A Hora Amarela e os limites da condição humana

150310_Hora amarela - Foto de André Wanderley. Em cena_Deborah Evelyn
Em obra de dramaturgo norte-americano, agora encenada em São Paulo, mulher tenta sobreviver numa metrópole sob ocupação

Por Wagner Correa de Araujo

Adam Rapp é um dos mais destacados nomes da dramaturgia americana contemporânea, além de suas incursões pela literatura, cinema, televisão e, ainda, na área musical.

Sua temática mergulha fundo nas zonas mais escuras com as quais se defrontam seus amargurados personagens, na insensatez de sua luta de suporte da condição humana, num universo absolutamente adverso.

Enquanto no Inverno da Luz Vermelha havia a prevalência do espanto de um personagem condenado à solidão, na peça A Hora Amarela a protagonista Ellen (Deborah Evelyn) duela sua sobrevivência com a claustrofobia subterrânea de um porão.

Num contexto apocalíptico de uma metrópole sob ocupação, ela aguarda uma resposta à partida sem volta de seu marido, energizando sua combalida resistência com a vaga esperança do momento de trégua, personificado na hora amarela.

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Isolada nesse bunker, ainda enfrenta o estranhamento causado pelas súbitas chegadas de terrificados personagens. Desde um fugitivo com referências comportamentais muçulmanas e incomunicabilidade linguística (Daniel Infantini), a uma mulher drogada (Isabel Wilker) com um choroso bebê na mochila.

A sordidez desses misteriosos e indefinidos visitantes tem sequência com a miserabilidade de um ex-prisioneiro (Emílio de Mello), além de dois personagens focados na eugenia racial, de incidência ocasional na finalização da trama dramatúrgica (Daniele do Rosário / Darlan Cunha).

A reverberante performance de Deborah Evelyn propicia seu permanente domínio de cena e, em torno deste intenso protagonismo, destacam-se a carga dramática alcançada por Emílio de Mello e a expressiva linearidade de Isabel Wilker.

Na generalidade do contexto cênico, o alcance da totalização inventiva, com um sotaque quase cinema, no comando de Monique Gardenberg.

E superlativado com a cenografia de ambiência caotizada (Daniela Thomas / Camila Schmidt), ao lado do mimético figurino (Cássio Brasil) e da luz ambiental entre sombras (Maneco Quinderé).

E, enfim, com o altissonante score musical (Lourenço Rebetez / Zé Godoy), entre ruídos e frases musicais, transfigurado no melancólico clamor da canção de Yael Naim: “Está tudo acabado, acabado. /Tudo acabado. / Se nós perdemos a melhor coisa que já tivemos”.

A crítica deste espetáculo foi realizada durante a sua temporada no Teatro II do Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro.
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Serviço
A Hora Amarela está em cartaz em São Paulo, no Teatro Sesc Bom Retiro, Alameda Nothmann, 185. Quinta e sexta, 20h; sábado,19h; domingo,18h. Temporada: 20 de fevereiro a 29 de março.

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Wagner Correa de Araújo

Jornalista especializado em cultura, roteirista, diretor de televisão, crítico de artes cênicas. Dirigiu os documentários "O Grande Circo Místico" e "Balé Teatro Guaíra 30 Anos" . Participou como critico e jurado de festivais de dança e cinema, no Brasil e na Europa.