A Jean Willys, com carinho

160210-Palestina

Uma feminista brasileira que conhece Israel e a Palestina sugere ao deputado que mantenha sua viagem — mas que permaneça de olhos bem abertos, inclusive para o “pinkwashing”…

Por Berenice Bento


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Prezado Jean Wyllys,

Não vou me somar às vozes que gritam contra sua viagem a Israel. Sei da sua sensibilidade política e tenho certeza que aproveitará a oportunidade para conhecer a trágica realidade em que vive o povo palestino. Visite os campos de refugiados, converse com as pessoas palestinas, atravesse os checkpoints. Converse e, acima de tudo, observe.

Há anos sou ativista da causa palestina, no entanto, não sabia como qualificar o projeto sionista, hoje, não tenho dúvida: estamos assistindo a um genocídio. A palavra “genocídio” arrepia a alma, eu sei. E certamente a imagem que nos vem à mente é um monte de gente de uma mesma religião ou nacionalidade sendo executada coletivamente.

TEXTO-MEIO

O tipo de genocídio que é implementado por Israel tem táticas diferenciadas e, simultaneamente, combinadas com outras já utilizadas no passado. Veja o mapa da Palestina em 1948 e veja ao que foi reduzida atualmente. Onde estão aquelas pessoas que antes habitavam Tel Aviv (para citar apenas um exemplo)? Alguns destinos: campos de refugiados, exílio, mortas pelo exército. Aqueles que estão no exílio e os seus filhos e os filhos dos seus filhos, não podem voltar para suas terras. Um exílio eterno. No entanto, qualquer judeu em qualquer parte do mundo tem o direito de tornar-se israelense. E onde estes novos israelenses vão morar? A política de invasão das terras palestinas não cessa.

Cerca de 75% de todas as famílias palestinas têm ou já tiveram um membro na prisão israelense. Os muros, cercas, os checkpoints, e o câncer dos assentamentos ilegais (incentivados pelo Estado racista de Israel) estão matando, eliminando aos poucos uma nação. A imagem do assentamentos como “câncer” pode parecer assustadora, mas é a único possível. Israelenses que invadem o corpo político que querem matar. Daí o incentivo do Estado racista de Israel a esta tática de eliminação do povo palestino. É assustador. Somando-se a todas as técnicas de tortura, aprisionamentos, roubo das terras, ainda temos (no âmbito das armas do neocolonialismo sionista) o apoio da imprensa internacional e nacional que silencia diante das atrocidades ali cometidas e que vendem a imagem de Israel como país democrático.

É por isso que acredito firmemente que se você se permitir viver a experiência de conhecer de perto a realidade do povo palestino concordará comigo que eles vivem em uma imensa prisão.
Eu também te pediria para conversar com o ativismo LGBT e queer palestino. Não vou me alongar, mas foi principalmente com eles/elas que entendi o sentido do pinkwashing. Muitos dos gays palestinos que conversei tiveram seus pais assassinados ou estão na prisão. Um deles me contou que seu irmão de 17 anos, defendendo-se, está preso porque jogava pedra nos soldados israelenses. Já se passaram dois anos desde da detenção e até agora nenhum processo formal foi estabelecido. Se eu lhe conto esta passagem de minha viagem é apenas para lembrar da impossibilidade de isolar a luta dos direitos LGBTs e queer de uma agenda política mais ampla. É por isso que lhe peço: converse com os membros LGBTs e queer palestinos. Tenho certeza que será um encontro importantíssimo. Também repetiria o mesmo desejo em relação às feministas palestinas.

Aliás, não lhe parece estranho que as prisões israelenses estejam superlotadas de palestinos? Quantos israelenses estão presos nos cárceres palestinos?

São dezenas de resoluções da ONU condenando Israel pela violação dos direitos humanos do povo palestino e nada, absolutamente nada, segura a máquina de morte deste Estado.

Os palestinos lutam com o que têm: pedras e seus próprios corpos.

Uma esperança me move. Depois desta viagem você verá que o caminho do boicote (BDS) ao Estado racista de Israel demorou a ser assumido. A solidariedade internacional é um dos valores mais importantes da esquerda.

No entanto, caso você não tenha condições de fazer longas visitas aos campos de refugiados e às cidades ocupadas, ainda sim, tenho duas sugestões: converse com os chamados estudantes israelenses-árabes (na verdade, são palestinos. Esta identidade foi inventada por Israel para apagar a identidade palestina) da universidade que você foi convidado. Certamente escutará relatos que lembrarão os dos nossos estudantes negros no Brasil.

A última sugestão: visite Hebron. Acho que nem é necessário ter um guia. Apenas observe com sua aguçada sensibilidade. Veja a feiura de uma cidade prisão, a estética monstruosa da guerra materializada em homens-morte, vulgarmente chamados de soldados de Israel. Ande pelo mercado da cidade velha onde dezenas e dezenas de lojas (fonte de sobrevivência de várias famílias) estão fechadas há décadas. Veja a pobreza e miséria dos palestinos. Sei que estas imagens tocaram no fundo de sua alma e lhe recordará as favelas ocupadas no Rio de Janeiro. A bela-bolha chamada Tel Aviv se alimenta da miséria dos palestinos. Saia desta bolha.

Com carinho,

Berenice Bento
Profa. Dra. da UFRN

 

TEXTO-FIM
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Berenice Bento

Doutora em Sociologia, professora da UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte), pesquisadora do CNPQ