A guerra como farsa, numa vila afegã

Por Maiwand Safi, Institute for War and Peace Reporting (IWPR) | Tradução Coletivo Vila Vudu

O distrito de Alasay da província de Kapisa, a nordeste da capital afegã Cabul, é cenário de um arranjo raro entre funcionários, polícia e exército do governo afegão e os talibãs, onde um lado vive como se o outro não existisse.

Tendo afinal reconhecido que, ali, um lado jamais derrotará o outro, os dois lados decidiram tentar conviver o mais pacificamente possível, conforme as circunstâncias permitam.

Guerrilheiros talibãs e policiais, ambos armados, andam pelo mercado no centro do distrito, tratando-se com respeitosa indiferença e sem que uns impeçam os movimentos dos outros. Há quem diga que os têm visto lado a lado em funerais e casamentos.

Para facilitar as relações e minimizar qualquer embaraço, decidiu-se recentemente que os guerrilheiros vão às comprar pela manhã e os policiais, à tarde.

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“Muito melhor assim”, disse Reza, dono de banca no mercado, “porque antes todos tinham medo que, de repente, todos se pusessem a atirar uns contra os outros. Agora, há horários separados e eles só raramente se encontram.”

Um policial, que pediu que seu nome não fosse publicado, vem de ônibus todos os dias até o centro, de sua casa na vila, onde os talibãs ainda têm pleno controle do governo, mas nunca mais o perturbaram, apesar de ter de andar uniformizado e armado.

“Cruzo com os talibãs ao longo do caminho e no ônibus, e nos cumprimentamos. Às vezes, nos lamentamos de ter de acordar tão cedo para trabalhar. Mas vivo aqui desde criança, como eles. Nós não os perturbamos e eles não nos perturbam. É um arranjo local, informal.”

Mirzaman Mangarai, chefe de polícia do distrito de Alasay, disse que o pacto de não agressão é o reconhecimento tácito de que nenhum dos lados tem ou poderá vir a ter superioridade militar.

“Tenho vinte soldados e vinte policiais para fazer patrulha”, disse ele. “Temos de fazer respeitar a lei, mas não temos efetivo para fazer isso pela força. Os talibãs não têm meios aqui para nos expulsar. Talvez fosse melhor que vivêssemos em vilas separadas, porque representamos sistemas diferentes, mas não há para onde ir. E há vantagens para todos, se ficarmos. A única coisa indispensável é a paz.”

O pacto é resultado do trabalho de líderes comunitários informais em Alasay, um vale nas montanhas, onde um grupo de anciãos, há alguns anos, construiu o acordo com os guerrilheiros. Com momentos piores e momentos melhores, continua dando certo até hoje.

Dado que os anciãos também influenciam a indicação do chefe de polícia local e dos soldados, todos foram ouvidos no acordo e, de fato, firmaram um pacto de não agressão.

O governador local, Mullah Mohammad, disse que o acordo é informal, sem nada assinado. Disse também que toda sua equipe de governo foi instruída a manter a política do governo central de tentar persuadir os guerrilheiros a depor armas.

“Os grupos armados devem-se manter a alguns metros de distância do mercado central de Alasay, mas também têm de vir até aqui para abastecer-se de comida. Deixamos que venham, e eles não nos perturbam”, disse. “É o resultado de um esforço conjunto, com os mais velhos das tribos, nosso processo de paz local. Até que concordem em depor armas, como quer o governo.”

Outros entrevistados parecem menos interessados em conseguir que os talibãs deponham as armas e sugerem que as coisas como estão, estão bem. Importante, para esses, é manter longe os políticos e os estrangeiros.

“Se a guerra continuasse, acabávamos mortos, ou pela polícia, ou pelo exército ou pelos talibãs, porque todos queriam nos obrigar a viver como parecia melhor a cada um deles. Se um policial, um soldado ou um talibã afegão é morto, todo o Afeganistão sofre. Então, os mais velhos de Alasai tomamos uma decisão, para que todos na nossa área possam viver em paz.”

O líder da vila disse que os talibãs comprometeram-se a não atacar soldados do Exército Nacional Afegão (ANA) ou da Polícia Nacional Afegã, a menos que sejam comandados por comandantes estrangeiros ou estejam na região especificamente para matar talibãs.

