A indignação venceu a letargia

Provavelmente, os indignados vão “aplanar o terreno para a construção, mais tarde, de outro tipo de organização”. Não é pouco

Por Nazaret Castro, de Madri

“A história é nossa
e a fazem os povos”
(Salvador Allende)

Desde 15 de maio de 2011, um novo ator político irrompeu na cena espanhola, quando já achávamos que a passividade tinha vencido à indignação. Milhões de pessoas tomaram a emblemática praça madrilenha da Porta do Sol, e muitas outras praças públicas de toda a Espanha, ao grito de “Democrácia Real Já!” Convocaram assembleias que, ainda hoje, se celebram periodicamente nos bairros de Madri e por todo o país. E o apoio massivo de milhões de espanhóis às manifestações globais de 15 de Outubro demostrou que, cinco meses depois, o movimento continuava vivo após os augúrios de que se dissolveria naturalmente. A indignação venceu o cansaço. O 15-M sobreviveu ao verão e mostrou sua fortaleza, e tem um apoio massivo dos cidadãos, mas hoje está na encruzilhada. Enfrenta divisões internas e afronta grandes desafios: achar seu caminho, concretizar as suas propostas e definir e viabilizar um caminho de luta.

O nome de Juventude Sem Futuro (JSF), uma das organizações vinculadas ao 15-M, diz muito sobre os motivos que levaram os jovens espanhóis a ocupar as praças públicas. É a primeira geração num século que não aspira melhorar o nível de vida que tiveram seus pais; é uma juventude estigmatizada pela inconcebível cifra de desemprego juvenil na casa dos 42% — no total, a desocupação atinge 21% da população economicamente ativa —, e por uma crise europeia da dívida que tem demonstrado até que ponto a política foi sequestrada pelos poderes financeiros. Como afirma o profesor de Economia Juan Torres López, membro da organização ATTAC, “as ajudas milionárias que se deram aos bancos, com a desculpa de que iam reativar o crédito”, foram o último grande calote, pois a banca empregou esse dinheiro “em especular com a dívida dos governos, e assim extorqui-los mediante um autêntico terrorismo financeiro que praticam as agências de rating para demandar reformas que lhes deem ainda mais vantagens”. Sobram os motivos para indignação.

Com frequência se questionou o movimento que só sabe dizer ‘não’, ao invés de fazer propostas novas. Mas isso não é verdade. Os indignados têm claras suas bandeiras. Uma, aquele “Não nos representam” que os levou às ruas em maio, ao grito de Democrácia Real Já; a convicção de que é preciso regenerar o sistema político e aumentar a participação cidadã. Eles lembraram que “não há democracia se governam os mercados”, um slogam cada vez mais atual após os acontecimentos na Itália e na Grécia. Em segundo lugar, a defesa dos afetados pelas hipotecas, que, após a espetada na bolha imobiliária, perdem a casa, mas ficam com a dívida. O 15-M tem parado várias ordens de despejos e tem feito com que algumas entidades financeiras troquem as regras: por exemplo, Bankinter oferece agora que a entrega da casa salde a dívida. JSF propõe medidas em matéria de moradia (aluguel social universal), trabalho (controle do abismo salarial, jornada de 35 horas), educação (paralização dos modelos da elite), igualdade social (taxação das transações financeiras).

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Para muitos especialistas e simpatizantes do movimento, o erro do 15-M não é não propor, mas, pelo contrário, tentar abranger muito ao invés de focalizar em um só eixo. “Vão se dispersar demais”, alerta Roberto, ativista de uma ONG de direitos humanos. O problema é como fazer para concretizar e redigir as propostas num movimento que nasceu com ideias de diversidade e inclusão. Talvez, como lembra o veterano jornalista Enrique Leite, um movimento deve ter reivindicações concretas: se é plural demais, deixa de ser um movimento.

Os desafios do movimento

Mas, que eixo, então? Muitos ativistas acham que é a comissão de economia, que continua se reunindo na Praça del Carmen, em Madri, o grupo de trabalho que melhor funciona e que está oferecendo propostas valiosas. Já o cientista político Jaime Pastor acredita que é a defesa dos serviços públicos — sobretudo saúde, educação e pensões, os pilares do Estado de bem-estar social — que deve ser a “questão chave” em tempos em que Os Mercados exigem reformas. Na Espanha, o Estado de bem-estar não se desenvolveu tanto quanto na França ou na Bélgica, mas o país conseguiu construir uma valiosa rede de saúde e educação públicas. As iniciativas privatizadoras em diferentes regiões da Espanha anunciam o que pode chegar nos próximos anos, com o FMI e o Banco Central Europeu cobrando “ajustes” e justificando decisões políticas que em outros tempos seriam mais comprometedoras eleitoralmente.

Outra dificuldade, para alguns, é para outros uma conquista consciente do 15-M: sua horizontalidade, a falta de chefes, de líderes carismáticos que deem um rosto ao movimento. Os indignados escolheram as assembleias, sem dúvida democráticas, mas também muito lentas. Algumas vozes temem que, sem uma maior estrutura, o movimento possa se dissolver, como aquele outro maio de 1968. O cientista político Juan Carlos Monedero lembra que “mais estrutura pode não signficiar mais verticalidade”.

O outro grande dilema é como o 15-M deve participar da política. O movimento não quer chegar ao poder, mas influir nele. E os indignados se debatem entre a rejeição do sistema político e a oportunidade de aliar-se com as formações mais afins ao movimento, como Izquierda Unida e Equo. Mas o 15-M foge de identificações partidárias. Diante da eleição de 20 de Novembro, o movimento só se posicionou contra o bipartidismo fático entre o Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), social-democrata e até agora no governo, e o conservador Partido Popular (PP), favorito em todas as pesquisas. É o “PPSOE”, como dizem os indignados para enfatizar que não são opções diferentes. O PSOE respondeu à crise com ajustes impostos por quem agora manda em todos os países europeus, sobretudo os periféricos: a União Europeia, ou melhor, Merkozy, como o engenho popular chama àquele diretório improvisado dos presidentes francês, Nicolas Sarkozy, e alemã, Angela Merkel.

Apesar dos grandes desafios, muitas vozes destacam os sucessos do movimento, que tem colocado na agenda assuntos como a necessidade da participação política, que tem manifestado o descontentamento massivo dos jovens e que, sobretudo, tem recuperado as ruas, as praças públicas, como espaço de reflexão, de encontro e reivindicação. Tudo isso, com uma “razoável radicalidade nos enfoques”, segundo o cientista político Carlos Taibo. O que os indignados questionam não são assuntos superficiais — como a corrupção política ou a precariedade laboral — e que não chegam ao coração mesmo do sistema político e econômico.

Provavelmente, o sociólogo Zygmunt Bauman está certo ao falar que o 15-M “é um movimento emocional; falta pensamento”. Provavelmente, o 15-M só vai “aplanar o terreno para a construção, mais tarde, de outro tipo de organização”. Mas não é pouco.

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Nazaret Castro

Nazaret Castro é uma jornalista espanhola. Foi correspondente do jornal Público no Brasil de 2008 a 2012. Em seguida, mudou-se para Buenos Aires e é colaboradora do El Mundo e Le Monde Diplomatique.

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