A Grécia revive uma “vitória de Pirro”

Partidos tradicionais vencem eleições, mas deparam-se com país arruinado e intransigência da “troika”. Nova esquerda planeja futuro. Mercados atacam Espanha

Por Antonio Martins


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Considerado um dos maiores generais da Grécia antiga, Pirro, rei do Épiro, invadiu a Península Itálica em 280 a.C. disposto a frear a expansão dos romanos. Seu exército numeroso e muito bem-armado, dotado de vasta cavalaria e elefantes, alcançou inicialmente alguns triunfos. Mas, ao contrário do adversário, não tinha apoio da população local – e foi definhando ao longo dos combates. Em 279 a.C., Pirro venceu os romanos em Ásculo, mas perdeu 3,5 mil homens. Quando seus oficiais foram cumprimentá-lo pelo triunfo, respondeu com amargura: “mais uma vitória destas e estou arruinado”.

É possível que uma sensação semelhante tenha se apoderado, a esta altura, de Antonio Samaras, o grego que lidera o partido (de centro-direita) Nova Democracia. Depois de vencer por estreita margem as eleições parlamentares do domingo (29,7% x 26,9%), ele quer formar um novo governo, com duas outras agremiações menores – Pasok e Esquerda Democrática – que também se submeteram aos acordos impostos ao país pela oligarquia financeira e pela troika (Banco Central Europeu, Comissão Europeia e FMI). Três fantasmas o assombram.

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Primeiro, terá de apresentar, a um país já muito combalido, nova bateria de más notícias, previstas no compromisso que seu partido endossou. Não há sinais de alívio. Horas depois do pleito, a troika exigiu respeito ao pacto e avisou que não fará concessões. Por fim, a Syriza, coalizão política que reúne partidos e movimentos cidadãos, anunciou que continuará na oposição e na luta por um Programa de Reconstrução Nacional. Samaras precisa de um fato novo que modifique repentinamente todo o cenário – ou suas chances de fazer um governo estável serão próximas de zero.

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Há alguns dias, a situação caótica das finanças e serviços públicos gregos assumiu também a forma de uma crise hospitalar, relatada por The Economist. As indústrias farmacêuticas deixaram de entregar medicamentos aos hospitais públicos, após meses fornecendo sem receber. Cirurgias foram adiadas em grande número e faltam itens tão básicos como seringas e gaze. Em outras frente, o Tesouro anunciou que, sem recursos, poderá ser incapaz de pagar os salários de todos os servidores públicos a partir de julho.

A situação poderá agravar-se em breve, segundo o próprio New York Times, insuspeito de postura anti-capitalista. Um grupo de inspetores da troika viajará a Atenas assim que um novo governo esteja constituído. Para evitar que a falta de dinheiro paralise por completo o Estado grego, eles propõem-se a destravar o equivalente a 9,6 bilhões de dólares – mais uma pequena parcela de um empréstimo liberado a conta-gotas. Mas fazem exigências: os novos dirigentes devem cortar mais US$ 14,5 bilhões do Orçamento público para 2012. Entre outras consequências, significará demitir outros 150 mil servidores públicos, num país onde o índice de desemprego é de 22% e ultrapassa 50% entre os mais jovens.

Para alcançar a vitória no domingo, os partidos que aceitam os acordos com a troika empregaram duas armas. A primeira foi o medo: uma eventual vitória do Syriza, afiançaram, excluiria a Grécia do euro e mergulharia a economia em catástrofe. A segunda, foram promessas de uma renegociação do acordo com a troika. O líder do segundo partido disposto a compor o governo (o Pasok, que teve 12,3% dos votos se declara “socialista”) afirmou que uma revisão dos termos negociados é “uma exigência indispensável”. Já Fotis Kouvelis, dirigente da “Esquerda Democrática” (6,25%) , foi além: para ele, o “objetivo-chave” do novo governo deve ser desligar a Grécia das cláusulas que estão “dizimando a sociedade”.

Aparentemente, faltou combinar com os chefes. A chanceler alemã, Angela Merkel, que se sentia isolada nas últimas semanas, após uma série de derrotas eleitorais, sinalizou nesta segunda-feira, que a vitória dos partidos pró-troika na Grécia deixou-a revigorada. Mas a nova energia parece ter multiplicado também sua intransigência. “O importante é que o novo governo persevere em seus compromissos. Não se pode relaxar o ritmo das reformas”, disse ela, ao falar pela primeira vez à imprensa no México, onde participa de uma reunião do G-20.

Em sintonia com os governantes mais duros, agiu a oligarquia financeira. Os aplicadores que determinam o rumo dos mercados da dívida não moderaram suas exigências, mesmo depois de terem mantido na Grécia um governo amigável. Ao contrário. Ontem e hoje, intensificaram-se as pressões sobre a Espanha, também vista como frágil. Para rolar os títulos de 18 meses emitidos pelo tesouro espanhol, os credores exigiram nesta terça-feira juros de 5,1% ao ano – 60% mais altos que os aceitos há apenas 40 dias

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Talvez por terem consciência de que suas esperanças de concessões por parte dos credores eram vãs, os partidários da Nova Democracia quase não comemoraram a vitória no domingo. Segundo El País, poucas centenas de pessoas concentraram-se domingo à noite na Praça Sintagma, em Atenas, num ato “breve e bastante forçado”: “gritaram ‘Grécia é Samaras”, agitaram algumas bandeiras e foram para casa”.

Em outra parte da cidade, Alexis Tsipras, o líder do Syriza, reuniu seus apoiadores e afirmou que se sentia orgulhoso da luta que travara e do resultado obtido. Por sua capacidade de responder à crise formulando propostas positivas para resolvê-la renovando o país, a coalizão multiplicou por seis os votos obtidos em 2009 (à época, 3,9%) e esteve muito próxima de chegar ao governo dos votos. Ainda na noite do domingo, Tsipras anunciou que cumprimentara Samaras, da Nova Democracia, reconhecendo o resultado do pleito. Mas também comunicou que a Syriza rejeitaria os acenos para compor um “governo de união nacional”. Preferia liderar a oposição e continuar debatendo com a sociedade a hipótese do Programa de Reconstrução Nacional.

Apoiadores da Syriza festejam, no domingo, eleição que quase mudou história da Grécia

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“Olhe, olhe as fotos dos jornais: os vencedores têm cara triste, os que perderam sorriem”, reparou um açougueiro no mercado central de Atenas, ouvido também por El País. E acrescentou: “Agora que já não têm de onde roubar, quase me dão pena os que precisarão ocupar-se do governo”.

As chances de algum alívio para Samaras estão numa reunião que os governantes europeus manterão em Bruxelas, nos próximos dias 28 e 29. O principal tema em pauta é uma possível revisão das políticas que estão mergulhando os países do “velho continente” em crises inimagináveis há poucos anos. O novo presidente francês, François Hollande, tem insistido num plano de 120 bilhões de euros para reativar as economias da região. Segundo El País, contudo, os rascunhos da resolução que está sendo trabalhada para o encontro são, até agora, mais do mesmo: desregulmentação predatória dos mercados de trabalho e sistemas de proteção social; “nenhum ou quase nenhum estímulo keynesiano”.

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