As Forças Internacionais de Segurança no Afeganistão (ISAF, em inglês) conduziram várias operações para “limpar a região”, o que significa tentar expulsar os guerrilheiros da região de Alasay, ao longo dos anos. Mas nunca conseguiram estabelecer-se no controle da região. Os soldados estrangeiros e o exército afegão instalaram bases e uma “linha de consolidação” no centro do distrito de Alasay. Mas a região, para o norte e para o leste, de montanhas escarpadas, não é favorável aos estrangeiros e é excepcionalmente favorável para as populações locais – avaliação com a qual concordam também as autoridades militares norte-americanas na área, como se ouve aqui e como também se leu em telegramas de militares dos EUA publicados por WikiLeaks.

Entrevistamos um soldado do exército afegão acampado na região, que se mostrou claramente relutante por ter de participar do esforço de contraguerrilha. Disse que sempre, na história do Afeganistão, os conflitos visam a atender interesses de outros países.

“Os talibãs são nossos irmãos também” – disse ele. Têm seus projetos, suas ideias e suas demandas, e têm direito de apresentá-las. Não são doidos. Sabem por que lutam e lutam porque realmente desejam uma vida melhor. Nem todos pensam como nós pensamos. Não significa que estejam errados.”

E concluiu: “Espero sinceramente que os talibãs e o governo cheguem a acordos como esse também em outras regiões. Os verdadeiros inimigos do Afeganistão não são nem afegãos nem talibãs.”

Um comandante talibã, que também não quer ser identificado, disse que a guerra contra as forças internacionais continua e continuará até que todos saiam do Afeganistão. Mas que seus guerrilheiros respeitarão a trégua acertada com a população em Alasay e não atacarão, a menos que sejam atacados.

“Decidimos não lutar contra forças do governo, porque somos irmãos, temos laços étnicos e religiosos, respeitamos os mais velhos de todas tribos e respeitamos o Islã. E todos somos muçulmanos e afegãos. Mas se formos atacados por ordem de comandantes estrangeiros, quem nos atacar será morto.”

Como outros entrevistados no governo também fazem, o comandante talibã faz clara separação entre os arranjos locais e a política nacional. “Esse acordo não significa que os talibãs aceitamos governos corruptos ou os assassinos norte-americanos. Significa exclusivamente que, se não formos atacados, não mataremos afegãos e muçulmanos.”

Para analistas de defesa e cientistas políticos afegãos, o acordo de paz de Alasay não passa de uma espécie de conundrum. – Será modelo de convivência pacífica a ser implantado noutras regiões, ou não passa de “empate”, na correlação de forças, sem implicações mais amplas?

O general reformado Hai Sulaimankhel não tem dúvidas: o que acontece em Alasay reflete o fracasso do governo central e do estado de direito.

“Essa situação mostra a fraqueza do governo, que é incapaz de implantar a lei em Alasay”, disse ele. “A oposição cresce, porque os problemas crescem. A realidade é que aqui há dois governos e isso é prova de que a guerrilha venceu o estado de direito, é vitória da guerrilha. É inadmissível.”

Para o general, os talibãs só aceitaram a paz local porque lhes é conveniente, mas atacarão a cidade, se lhe parecer vantajoso.

Outro analista, Abdul Ghafur Liwal, que preside o Centro Regional de Estudos Afegãos, discorda do general. Para ele, qualquer acordo que ponha fim à matança é bom acordo.

“Quando a guerra pára, a racionalidade e a lógica voltam a poder se manifestar”, diz. “Tenho certeza de que esse acordo informal ajudaria outras áreas a ver que a guerra não é solução nem caminho para coisa alguma.”

Diferente do general Sulaimankhel, Liwal entende que uma trégua prolongada com os talibãs interessa ao governo central afegão, porque cria condições para que o governo ponha em prática seus projetos. “Se tiver projetos, é claro” – concluiu.


O Instituto para Reportagens sobre a Guerra e a Paz (IWPR, em inglês) é um centro pacifista dedicado a relatar, de modo alternativo ao dos grandes meios, as situações de conflito e as lutas pela paz.

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Maiwand Safi

Maiwand Safi é colaborador do Instituto para Reportagens sobre a Guerra e a Paz (IWPR, em inglês), um centro pacifista dedicado a relatar, de modo alternativo ao dos grandes meios, as situações de conflito e as lutas pela paz.

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