A História nunca imita a ficção

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Esqueça o acaso. Trump ainda governa porque parte das elites norte-americanas quer encobrir, com superioridade militar, a decadência geopolítica e econômica de um império em fim de linha

Por Nuno Ramos de Almeida 

Há a ideia de que, muitas vezes, a realidade suplanta a ficção, como se os aspectos mais delirantes dos romances mais fantásticos fossem, por vezes, ultrapassados por momentos de ruptura no normal cinzento dos dias.

Na maior parte das vezes, as páginas de ficção apenas avisam, em cima da hora, para o que pode acontecer. É o caso do livro de Sinclair Lewis It Can’t Happen Here (Não vai acontecer aqui), de 1935, que discute, dois anos depois da ascensão de Hitler ao poder na Alemanha, a possibilidade de um candidato populista e fascista vencer umas eleições nos EUA. A obra foi recentemente considerada uma espécie de antecipação histórica de Donald Trump, sublinhando-se as parecenças entre o Twitter solto do atual inquilino da Casa Branca e o protagonista presidencial do livro, Berzelius Windrip, que na convenção que o elege candidato proclama que os norte-americanos “são a mais grandiosa Raça da face da Terra”, como quem diz, “make America great again”.

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O romance de Sinclair Lewis, reeditado em diversos país depois da eleição de Trump, é mais uma reflexão sobre o presente de então, com a emergência do fascismo e do nazismo em muitos países da Europa, que um exercício distópico de antecipação do futuro. O que tem de fascinante é a confirmação de que todas as ideias que nos vendem da solidez da democracia liberal e da eternidade do capitalismo são falsas; prendem-se mais à falta de memória histórica da humanidade, com a diferença entre tempo histórico e a duração das nossas vidas, do que com o fato de vivermos num regime imutável de estabilidade. Em menos de 100 anos tivemos revoluções, guerra mundiais, governos de todos os tipos, alterações abruptas até no modo de produção dominante nestes anos todos.

A questão que algumas correntes da chamada história contrafactual colocam é diferente do romance de Sinclair Lewis: é um certo enfoque em pequenos momentos de mudança e no papel de grandes personagens, em detrimento da ideia de uma história estrutural que, embora feita por humanos, é um rio demasiado pesado para ser uma história de homens e mulheres isolados.

Na sua crítica ao marxismo , em Freedom and Organization (1934), Bertrand Russell contestava o determinismo histórico ao afirmar: “Pode defender-se, bastante plausivelmente, que se Henrique VIII não se tivesse apaixonado por Ana Bolena, os Estados Unidos não existiriam hoje. Foi, pois, devido a esse acontecimento que a Inglaterra rompeu com o papado e, portanto, não reconheceu a doação das Américas, feita pelo Papa, a Espanha e a Portugal. Se a Inglaterra tivesse permanecido católica, é provável que aquilo que são hoje os EUA fizesse parte da América espanhola”, afirmava Russell.

Defensores de outras correntes da História argumentariam que, para além de Ana Bolena ter perdido a cabeça durante o processo, se Henrique VIII não tivesse rejeitado a submissão a Roma por causa de uma paixão, tê-la-ia provavelmente rejeitado por outra coisa europeu, independentemente do fato histórico concreto que fosse marcar essa ruptura.

Não é preciso ir a um marxista para ver argumentos mais estruturais: numa introdução do livro História Virtual, coordenado por Niall Ferguson, cita-se o filósofo Michael Oakeshott insurgindo-se contra o elogio da importância do acaso, a propósito de um episódio-chave na afirmação do cristianismo. Caso São Paulo tivesse sido capturado e morto quando os amigos o fizeram descer os muros de Damasco, isso teria tido um efeito importante e o cristianismo, provavelmente, não teria chegado ao Ocidente, o que modificaria as coisas. “A difusão do cristianismo pode ser atribuído à fuga de São Paulo (…). Mas, quando os acontecimentos são tratados desta maneira, deixam imediatamente de ser acontecimentos históricos. O resultado não é apenas má História, ou pelo menos duvidosa, mas também a completa rejeição da História”, faz notar Oakeshott, acrescentando mais à frente: “Na História, a pergunta nunca é o que deve ou o que deveria ter acontecido, mas apenas os que as provas nos obrigam a concluir que aconteceu realmente. (…) O historiador nunca é chamado a considerar o que deveria ter acontecido se as circunstâncias tivessem sido diferentes.”

