos poderiam começar antes deste outono [no hemisfério norte]. Ele argumenta: “O governo está buscando um desfecho decente e negociado. O serviço de inteligência paquistanês agiria como um intermediário (e garantidor) para o Talibã, como Slobodan Milosevic fez pelos bósnios da Sérvia quinze anos atrás. Os norte-americanos entregariam Cabul. O acordo pode colocar o Talibã no poder em grandes partes do Afeganistão, mas manter a al-Qaeda no Paquistão, onde Islamabad concordaria em negociar duramente com seus guerreiros.”

E “se o Talibã realmente controlar o poder em parte do Afeganistão – digamos, dominando o sul e partilhando o poder em Cabul – o país poderia se assemelhar ao Líbano: o Hezbollah controla grandes porções do interior, opera suas próprias forças militares e presta serviços para grande parte da população, mas os Estados Unidos e outros países têm embaixadas em Beirute, lidam regularmente com o governo e o parlamento, além de tentarem persuadir autoridades libanesas a atingir o Hezbollah e limitar sua influência.”

E ele analisa as divisões no interior da elite afegã, onde elementos da antiga Aliança do Norte – e seus amigos na Índia, Rússia e Irã – provavelmente não apreciarão a presença do Talibã em um arranjo de partilha de poder em Cabul. Serwer diz ainda:

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“Enquanto o presidente afegão Hamid Karzai terminaria de bom grado a guerra que o posiciona contra camaradas Pashtuns, os inimigos afegãos do Talibã – a Aliança do Norte, dominada pelos tajiques e uzbeques – não apreciariam, provavelmente, que uma grande fração de seu país seja tomada por aqueles que resguardam a Quetta Shura, que comanda o mais importante segmento do Talibã, sendo a autoridade final.

“Karzai demitiu recentemente  dois oficiais de segurança chaves, aparentemente por permitirem ataques à conferência nacional de paz (Jirga) que deu a ele algo como uma carta branca para lidar com o Talibã. Os homens demitidos por ele eram nacionalistas afegãos duros, opostos à Quetta Shura e seus apoiadores aparentes no Paquistão.

“A substituição dos dois, nos postos de ministro do Interior e chefe de inteligência, enviará sinais ao Paquistão e ao Talibã. Se Karzai promover gente mais ao gosto de Islamabad, e os norte-americanos acenarem afirmativamente, isto indicará que a porta está aberta a negociações.”

Quando Karzai despediu os dois oficiais — o ministro do Interior e o diretor do serviço de inteligência — despertou sentimentos de ultraje em círculos norte-americanos. Representantes chaves do projeto dos EUA para o Afeganistão eram amistosos a estes oficiais, que em troca eram oponentes impersuadíveis do Talibã e do Paquistão. Mas Serwer está absolutamente certo ao dizer que seria muito promissor se os nomes dos substitutos estivessem em sintonia com o esforço deliberado de Karzai para alcançar um acordo político com o Talibã.

O New York Times trouxe há alguns dias, como matéria principal, um artigo criticamente importante de Jane Perlez, Eric Schmitt e Carlotta Gall, chamado “Paquistão estaria buscando uma base de apoio afegã. ”Os repórteres fazem um relato abrangente de como o Paquistão, liderado pelo exército e a ISI, o serviço de inteligência do exército, está buscando estabelecer um acordo entre Karzai e o Talibã. E Washington não está feliz:

“Washington observou com certo nervosismo as viagens constantes do general Kayani e do espião chefe do Paquistão, general Ahmad Shuja Pasha, entre Islamabad e Cabul. Eles disseram ao presidente Karzai que concordam com a avaliação de que os Estados Unidos não podem vencer no Afeganistão e que um pós-guerra deveria incorporar a rede Haqqani, um antigo patrimônio paquistanês. Em um sinal de mudança momentânea, os dois oficiais paquistaneses agendaram visitas a Cabul há dias, de acordo com a TV afegã.”

O texto acrescenta: “O Paquistão está se apresentando como novo parceiro viável para o Afeganistão. Oficiais paquistaneses dizem que podem envolver a rede de Sirajuddin Haqqani, um aliado da Al Qaeda que comanda a maior parte da insurgência no Afeganistão, em um arranjo de partilha de poder.

“Além do mais, segundo dizem oficiais afegãos, os paquistaneses estão movendo outras peças, com general Kayani pessoalmente oferecendo arranjar um acordo com a liderança do Talibã.”

O verdadeiro escândalo dentro do governo Obama não é o que envolve Petraeus e McChrystal, embora o culto da contra-insurgência possa se opor ativamente ao presidente e o vice-presidente Biden, se eles buscarem um acordo político até julho de 2011, data da retirada. O escândalo é que a Casa Branca não está apoiando negociações, com base na teoria infundada de que primeiro é necessário punir o Talibã, e somente então a fração insurgente e seus líderes começarão a dialogar.

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* Robert Dreyfuss é jornalista investigativo norte-americano, especialista em assuntos de estratégia e lutas pela paz. Escreve, entre outras publicações, para The Nation, Rolling Stone, Mother Jones e The American Prospect. Mantém um blog, The Dreyfuss Report, disponível aqui

** Clarissa Barbosa é colaboradora de Outras Palavras

*** Sob licença livre Creative Commons

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Antonio Martins

Antonio Martins é Editor do Outras Palavras