O que é interessante no exercício de Sinclair Lewis é que ele não se baseia no que aconteceria nos EUA se as circunstâncias fossem diferentes, mas chama a atenção para o fato de a ascensão do fascismo e do nazismo não ser fruto da loucura de homens isolados, estando antes inscrita em circunstâncias que abriam possibilidades históricas de estas escolhas políticas também serem possíveis do outro lado do Atlântico.

É claro que as circunstâncias e os quadros sociais, políticos e econômicos comuns criam possibilidades, e não determinações. Mas ver o quadro de fundo permite-nos pensar as razões pelas quais Hitler conseguiu chegar ao poder e também as razões, naturalmente diferentes e noutro quadro histórico, em que Donald Trump foi eleito. Este exercício permite-nos relativizar o azar e a alegada loucura das personagens para as colocar num quadro mais geral: a chegada ao poder de Trump é mais a escolha de um conjunto de elementos das elites — que veem a superioridade econômica dos EUA colocada em xeque e querem fazer valer a sua enorme superioridade militar — do que resultado do acaso e do comportamento errático de um milionário com um cabelo duvidoso de cor berrante.

Assistimos, num mundo carregado de armas nucleares, o regresso da ideia de uso da força bruta para compensar debilidades econômicas estruturais. Alguns setores da liderança mundial, com medo de perder no terreno da economia, querem lembrar que, em última instância, a força também conta. Infelizmente, esquecem-se que isso seria como armar seguranças de casas noturnas bombas atômicas: tem tudo para correr muito mal.

Os últimos dados conhecidos sobre o alegado papel de Moscou na eleição de Trump também parecem dar asas à ficção. A ideia de que os russos tenham conspirado longamente para colocar um ativo seu, que seria Trump, na presidência dos EUA é bastante divertida, mas não passa disso. Se provado o papel de Moscou na luta entre Hillary e Trump, estamos mais diante de uma estratégia de criar uma enorme confusão na potência adversária, assumindo riscos pouco calculados, do que a colocação de uma pedra angular no coração do adversário.

Muitas vezes, estes cálculos saem furados, como aconteceu a Muamar Khadafi, que anos depois financiar a campanha presidencial de Nicolas Sarkozy se viu apeado do poder por uma decisão de guerra, articulada pelo mesmo Sarkozy que lhe devia tantas coisas e que viu assim a dívida reduzida a escombros.

É por isso que, assistindo a estes casos, dá vontade de ir buscar geniais momentos de ficção, mas, na maior parte das vezes, a ficção é muito mais elegante do que a realidade e tem uma beleza e uma moralidade que escapam completamente a uma realidade invadida pela estupidez.

Gostaria que a realidade nos EUA ou até na Espanha seguisse as linhas de um dos contos de uma obra maior de Borges, Ficciones, Tema del traidor y del héroe, que o quadrinista Hugo Pratt vai potencializar ao máximo, reinventando-o no seu As Célticas, em Concerto em O menor para harpa e nitroglicerina. A trama resume-se rapidamente: um herói da Resistência irlandesa foi morto pela ação de um coronel irlandês, sob comando inglês. Temos um herói e um carrasco visíveis para toda a gente. Mas, ao longo da história, percebe-se que o herói é o carrasco, e o mártir não passava de um traidor: o coronel era espião da Resistência irlandesa, que descobre que o seu líder é um espião inglês. O líder acreditava mais nas libras britânicas que na revolução irlandesa. Só o martírio do falso herói e a morte do verdadeiro herói, o coronel britânico, e dos homens que sabiam que o herói da Resistência era um traidor, podem permitir a continuação da luta da Resistência.

Seria muito mais divertido se, na realidade, o galego Mariano Rajoy, irmanado com o catalão Albert Rivera, fosse um infiltrado independentista para destruir Espanha, fazendo enterrar o partido que a governa em escândalos de corrupção e ordenando uma repressão na Catalunha tão pouco inteligente que contribuísse para a sua independência.

Dispensemo-nos de sonhar com enredos fantásticos: a realidade é, na maior parte das vezes, muito comezinha e explicada por ganâncias e imbecilidades menores, como a relatada numa notícia, no site catalão El Nacional, que nos diz que Albert Rivera, filho de operários andaluzes, antigo militante do PP, atual líder dos Ciudadanos [partido de direita que se apresenta como de centro], passou de uma casa modesta em que vivia com a namorada para morar num apartamento alugado – no bairro onde habita Cristiano Ronaldo, o Pozuelo de Alarcón, em Madri – com um valor de mercado superior a um milhão de euros.

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Nuno Ramos de Almeida

Nuno Ramos de Almeida é jornalista português, editor-executivo do Jornal I (www.ionline.pt).

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